Love # 29

estava sentado em um banco de madeira lendo uma revista de 1987 quando ela passou. em teoria, devia ser jovem demais para despertar sua atenção, que dividia com uma revista feminina de décadas atrás que não tinha certeza como fora parar em suas mãos. lia até então a respeito da nova mulher – de 1987 – e o que esperava dos homens de agora – aquele tempo – em diante. de acordo com o artigo, algumas cantadas deviam ser evitadas a qualquer custo. “e aí, tamos nessas carnes?” vinha em primeiro lugar. o fato de viver em um mundo onde um dia foi perfeitamente lógico que homens tenham raciocinado que dizer “e aí, tamos nessas carnes?” era a maneira mais efetiva de chegar à cama de uma mulher ou levar uma mulher para a sua cama, sem desprezar as camas ocasionais, que não eram nem de um e nem do outro, era reconfortante. um sinal de normalidade. de certa forma se sentia bastante encaixado no estado de coisas geral, nem um pouco imoral enquanto a seguia com o olhar pelo corredor. ela parou por um instante, curvou-se sobre o bebedouro. o tecido do jeans apertou-a na altura das coxas. o formato da bunda revelou-se por inteiro. deus do céu, precisava falar com ela!

*****

estava tocando blood on the tracks quando vera se levantou do computador e foi até a beira da  cama, onde ele fumava um cigarro. “precisamos conversar”, ela disse. ele já sabia do que se travava, respondeu “ok”, dando a deixa para ela começar. mas ela não começou. a necessidade de terminar com aquilo, ele se deu conta, o inferno pessoal no que se transformou aquela relação não bastava para olhá-lo nos olhos, para se despedir e ir embora, simplesmente. em um sofrimento compartilhado, o abandono era uma forma de traição. “acho que precisamos viajar”, disse apenas. ele respondeu perguntando: “precisamos?” ela respondeu: “é precisamos”. ele perguntou: “quando?” ela: “no próximo fim de semana”. ele: “no próximo fim de semana não posso. tenho que dar um seminário em caxias do sul”. ela: “porra, dá um jeito. que tal no outro?”  ele: ”no outro eu posso”. ela: “então no outro que seja. (em tom de leve desespero) não quero me separar”. ele: “também não”.  antes que começassem a chorar juntos ela pediu um cigarro, ele carinhosamente acionou o isqueiro e, inalando uma bela quantidade de fumaça, abafou suas ansiedades.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to Love # 29

  1. clara says:

    ai que bonito.

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