Nó na garganta

Vou contar como já vi um porco ser morto.

Alguns, na verdade, mas foi basicamente assim:

Um porco foi arrastado por cordas até o meio do terreno, onde dois caras o atacaram a marretadas. Mas os golpes – muitos – na cabeça nunca liquidavam os porcos, que berravam de maneira horrível e muito alto. Enquanto estrebuchavam, alguém tinha de se abaixar com o punhal e acertá-los no coração, encerrando o morticínio. Não era um processo fácil. Mais de uma vez foram necessárias muitas punhaladas. Um pedaço de sabugo fechava o buraco, impedindo o sangue de escorrer.

Desde a parte em que era arrastado e imobilizado, um porco demorava mais ou menos meia hora para morrer e duas horas para desaparecer inteiro. A carne ia para o congelador. Os miúdos – o que chamava de “barrigada” – eram cozidos em panelas imensas. O sangue virava linguiça – chouriço naquela parte de Minas. Toda a pele era cortada, frita e, transformada em torresmo, deixada esfriar um pouco e atirada junto com a gordura dentro de grandes latas de metal, depois lacradas. O resto – cabeça e ossos; pés e orelha são utilizados para fazer feijoada – era atirado no rio que passava nos fundos do quintal.

Uma vez tive que ajudar um primo a castrar um porco. Tinha onze anos de idade. O leitão ainda era pequeno, segurei-o com facilidade, curioso pelo que viria a seguir. Meu primo, três anos mais velho, simplesmente cortou fora os testículos do bicho. A seco. Em seguida, jogou gasolina na ferida para cauterizar.

Todo mundo com medo de uma gripe vinda de porcos, vista assim, parece justiça poética.

Ou será que é quando Willem Dafoe é devorado em Hannibal?

********

Paguei ontem, segunda-feira, a décima segunda prestação do apartamento. Um ano inteiro atendendo pelo termo técnico de mutuário. Pelo contrato acordado com a Caixa, isso equivale a 3,33% do prazo acertado para quitar o financiamento.  Quando terminar a dívida, terei vivido mais do que a média dos brasileiros hoje. O governo aposta em mim para uma vida longa.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to Nó na garganta

  1. Monica says:

    Eu sou “mutuária” há três anos e sei como é isso. Sensação estranha, mas depois passa.

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