Nick Hornby faria disso um livro ruim

Alguns amigos de infância ainda são realmente amigos. De vez em quando converso pela internet com um amigo de colégio e, de vez em quando, com um de faculdade. Aqueles que conheci em redações são em maior quantidade. Grandes amigos mesmo, que reencontro em cada visita ao Rio.

A amizade única se desenvolveu com o Everton. Fomos estagiários em jornais concorrentes e nos conhecemos na rua cobrindo matérias. Em vez de disputarmos, compartilhávamos informação. Era inconcebível um dar um furo no outro numa cobertura. A concorrência que fosse à merda.

Seria uma amizade um tanto convencional não fosse um fato que passou a nos guiar a partir do segundo ou terceiro Hollywood Rock, festival que aqui existiu até os anos 90. Cada um já era repórter e não nos encontrávamos mais na rua. Então, sem nenhuma combinação, por afinidade, a partir de certo ponto começamos a assistir shows juntos. Embora tivéssemos uma grande quantidade de amigos comuns, praticamente não nos víamos nunca se não fosse em um show. Namoradas às vezes nos acompanhavam, grupos às vezes nos acompanhavam, mas a constante era que nós dois sempre estávamos lá.

Houve anos em que, exceto numa noite de show, não nos vimos em nenhuma outra ocasião. Exceto pelo Nirvana, Smashing Pumpkins e Supergrass e The Cure (fui sozinho), durante anos assistimos a tudo de importante que passou pelo Rio. Rolling Stones (turnê Voodoo Lounge, quando eles ainda tinham algo a fazer em um palco), Alice in Chains, Red Hot Chilli Peppers, Robert Plant (duas vezes) e Jimmy Page, Black Crowes, Sepultura. E também a uma boa dezena de shows underground no Circo Voador antes do fechamento (massa que tenha sido reaberto, mas o outro era mais legal). Essa aparente distância nunca impediu que fôssemos realmente amigos. Um  conhecia o outro muito bem.

Para ver os Rolling Stones de perto, suportamos seis horas sem água ou cerveja com um calor insuportável, sem podermos nos mexer. Em um Tributo ao Doors, às quatro da manhã, durante um show do Planet Hemp (muito estranho eles tocando Break on Trough), um acarajé derrubou a ambos e acabamos dormindo na arquibancada do Circo.

A quantidade de shows ruins também é fenomenal: Jesus Jones, Spin Doctors, Rita Lee, Urge Overkill, EMF, Poison, Cidade Negra, Seal, Aerosmith, Barão Vermelho. O problema de festivais é que os shows passáveis sempre acontecem em maior quantidade.

Então, em 1996, o Hollywood Rock acabou. Meses depois a prefeitura fechou o Circo Voador. Nunca mais nos vimos. Em 1997 eu me mudava para Porto Alegre e assim até 2007 permanecemos sem nenhumna comunicação. Um dia, porém, um encontrou o outro pela internet. Depois das reminiscências de praxe, a combinação foi natural: o reencontro só poderia ser em um show. Um  mês atrás comprei o ingresso para o Radiohead.

Ontem à noite, depois de treze anos, os dois amigos estavam na Apoteose. Um tirou sarro dos cabelos brancos do outro, ambos estão mais velhos e diferentes, se deram relativamente bem no jornalismo. Falaram da vida, casamentos desfeitos, Porto Alegre, samba (ele virou quase um especialista), o destino dos conhecidos comuns. Mas quando o Kraftwerk começou a tocar, a sensação era de que nada disso aconteceu: ainda éramos os mesmos. Ainda estávamos em 93 ou 94.  Só vamos ficar velhos quando decidirmos ficar velhos. Nem um dia antes.

E para constar: Brokeback Mountain indie é o caralho.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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