A entrevista como uma das belas artes

Trechos da entrevista de Antonio Abujamra ao jornal O Povo, de Fortaleza.

OP – Você tem medo de alguma coisa?
Abujamra – Blá! Blá! Blá!

OP – O seu personagem provocador não tenta um pouco assustar as pessoas?
Abujamra – Fala mais alto! Eu sou surdo. Além de tudo isso, eu sou surdo.

(….)

OP – Na hora de uma entrevista, você é um ator também?
Abujamra – Vai tomar no teu cu, antes que eu me esqueça. Eu sei lá se eu sou ator ou se eu não sou. (…)

OP – Você não tem mais esperanças?
Abujamra – Nenhuma. Eu quero que a esperança vá tomar no olho do cu dela. Não tem mais nenhuma.

(…)

OP – Quando você percebeu que estava velho?
Abujamra – Eu devia ter uns 15 anos. Eu sou um velho. Eu lia demais. Eu ficava lendo, lendo. Por isso envelheci. Eu sei lá quando eu era velho. Velho é quando começa a baixar o pau. Sei lá, um dia eu sentei nas bolas e percebi que estava velho. (…)  Acabou a entrevista?

OP – Ainda não!
Abujamra – (…) Olha para o fotógrafo) O Cartier Bresson, você vai encher muito meu saco ainda? (Pega uma batata-frita e a coloca na altura do pênis e posa para o fotógrafo). Gosto de fazer caretas.

OP – Por que você odeia tanto as coisas?
Abujamra – Quem disse que eu odeio? Não é assim, eu odeio as coisas. Eu sempre fui bem claro. Eu odeio tudo. Não é algumas coisas. Odeio o mar, o ar, vocês. Acho tudo uma bosta nesse país, um lixo. Eu acho odiar uma coisa bem menor do que a vingança. Eu devia me vingar das coisas que acontecem nesse país. Eu só digo que odeio porque as pessoas acreditam que eu odeio.

OP – Quem odeia ama?
Abujamra – Mas é cada pergunta! Vocês tão querendo, né? Vocês vão piorando cada vez mais. Quem odeia ama sim. Ama, trepa, odeia. Ama de novo. Exatamente o que você acha da vida é o que acontece. Gostou? Porra! Tem muita coisa que a gente não sabe responder. Dá para vocês irem embora? A melhor coisa da entrevista até agora foi a batata frita. Geralmente me fazem só três perguntas. Vocês trouxeram um livro. Vão embora!

OP – A gente combinou ser uma hora de entrevista…
Abujamra – Então eu vou dormir aqui. Quando der o tempo, vocês me acordam. Vai seu viadinho, pergunta logo!

(…)

OP – Você se acha superior a outras pessoas?
Abujamra – Acha? Eu não quero achismo.

OP – Desculpa. Você se considera superior a outras pessoas?
Abujamra – Superior? Eu não sou superior a nada. Eu sou um bosta igual a todos. Só que eu vejo as coisas que não me agradam e eu falo. Fui jornalista, fui crítico, fiz tudo na minha vida. Trabalhei em todas as televisões. Fiz 127 peças de teatro. Eu lá vou saber responder essas coisas. Vocês são muito metidos. Aliás, o Ceará é muito metido, sabia? E não tem porra nenhuma. Chega alguém e diz: esse escritor escreveu esse livro recente e é melhor que o Guimarães Rosa. Aqui no Ceará se escreve um poema e acham que mudaram a poesia. Aí eu viajo e comento com alguém. Os caras lá no Ceará escrevem um livro e acham que mudaram a literatura. Alguém responde: “Eles estão certos”. (risos)

(…)

Será que a palavra não é uma coisa muito clara? As pessoas não sabem falar. Elas falam de coisas que não sabem falar e não buscam. Não lêem. Não estudam. Peguem um grande livro, um Joyce, um Kafka, um Proust, um Beckett. Aprendam a ler! Se não dá para não ir ao passado, pega o presente. Existem novos filósofos brasileiros? Não têm! Ou seja, fodam-se. Não me encham o saco. (Pega o gravador e joga longe do local da entrevista. O repórter o recolhe de volta). Levantem-se. Vão embora. Estagiária, vai também. Tchau. Não vou responder mais nenhuma pergunta.

OP – Por que você topou dar essa entrevista, então?
Abujamra – Canalhas! Eu disse “não” 40 vezes. Aí me encheram o saco. “Precisa dar entrevista. É Fortaleza. Blá Blá Blá”. Eu odeio, recusei outra entrevista. Não sei onde apaga essa porra do teu gravador. (Joga de novo o gravador)

OP – Existe alguma…
Abujamra – Vai tomar no cu. Acabou a entrevista. Eu agora só vou responder assim: vão tomar no cu!

OP – Mas tem uma frase…
Abujamra – Vão tomar no cu!

OP – Mas acabou mesmo a entrevista? Queria perguntar mais.
Abujamra – Vai tomar no cu! Nunca falei tanto para jornalista. Lê as outras entrevistas, copia. Tchau! Você é um ridículo fazendo essas perguntas.

(…)

OP – Essa entrevista deu certo ou deu errada?
Abujamra – Você começou a entrevista de novo? Você pode ir embora, eu quero ler os jornais. Tenho 77 anos e não tem entrevista próxima. Eu vou morrer.

OP – Te incomoda a morte?
Abujamra – Eu não agüento vocês. Me incomoda muito. Não, não! Não me incomoda nada. As duas estão certas e aí? Eu não quero responder essas coisas. Tudo o que eu falar, pode escrever o contrário. Não tem importância. Vieram me provocar, então podem ir embora. (A equipe se levanta e segue para fora do hotel. Abujamra grita com os braços erguidos Aleluia! Aleluia! Por favor, terminem a reportagem assim. Aleluia! Aleluia! Aleluia!)

>> Durante a infância, Antonio Abujamra morou em Porto Alegre, onde estudou para se tornar padre ou militar. Possivelmente não foi um bom aluno de matemática.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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3 Responses to A entrevista como uma das belas artes

  1. luzrenato says:

    a falta de paciência e mau humor dos velhos.
    quando se é velho desde os 15 anos é melhor.
    me vi num futuro próximo mandando todo mundo tomar no cú de novo!

  2. Se um dia eu for famoso, vou querer dar entrevistas assim. Grande Abujamra!

  3. jogadorcaro says:

    Imagino o Faustão dando entrevista assim. Pra começar nao ia ter repórter porque ele mesmo ia fazer as perguntas pra si próprio.

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