Idéia para um conto que não vai virar conto

Depois que Maria José foi embora o que ele mais fez foi se lembrar que na penúltima noite em que estiveram juntos ela acordou-o no meio da noite, trêmula e excitada, para contar uma história infantil, chamada “O pato preto”, que havia criado e era sobre um pato que nasce com as penas totalmente negras numa ninhada de patos brancos e, em vez de ser rejeitado, como em qualquer outra história infantil, passa imediatamente a ser venerado pelos outros como um tipo de deus.

Um violento regime de terror se instalou desde os primeiros dias do reinado do pato negro, que não se mostrou um deus muito sábio, espalhando discórdia e infelicidade por toda parte no grande terreno, que se juntava a outros grandes terrenos, onde viviam muitos tipos de patos. Todas as manhãs estes patos se moviam para a beira de um riacho e passavam o resto do dia a conversar. Faziam uma grande balbúrdia, grasnando em diferentes tons e às vezes muito alto. A comida era abundante e bastava para todos,  que poderiam se dar ao luxo de muitos períodos longos e calmos não fossem as decisões infelizes do pato negro, que a todo momento mudava de opinião sobre as regras que deviam seguir e como tinham de viver.

Implicava principalmente com o fato de todos os patos comerem projetando a cabeça para a frente e para trás, o que tentou compensar com nada menos do que três mandamento a respeito, inclusive aquele que passou a obrigá-los a um malabarismo alimentar, atirando os grãos de milho ou qualquer outro tipo de comida para cima para depois capturá-los com o bico. Tanta foi a revolta a respeito que o pato negro, contrariado, se viu obrigado a recuar e fazer voltar a situação anterior, razão de muita mágoa e despeito pelo episódio.

(E enquanto falava, Maria José arrumava os cabelos com um gesto que sempre achou absolutamente encantador. Lia com entusiasmo quase infantil o pedaço de papel onde pôs as anotações. A voz, em um tom levemente monocórdio, soava adequada para este tipo de apresentação. Não era possível reclamar da sua falta de empolgação quando se interessava por alguma coisa. Mas na maior parte do tempo agia quase sempre guiada pelo desespero de quem não consegue se livrar de uma tristeza sem motivo. A razão pela qual episódios assim o empolgavam tanto).

Não demorou até surgirem os primeiros conspiradores, os mesmos que antes haviam entronizado o pato negro em seu posto de deus. De um pequeno grupo partiram as providências para o seu assassinato. No entanto, o pato negro consegue destruir seus inimigos no final promovendo uma matança inspirada em O Poderoso Chefão.

Moral da  história: nunca despreze as alianças políticas.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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