Dois tostões e uma opinião

O que posso dizer sobre escola x hábitos de leitura. O tema rendeu posts do Sérgio Rodrigues e do Carlos André Moreira, que discutem se a escola afasta leitores.

Um lado da minha família é intelectual. Avô foi maestro e, como vice-presidente da Ordem dos Músicos, estava na lista de cassados pelo Ato Institucional número 1, em 1964. Meu pai, embora bancário, podia ter sido violinista. Recebeu convite para estudar na Checoslováquia. Não foi porque não quis. Uma tia é pianista e professora de música. Não foi o lado que me criou. Meus pais se separaram quando tinha meses de vida. Cresci apartado de todos por razões que não vale comentar. Minha mãe é uma ex-operária que, desempregada, acabou manicure. O padrasto, motorista, dirigia uma kombi entregando extintores. Fora a Bíblia e jornais populares, nenhum dos dois lia.

Tive uma infância absolutamente parecida com a infância de todos na era pré-computador. Via desenhos. Amigos um pouco mais ricos tinham videogames. Jogava futebol em dois turnos, frequentava turmas na escola e na rua, bebia escondido nas festas, mais ou menos a vida normal de um suburbano carioca. E lia.

Meus pais, apesar de típicos integrantes daquilo que viria muito tempo depois a ser chamada de classe C, compravam livros que não liam e pelos quais mal podiam pagar. Os livros eram para mim. Uma biblioteca pessoal é algo comum desde sempre na minha vida. Quando fiz onze anos e passei para a quinta série, o jornal comprado na casa mudou. Não podia ser mais o sensacionalista O Dia. Passou a ser O Globo, muito mais caro, porém “informativo”.

TV não era muito regulada em casa, exceto por um horário. De 1 às 4 da tarde tinha que ler ou estudar. Preferia ler.

Na escola, desde os 12 fui torturado com todas as bombas que se empurram aos estudantes. Li Olhai os lírios do campo com 14 anos. Sofri com a morte da cadela em Vidas Secas com a mesma idade. Lucíola, Senhora, A Moreninha, O Alienista, Dom Casmurro, quase todos incompreensíveis naquela época.

A professora foi bem honesta conosco: “São chatos, mas importantes”. Ela, porém, tinha mais um truque: a cada livro chato lido, podíamos escolher um qualquer para ler e resenhar. Vinte mil léguas submarinas foi meu primeiro. Viagem ao centro da Terra, o segundo. O conde de Monte Cristo, o terceiro.A alternância funcionou. Uma turma quase inteira de leitores se formou assim. É o máximo onde a escola pode chegar.

Com 15, desisti da escola. Estava me atrapalhando a leitura. Matemática, Física e Biologia daquele ponto em diante não me interessavam mais. Meu dinheiro do lanche dava exatamente para um guaraná litro e um salgado horrível parecido com o Fandangos. Duas ou três vezes por semana em vez de ir à aula, esperava abrir a Sendas de Olaria, comprava o guaraná, quente, e o salgadinho e ia para a biblioteca do bairro.Ficava lá até meio-dia e voltava para casa. Na hora dos estudos, lia mais.

Começava o ano com todo o gás, estudando muito, me garantia nas notas e começavam as faltas da metade para o fim. De vez em quando tinha que estudar de madrugada para compensar o dia perdido. Entre as poucas aulas que ainda assistia regularmente estava justo aquela me empurrava os livros chatos. Ainda assim eram livros.

O diferencial no fim nunca é se lemos o que nos obrigam a ler, mas tudo aquilo que não nos mandam ler e lemos assim mesmo. Teve uns livros chatos, mas ok. Melhor do que estudar matemática.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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2 Responses to Dois tostões e uma opinião

  1. Pingback: ::unhas::roídas | Marcelo Frizon » Blog Archive » Uma proposta sobre a recente discussão acerca da leitura

  2. Jasa SEO says:

    Thanks for all your efforts that you have put in this. very interesting information. “The average Ph.D. thesis is nothing but a transference of bones from one graveyard to another.” by J. Frank Dobie.

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