Homem e máquina

typewriter

Li que Will Self ainda usa máquina de escrever.

Escrever à máquina – ele diz – impõe maior reflexão no trabalho. Sem a facilidade de reescrever infinitamente o mesmo texto no computador, costuma pensar mais a respeito antes de escrever. Se deixar para fazer muitas revisões, perderá muito tempo, precisará reescrever páginas inteiras, até a parte na qual não queria mexer.

Acredita: o texto nasce mais elaborado do que no computador sem, no entanto, perder a essência original da idéia, algo que ocorre facilmente com sucessivas reescritas.

Senti algo assim desde que comecei a escrever à mão. Com tendinite, não conseguia ficar mais de meia hora no computador sem dores. A solução foi comprar um caderno de estudante americano e começar a fazer anotações. Fazia quase só esboços no início. Hoje sou capaz de escrever textos mais longos. Um dos contos do livro, inspirado nesse post, foi escrito inteiro à mão em um café do Bom Fim. O livro foi uns 80% escrito primeiro nessa pilha de cadernos que agora guardo em casa.

Escrever à mão é um processo lento. O computador funciona para registrar idéias que surgem rapidamente. Escrevendo à mão, é impossível acelerar o processo sem transformar o texto numa espécie de taquigrafia ou acabar na situação bizarra de não reconhecer minha própria letra – situação comum. Acabo pensando muito mais antes de escrever e prestando muito mais atenção no que estou fazendo.

Paul Auster também escreve à mão. Numa entrevista quando veio para a Flip, disse que leva um ano e meio planejando o livro, criando personagens, e só começa a escrever quando todas as situações estão resolvidas. Ainda assim prefere escrever primeiro em um caderno, passando mais tarde o livro para o computador.

Woody Allen deita-se na cama com um bloco tamanho grande e rabisca um esboço completo do roteiro. No fim, leva duas semanas para digitar tudo

Charles Bukowski, em seu último livro, dizia o contrário. Como o computador havia eliminado horas de revisão, tornando sua escrita menos preguiçosa.

O que no fim me leva a pensar no diálogo entre Kerouac e Ginsberg em Almoço nu, versão David Cronenberg. Kerouac defende que a escrita é fruto da pura inspiração e se um texto é refeito demais, acaba maculando-a. Nada – ele acrescenta – é mais verdadeiro do que a voz original.

Ginsberg acha que não. Cada palavra e vírgula só devem estar ali porque precisam estar. O único desfecho é a certeza absoluta.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to Homem e máquina

  1. Pardal says:

    Concordo plenamente. Também escrevo à mão, em cadernos que eu mesmo faço. Vou formando uma pilha no armário. Mas no meu caso é poesia, então fica mais fácil. Concordo tanto com o Ginsberg quanto com o Kerouack. Essas opiniões estão refletidas dos seus trabalhos.

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