Ninguém ri de Obama

Pode ser porque o mandato só tem cinquenta dias, mas o humor americano não consegue encaixar uma boa piada sobre Obama.

David Letterman, depois de admitir o fato, saiu com a melhor até agora: corpo e fala de Bush, mas o rosto de Obama repetindo gafes de George W. A outra foi o comentarista que, oito dias depois da posse, berrava no Daily show, de Jon Stewart que já tinham se passado oito longos dias. “Quantas chances ainda vamos dar a ele?”

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A charge estúpida e racista do New York Post (que surpresa, uma empresa de Rupert Fox News Murdoch) cometeu o favor de tornar a cor da pele de Obama um tema intocável. Obama intimida. Parece dizer algo importante até quando anuncia que vai ao banheiro e é adorado pela imprensa (esquete do Saturday Night Live durante a campanha presidencial: os repórteres apertam McCain e Hillary, mas para Obama só conseguem perguntar “O senhor está bem? Está confortável? Mesmo?”).

Obviamente, pode ser bom para Obama por um tempo. Por enquanto ele vai sendo visto mais como o mito em que pode se transformar se as coisas derem certo do que quem realmente é: um político razoavelmente inexperiente, cuja maior virtude até agora foi cultivar a boa vontade na grande maioria da população (menos os republicanos) quanto a medidas que jamais pensariam em aceitar em outro tempo.

Mas se der errado, acaba chamado de Rolando Lero.

Nunca discuta com um comediante

O que não quer dizer que sem Obama não há humor.

Jon Stewart se voltou para os republicanos que agora berram contra os gastos do governo quando mesmo antes da crise produziam déficits de meio trilhão ao ano. O Daily Show continua o único espaço para certo tipo de crítica ao establishment (sabia que um dia usaria essa palavra).

Por exemplo, reproduzindo a entrevista do CEO da Merryl Lynch, que justificava ainda pagar bônus mesmo com os prejuízos,  “pois precisava manter os melhores”, deu a única resposta possível, que não se ouviu em outro lugar:

– Vocês não são os melhores. Vocês perderam 26 bilhões de dólares.

Nesta madrugada, passou na Sony (nos  Estados Unidos são diários e, aqui, passam na CNN; na Sony, são editados em um “melhor da semana” chamado Global Edition) um quadro absolutamente brilhante: a  polêmica com a NBC.

Ao criticar a ajuda do governo às pessoas que perderam ou estão quase perdendo suas casas, Rick Santelli, comentarista da NBC, chamou-o de “perdedores” e promoveu uma enquete numa mesa de operações de Wall Sreet sobre quem estava a favor de “ajudar seu vizinho”. Ninguém estava.

Stewart, brilhante, exibiu a seguir vários  minutos de quadros em que analistas da NBC recomendavam a compra de ações no meio da crise. Em cada momento agudo de 2008 (abril, julho e outubro) diziam que aquela era a hora de comprar. Quem comprou, enfrentou uma queda mais forte ainda. Jim Cramer, analista, com o Dow Jones a 15.000 pontos recomendava pagar caro “pois é assim que se ganha dinheiro”. Meses depois, dizia que ações do Bear Sterns, a 60 dólares, estavam baratas. Hoje custam 4 dólares. Também fizeram uma entrevista elogiosa com um fraudador do mercado de ações.

A NBC sentiu o golpe e tentou reagir em vários programas. Jim Cramer culpou o mercado traiçoeiro. No programa Morning Joe,  Stewart foi acusado de poupar o governo (que está no poder há LONGOS cinquenta dias) para incomodá-los. Péssima resposta.

Deviam ter preferido apanhar calados, pois a réplica de Stewart foi esta:

Melhor humorista. E já teve um twitter.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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3 Responses to Ninguém ri de Obama

  1. André K. says:

    Não seria establishment, com “E”?

    Jon Stewart é muito bom. Ainda bem que chega aqui com pouco atraso. Diferente do SNL.

  2. Alexandre Rodrigues says:

    maldito revisor. valeu.

    pena que a CNN passa o stewart em um horário ruim. podia ser de madrugada, como fazem com o letterman.

    SNL ainda está passando piadas com a sarah palin.

  3. André K. says:

    O stewar eu vejo na Sony mesmo. Acho o Letterman muito tarde.

    As piadas com a Palin eram engraçadas na época da eleição. Saiu matéria até na Globo. Agora já não fazem o menor sentido.

    Mas concordo com essa coisa de os americanos aina não terem conseguido fazer piada sobre o Obama. O próprio Letterman tentou manter o “great moments in presidential speeches” e fracassou.

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