Kurt Vonnegut está escrevendo

Ele reescrevia e reescrevia e reescrevia, resmungando sem parar o que quer que tivesse acabado de escrever, inclinando a cabeça para a frente e para trás, gesticulando, mudando o tom e o ritmo das palavras. Então fazia uma pausa, pensava bem e arrancava da máquina a folha em que mal escrevera algo, amassava, jogava fora e começava de novo. Parecia estranho um adulto passar o tempo daquele jeito, mas eu era só uma criança.

(…)

Quando escrevia, Kurt estava dando inícioa uma missão. Ele sabia, porque havia acontecido antes, que se conseguisse se manter em atividade poderia esbarrar em algo interessante, que então moldaria e imprimiria sua marca. Por mais vezes em que isso tenha acontecido não tinha muito autoconfiança. Preocupava-se que cada boa idéia pudesse ser a última e que qualquer sucesso aparente fosse fogo de palha.

Preocupava-se em ter pernas finas e não ser um bom jogador de tênis.

Tinha dificuldade em se permitir ser feliz, mas mal disfarçava a alegria que sentia por escrever bem.

Os períodos mais infelizes de sua vida eram aqueles meses e às vezes um ano inteiro em que não conseguia escrever, em que estava “bloqueado”. Tentava de tudo para se desbloquear, mas ficava muito inquieto e desconfiado quando o assunto era a psiquiatria. Uma vez deixou escapar, eu tinha vinte e poucos anos, que tinha medo de que a terapia pudesse deixá-lo normal e equilibrado e que isso terminaria com sua vida de escritor. Tentei convencê-lo de que os  psiquiatras estavam longe de serem tão bons assim.

(…)

Em meados de 1950 foi contratado pela Sports Illustrated por um breve período. Compareceu ao trabalho e recebeu a solicitação de escrever um pequeno texto sobre um cavalo de corrida que havia saltado sobre a cerca e tentado fugir. Kurt Vonnegut ficou encarando o papel em branco a manhã inteira e então datilografou “O cavalo saltou sobre a porra da cerca” e saiu, novamente autônomo.

(…)

Ele era como um extrovertido que queria ser um introvertido, um cara muito sociável que queria ser um solitário, um sujeito de sorte que preferia ter sido um azarado. Um otimista posando de pessimista na esperança de que as pessoas prestassem atenção.

(…)

Ler e escrever são em si atos subervisos. O que subvertem é a noção de que as coisas precisam ser como são, de que estamos sozinhos, de que ninguém jamais se sentiu como nos sentimos. O mundo se torna um pouco diferente simplesmente porque elas (as pessoas) leram um bendito livro.

MARK VONNEGUT, filho dele, em Armagedom em retrospecto.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
This entry was posted in literatura. Bookmark the permalink.

One Response to Kurt Vonnegut está escrevendo

  1. jogadorcaro says:

    “Os períodos mais infelizes de sua vida eram aqueles meses e às vezes um ano inteiro em que não conseguia escrever, em que estava “bloqueado”. Tentava de tudo para se desbloquear, mas ficava muito inquieto e desconfiado quando o assunto era a psiquiatria. Uma vez deixou escapar, eu tinha vinte e poucos anos, que tinha medo de que a terapia pudesse deixá-lo normal e equilibrado e que isso terminaria com sua vida de escritor. Tentei convencê-lo de que os psiquiatras estavam longe de serem tão bons assim.”

    pensei que só eu passava por isso.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s