Sexo e acidentes de carro

Em 1970, alguém do New Arts Laboratory, em Londres, me contactou para perguntar se eu gostaria de expor algo lá. Me ocorreu que poderia testar minha hipótese sobre os links inconscientes entre sexo e acidentes de carro. O Arts Lab me ofereceu a galeria por um mês. Eu dirigi por ferros-velhos no norte de Londres e paguei para que três carros, inclusive um Pontiac, fossem entregues na galeria.

Os carros foram expostos sem nenhum material gráfico de apoio, como se fossem grandes peças de escultura. Uma pessoa da TV, entusiasta do Arts Lab, ofereceu-me uma câmera e monitores nos quais os convidados  podiam ver a si mesmos enquanto passeavam em volta. Eu sugeri que ele contratasse uma jovem para entrevistar o público a respeito de suas reações. Contactada por telefone, ele aceitou fazer o trabalho nua, mas quando ela viu os carros acidentados, me disse que só aceitava topless – uma resposta significativa, senti no mesmo momento.

Eu nunca vi os convidados de uma galeria ficarem bêbados tão rápido. Havia uma grande tensão no ar, como se alguém se sentisse ameaçado por um alarme interno que começou a soar. Ninguém teria notado os carros se estivessem estacionados na rua, mas sob as luzes invariáveis da galeria estes veículos danificados pareciam provocar e perturbar. Vinho foi espalhado sobre os carros, janelas foram quebradas, a garota de topless quase foi estuprada no banco de trás do Pontiac (foi o que ela alegou) (…). Uma jornalista do New Society começou a me entrevistar sobre o caos, mas estava tão agitada pela indignação, da qual o jornal tinha um suprimento inesgotável, que se restringiu a me atacar.

Durante o mês os carros foram incessantemente atacados, manchados com tinta branca por um grupo hare kishna e dilapidados para roubo de espelhos e placas. Quando foram rebocados,  sem pesar, tinham sido confirmadas todas as minhas suspeitas a respeito das ligações inconscientes que minha novela podia explorar.

J.G. Ballard explica de onde vieram das idéias de Crash.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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