O beijo

Um beijo é um momento único, capaz de definir em um lampejo se os dois vão passar algum tempo juntos – ou pelo menos lembrar-se daqueles beijos. Danilo apaixonou-se pelo beijo de Célia por um motivo inverso. A falta de sincronia ficou clara desde a primeira tentativa. Suas línguas perdidas duelaram em contraste de estilos e ritmos. Ao final, se afastaram como dois lutadores cansados e derrotados. Desde então se tornou incapaz de beijá-la sem se sentir desafiado.

Seu tipo de beijo sempre fora lento e elaborado, repleto de detalhes. Começava com leves mordidas e grande atenção ao lábio inferior, passando a abranger, na segunda fase, uma breve apresentação de seu  repertório. Célia, movendo a língua freneticamente, beijava com desespero e nenhuma sutileza. Na primeira vez, espantou-o com dois golpes rápidos e violentos. Um beijo ávido. Sempre ávido. Eternamente ávido. Um beijo tão diverso do seu! Encantou-se. Fez questão do casamento para breve.

Depois de um ano, chegou à conclusão inversa. Odiava aquele beijo. Nada iria mudá-lo. Perdeu rapidamente a graça. Sentia-se torturado desde então. A infelicidade conjugal podia agüentar. Também o tédio. Mas um beijo! Um beijo ruim é demais.

Pensando a respeito no táxi: o que posso fazer? O trânsito trancado por causa do movimento da manhã. O táxi não tem ar condicionado. No rádio, um samba antigo do Agepê. Toca o celular. O nome de Célia em letras pequenas.

– Estou cega.

O trânsito demora a liberar. Uma ambulância atropelou um pedestre. A vítima fica estendida no chão com a perna quebrada, gemendo alto de dor ao receber atendimento. Fratura exposta. Motoristas que reduzem a velocidade para ver o acidente causam duas pequenas colisões, piorando ainda mais o engarrafamento. Uma sirene – da polícia – se aproxima. Por causa do barulho, fecha a janela para tentar ouvi-la melhor.

– Cega? Como?

– Não enxergo. Parei de enxergar. Cega.

– Tem alguma coisa errada?

– Não entendeu o que eu disse? Estou cega, meu filho. Não enxergo nada. É um negrume só.

Será um problema psicológico? A ligação cai. Enquanto aperta o botão de rediscagem, o trânsito libera à frente. O táxi avança junto com os outros carros. Em menos de dez minutos, aravessa a portaria do prédio dela.

– O que foi?

– Não enxergo, já disse.

– Como aconteceu?

– Uma hora enxergava normalmente. Na outra, estava assim. Cega.

– Por acaso bateu a cabeça?

– De jeito nenhum.

– Está com deficiência de vitaminas?

– Hmmm… acho que não.

– Será psicológico?

– Psicossomático.

– Hein?

– Doenças provocadas pela mente.

– Precisamos ver um médico.

– Não agora. Quero ficar aqui.

Na cozinha, móveis velhos e feios de fórmica azul. O apartamento inteiro tem a aparência de usado. Torneira parecendo ter cem anos. A pia enferrujada deixa vazar água. Chão de xadrez, quebrado em dois lugares. No início, gostava do apartamento, achou-o charmoso. Hoje preferia viver em um novo e ter móveis brancos.

Estão sentados no chão. Abraçando-a, ele a carrega até o sofá da sala. Dão-se as mãos. Ela se aninha em seu peito, fazendo-o estremecer. Perto de seu tamanho, é pequena. Abriga-a. Pensa: muito daquilo pode agüentar. Ser enfermeiro pelo resto da vida. Todos os luares que não vai conhecer. Pelo menos ela não o verá envelhecer. Será jovem para sempre.

– Como vamos ficar?

– Nada vai mudar – ele responde.

– Nem nós?

– Nada.

– E o médico?

– Podemos ficar aqui mais um pouco.

Quando seus corpos estão colados, ela ergue o rosto para que a beije. Devagar, como se resto do mundo continuasse sendo o resto do mundo, mas eles se movessem como algo extremamente rápido, como o bater das asas de um beija-flor, a cena transcorre quase em câmera lenta. Os lábios se tocam. Esquece toda a hesitação. Toma-o um sentimento de deliberada confiança.  Um beijo não é a simples preparação de um ato erótico. É o sexo em si mesmo – a fusão de dois corpos pelos lábios.

Pálido, levanta-se em seguida. Ela fica no mesmo lugar. Olha-acom tristeza antes de bater a porta atrás de si.

O último beijo é um momento ainda mais intenso e particular, mesmo se o fim é do conhecimento de apenas uma parte. É a breve lembrança de que a impossibilidade não é tudo e um instante pode durar muito mais tempo do que o convencional. Sem um beijo perfeito, algo está faltando. Se acontecer, ninguém pode dizer que aquele não é um momento só seu.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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