Uma resenha: “Contra o Dia”

Resenha minha sobre o livro de Pynchon (do qual escrevi também a orelha), publicada na Folha de S. Paulo em abril:

Como quase tudo que envolve Thomas Pynchon, a história pode ser só mais uma lenda. Após o 11 de Setembro, ele teria manifestado a amigos preocupação com a resposta americana aos ataques -a invasão do Afeganistão e medidas como o Ato Patriótico, que até hoje suspende alguns direitos individuais.

Sua reação foi escrever “Contra o Dia”, publicado originalmente nos EUA em 2006 e que sai agora no Brasil pela Companhia das Letras.
Mistura de romance de aventura aérea e saga de vingança, “Contra o Dia” tem, de fato, elementos que remetem ao mundo de hoje.

Fim da privacidade, terrorismo, instabilidade política, ganância capitalista e autoritarismo são o pano de fundo do livro.

Mas o livro vai muito além de uma parábola sobre paranoia. Sem abrir mão de estilo e originalidade, o sexto romance da carreira de Pynchon é uma espiral de mais de cem personagens, muitos extravagantes, indo do Colorado a Londres, de Chicago a Nova York, Veneza e Viena e até à Sibéria e a regiões abaixo da superfície, entre 1893 e o momento posterior à Primeira Guerra Mundial.

Tamanha exuberância espalha pela internet fãs em busca de significados. Há uma enciclopédia on-line apenas para o livro, com milhares de anotações e correlações dissecando-o quase frase a frase.

Tentativa válida, afinal não há personagem ou tema central. O elenco, numa descrição atribuída ao próprio autor, inclui “anarquistas, balonistas, jogadores, magnatas corporativos, entusiastas de drogas, inocentes e decadentes, matemáticos, cientistas loucos, xamãs, físicos, ilusionistas, espiões, detetives, aventureiros e assassinos profissionais” (além de um cão que lê Henry James).

Eles se juntam a figuras de verdade, como o cientista Nikola Tesla e o ator Groucho Marx, criando um mundo que, se não é este em que vivemos, poderia sê-lo.

TRAMAS

Com esforço, é possível apontar como tramas principais a jornada de vingança dos quatro irmãos Traverse, filhos do anarquista Webb, morto por pistoleiros contratados pelo magnata Scarsdale Vibe, e as aventuras dos Amigos do Acaso, tripulação do dirigível Inconveniência que viaja pelo mundo. A partir daí, nada é simples.

Os Traverse se veem diante de um problema: não sabem como é o matador. E os aventureiros se veem metidos em missões sobre as quais nada sabem.

A maneira como a vingança dos irmãos engrena lembra a obsessão do autor pela própria privacidade, que não dá entrevistas e só tem duas fotos conhecidas, de décadas atrás, (participou de “Os Simpsons” com um saco na cabeça). Um dos irmãos só a leva adiante após receber a foto do assassino. É como se Pynchon justificasse si mesmo: se eles conhecem seu rosto, podem pegar você.
 
ENCICLOPEDISMO

Como em “O Arco-Íris da Gravidade” (1973), sua obra mais famosa, passada na Segunda Guerra, à qual é uma espécie de introdução, o enciclopedismo se funde a seguidas trocas no estilo de narrativa, personagens com nomes esquisitos e uma assombrosa quantidade de temas -espiritualidade, jazz, pacifismo, paranoia, ciência…

Em “Contra o Dia”, Pynchon reafirma sua visão do mundo, fundada nos valores dos anos 1960, com uma mensagem atual: o futuro ainda não chegou, preocupem-se com o mundo de agora.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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2 Responses to Uma resenha: “Contra o Dia”

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