Nelson Rodrigues fala de teatro

Nós sabemos que o sujeito mais livre do mundo é o leitor. Nada interfere no
pudor, na exclusividade e na inocência de sua relação com a obra de arte. Está só,
espantosamente só, com o soneto, o romance ou com o drama. Já o espectador é o
mais comprometido, o mais impuro e, por outra, o menos inteligente dos seres.

Eu percebi isso, de repente, na estréia de A mulher sem pecado. Não foi um texto
que me fez autor; nem a representação, nem o décor. Eu não era ainda autor no
ensaio geral. Foi preciso que, de repente, o público invadisse o teatro. Lembro-me
de uma senhora gorda, de chapéu, e que entrou — comendo pipocas. Naquele
momento, eu descobri uma verdade jamais suspeitada: — o teatro é a menos criada
das artes, a mais incriada das artes.

Gide tinha horror do teatro, porque este é a síntese de todas as artes. Nem
isso. O teatro não chega a ser arte. E a senhora gorda, devoradora de pipocas, tinha
um prodigioso valor simbólico. Afinal, eu escrevera para ela e pensando nela; e não
só eu. Dos gregos a Shakespeare, de Ibsen a O’Neill, todos escrevem para a senhora
gorda. Portanto, eu diria, ainda hoje, que ela é co-autora de cada texto dramático.

(A menina sem estrela)

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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