Morte

Às 20h14, menos de uma hora atrás, eu vi um sujeito morrer.

Tinha, sei lá, uns trinta anos. Morreu vestindo camisa branca e jeans. O alto de sua cabeça simplesmente foi destruído e eu fui a única testemunha. Estava em um ônibus, indo para a casa dos meus pais, por demais satisfeito por um dia em que todos os compromissos simplesmente deram certo a tempo de retirar amigos do trabalho por uns minutos na frente do jornal onde trabalhei.

Na volta para casa, estava na dúvida entre o metrô, ao meu lado, e o ônibus. Embora o ponto de ônibus fosse meio longe, optei por este, pois precisava passar em um lugar com internet antes de voltar para casa.

Folhevava um livro quando levantei os olhos um instante antes do estrondo. Primeiro vi o ônibus bater na traseira do Gol e jogá-lo em um poste. Em seguida, bater de novo e simplesmente estraçalhar todo o lado esquerdo do carro, levantando uma quantidade impressionante de fumaça e pedaços da lataria. O ônibus incrivelmente não reduziu a velocidade. Fugiu em disparada, tão veloz que não deu para ver sequer a linha. O próximo elemento foi o corpo, atirado para fora do carro. Morto.

Pânico entre os passageiros do ônibus onde eu estava, mas o motorista simplesmente ignorou o acidente. Foi embora, não quis parar para ajudar. Mais um que fugiu. Aos poucos, exceto por uma mulher ao meu lado, todos se acalmaram rápido demais para o que tinha acabado de acontecer. A mulher ao meu lado, sei lá como, logo depois culpava o Lula pela violência no trânsito no país. Discursava dizendo que todos devíamos ler O Globo.

Para meu próprio choque, a indiferença dos tempos de repórter aflorou naquele momento. Avisei a polícia, liguei para o jornal, mesmo que não trabalhe mais lá há longos 11 anos, passei as informações que tinha e segui para casa com a mesma sensação de muito tempo atrás – olhando toda a situação como um fato meio irreal, como algo que não tivesse acontecido, sem me deixar afetar. 

Nunca tive uma boa resposta para o porquê de nunca ter pensado em voltar a morar aqui, mas nestas horas é quando a resposta fica mais clara: fui embora para voltar a ser humano. Aqui estou programado para o pior. Quando estou aqui e algo ruim acontece não há nenhuma surpresa.

Esta frieza tem suas vantagens. Em Porto Alegre, passei por dois assaltos trash e agi com quase completa indiferença à situação. Mas não é algo que goste. É desumano, é frio.

O Rio é capaz de tirar o pior de mim.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
This entry was posted in Rio. Bookmark the permalink.

2 Responses to Morte

  1. Paul says:

    Que merda.

  2. Hermano says:

    Já tinha pensado nisso.

    O Rio tira o pior de nós.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s