Rio, março, 2009

O que ficou da viagem ao Rio.

Rum – A  Lapa ficou cheia de gente, lotada de bares e mais segura. Já estava assim em 2007, mas estive lá na antevéspera do Natal, o que prejudicava bastante o fluxo de presentes. Agora descobri que muitos bares do lugar adotam a metalinguagem. São botecos cariocas que imitam botecos paulistas que imitam botecos cariocas. Mas a região está realmente muito melhor. E os bares mais antigos também estão lá, mantêm sua saudável e tradicional chinelagem, o que me levou, no sábado, duas semanas atrás, a percorrer mais ou menos metade deles em companhia de um amigo radical no assunto.

O leitor – Os sebos cariocas continuam os melhores. Encontrei A natureza morta e o pica-pau, de Tom Robbins, por oito reais. O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, estava por dez reais na Marechal Floriano. O único exemplar que já encontrei, fora a edição nova. Na viagem de ida, o ônibus parou em um restaurante de São Paulo e na saída, no plástico, encontrei Verão em Baden Baden à venda por dez reais. Só li o de Rubião por enquanto.

Le Doberman – Mais ou menos a mesma coisa de sempre, mas é inegável: a cidade está melhor policiada. Pela primeira vez em muito tempo senti alguma sensação de segurança. Carros estacionados em alguns pontos de qualquer caminho e blitz a qualquer hora foram comuns estes dias.  Desde janeiro a prefeitura promove um “choque de ordem”, prometendo combate a qualquer infração, de estacionamento a construção irregular.  Durante minha permanência a semana até que estava tranqüila, aí de repente dez pessoas atingidas por balas perdidas em três dias. Operações na Ladeira dos Tabajaras e na Rocinha, tudo muito aproveitado por Wagner Montes,  apresentador de um programa que dura metade da tarde na Record, pontuado por incríveis intervenções wagnerianas como “olhaí, usuário, o que você está cheirando” e “daqui a pouco mais do charme e da inteligência de… Wagner Montes”. Meus pais contaram que às vezes Wagner responde a provocações da técnica como “sua perna vai cair”, mas eu duvido. Deve ser alguma alucinação deles.

Medo e delírio – Uma série de reencontros com dezenas de amigos do passado, turmas diferentes, atividades diferentes. No Maracanã, minha presença foi fundamental para o Vasco derrubar dois anos de escrita e vencer o Flamengo por 2 a 0.  Aguardo placa de agradecimento. O Maracanã está simplesmente excelente, exceto por uma corja de animais entre os torcedores. Os banheiros do estádio são realmente limpos.  As arquibancadas agora têm cadeiras. Foi reformado há dois anos e ainda está em ótimas condições.  Não houve brigas entre as torcidas do lado de dentro e, maior surpresa, 90% das músicas das organizadas agora tratam de louvar o amor ao time, não da intenção de agredir flamenguistas. O que não impediu impediu um torcedor de ser baleado perto do estádio. Na volta para casa, no metrô, guardas com cassetetes imensos nos cercaram e dividiram o trem em duas metades – na frente, apenas flamenguistas podiam entrar com a camisa do clube. Atrás, os vascaínos. Viagem tensa, mas sem transtornos.

All that jazz – Totalmente desnecessário ainda falar do Radiohead. E  foi bom o Kraftwerk, o que é estranho, pois se tratava de apenas três caras parados mexendo em máquinas. Estranhamente, funcionou. Los Hermanos, não vi. Na segunda, teve Liza Minelli, que, segundo a  resenha que li ontem no avião, precisou fazer um intervalo de 20 minutos para tomar fôlego. Nesta quinta tinha o A-ha.

Fome de viver – A cada volta ao Rio encontro uma moda gastronômica enchendo a cidade de lojas.Um tempo atrás eram lojas de pão de queijo com vários sabores e mate. Depois começaram as casas de empada. Agora notei uma quantidade inexplicável de lanchonetes que oferecem yaksoba. Outro fato a registrar, uma exposição ufanista no Centro Cultural Banco do Brasil, oportunidade para ver uns Portinaris e uns Di Cavalcantis. A moda da cerveja artesanal ainda não parece ter chegado maciçamente aos bares, como em Porto Alegre. Por último, o já citado sarau.

O vingador do futuro – Também aproveitei um dia a mais antes da volta para conversar com amigos jornalistas e visitar o jornal onde trabalhava e saber como está sendo vista de dentro a mudança nos jornais. Não sei bem se isso é uma desvantagem ou não, mas o pessoal é bem menos estressado por descobrir novidades do que a maioria das pessoas que eu conheço.  Não é que não percebam que o mundo está mudando, mas são cautelosos. O Twitter só se estabeleceu mesmo a partir do pouso do avião em Nova York. Ainda assim, na redação, a maioria não tem. Com algumas transformações, o jornalismo impresso é esencialmente o mesmo de antes.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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