Darwin nunca viu um calmúquio

A Calmúquia é um branco no mapa, explica Daniel Kalder sobre as razões de ter decidido visitar a república russa para escrever um livro. O branco reflete a sua importância: nenhuma. Nem mesmo na Rússia  se sabe muito daquele lugar ao sudeste, habitado por 300 mil descendentes dos mongóis e descendentes dos russos e ucranianos instalados pelo comunismo soviético após o inacreditável  exílio da população inteira do país, em 1943. Ficaram 14 anos fora e só voltaram em 1957.

Como se vive em um não-lugar? – é a pergunta de Kalder. Para comprar as passagens, teve primeiro que convencer um agente de viagens de que a Calmúquia realmente existe. Se o agente também fosse um enxadrista, talvez tivesse ouvido falar. Na capital, Elista, foi construído a luxuosa Cidade do Xadrez, uma aberração envidraçada e cara em um país pobre, onde aconteceram algumas das partidas mais importantes do xadrez internacional nos últimos anos. 

O presidente do país, Kirsan  Ilyumzhinov também dirige a Federação Internacional de Xadrez. Está poder desde 1995 e fez do xadrez disciplina nas escolas. Dirige uma república onde duas tribos mongóis ainda percorrem as estepes – de motocicleta -, a única da Europa onde o budismo é a religião oficial.

Lost Cosmonaut – o livro de Kalder – é absurdadamente engraçado. Das  observações e personagens às legendas  ( “o autor, com uma garrafa de leite, diante do Golden Gate, Elista”). Lugares como a Calmúquia, Tartistão e Mari El, a última nação pagã – também visitados -, são um mundo alienígena que justificam no visitante a sensação de ser um “cosmonauta perdido”. Estar neles é como estar fora do planeta por um tempo.

E Kalder é tão bizarro quanto as pessoas que encontra. Em certo ponto fica obcecado por encontrar o inventor do AK-47, Mikhail Kalashnikov. Em outro, permanece duas horas em um pé só no quarto de hotel só porque nenhum escritor de livros de turismo fez isso antes.

A visita a um templo budista em Elista acaba no encontro de uma raposa morta, saudado assim:

“Eu amo animais mortos e tenho uma coleção de pássaros, gatos, ratos, porcos, cães, etc, mortos. Este era um corpo relativamente fresco, de um dia ou dois. O pêlo perdera levemente a cor e seus olhos e boca estavam abertos como se tivesse morrido de um choque terrível. Agora havia um mistério: o que tinha acontecido ali? Como havia encontrado seu fim? E mais importante: como iria reencarnar?”

O antropólogo Kenneth Waltz escreveu em Introdução à Antropologia que os calmúquios nunca ficam ruborizados. Sobre eles, Kalder percebe um estranho hábito: encaram-no o tempo todo sem o menor constrangimento. Darwin, em Expressão das emoções dos homens e animais, duvidou de Waltz. Mas nunca foi à Calmúquia. O homem que ficou “vermelho de vergonha” no experimento citado por ele para provar que todos os humanos ficam mesmo ruborizados tampouco era um calmúquio. Na verdade, era um chinês.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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2 Responses to Darwin nunca viu um calmúquio

  1. marimessias says:

    tenho medo dos calmúquios
    porém, meu povo, os MARIS, arrasam
    ahahahhaha

  2. peace-on-earth.org says:

    The one with City Chess seems to be my photo

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