Muhammad Ali ensina a viver

Talvez toda doença resulte de uma falha de comunicação entre a mente e o corpo. Isso é certamente verdadeiro em uma doença tão rápida quanto o nocaute. A mente não consegue mais transmitir uma palavra sequer aos membros. O extremo dessa teoria, exposta por Cus D´Amato quando treinava Floyd Patterson, é que um pugilista com desejo autêntico de vencer não pode ser nocauteado. (…) O soco pode machucar, mas não é capaz de liquidá-lo.

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Hoje em dia é como se Muhammad Ali levasse essa idéia a algum lugar avançado, onde pudesse assimilar socos mais depressa do que os outros lutadores, onde pudesse literalmente transmitir o choque através de uma quantidade maior de partes do corpo ou dirigi-lo para o melhor traçado, como se estivesse trabalhando em busca da habilidade de receber aquela combinação de cinco (ou seis ou sete!) golpes e ainda assim estar pronto para enviar o impacto para cada braço, cada órgão, cada perna, de modo que o castigo pudesse ser digerido e a mente mantida clara.  Observar Ali tomar socos era um aprendizado. Ele se deitava nas cordas e jabeava em direção ao sparring como uma gata que afasta seus gatinhos.

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Ali estudava todo o tempo como amortecer tais choques ou como castigar a luva que o transmitia, sempre elaborando sua compreensão íntima de como neutralizar, enfraquecer, modificar, enganar, encurvar, desviar, distorcer, defletir, inclinar e cancelar as bombas atiradas contra ele e fazê-lo com um mínimo de movimento, deitado nas cordas, as mãos erguidas languidamente. Invariavelmente treinava em um cenário que o mostrava fatigado ao extremo, cansado demais para erguer os braços no décimo segundo assalto de uma luta de quinze.

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De seu corner, gritavam-lhe “Pare de brincar”.  Os jurados descontavam-lhe pontos por deitar nas cordas, os comentaristas escreviam que ele não parecia o velho Ali e o tempo todo o que ele fazia era refinar métodos.

Norman Mailer – A LUTA.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to Muhammad Ali ensina a viver

  1. Lê, se puder, no Thompson (Grande Caçada aos Tubarões, se não me engano) a reportagem que eles fez para a Rolling Stone com o Ali. Faz tempo que li, mas merecia ser re-lida até! Grande e mal compreendido Thompson…

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