Love # 10

– Você quer que eu tire a roupa agora?

– Agora não. Espera um pouco. Quer beber algo?

– Um gim tônica.

– Um gim tônica saindo.

– Bonito o teu apê.

– É. Deu trabalho. Não foi sempre assim.

– Não?

– Já viu o filme O Clube da Luta?

– Como é?

– Dois caras. Um vive no luxo, um apartamento como esse. Cada móvel, cada objeto, parece definitivo, não importa o que aconteça e etc. Um dia alguém explode esse belo apartamento e o dono sifudeu. Tem que morar em um lugar caindo aos pedaços com o outro. Já vivi como cada um dos dois.

– Tiro a roupa?

– Ainda não.

– Tô sacando.

– O quê?

– Você é advogado.

– Não.

– Economista ou alguma coisa com finanças.

– Não.

– Publicitário, contador/contabilista, empresário de qualquer ramo, rentista…

– Rentista?

– É alguém que vive de renda. Aprendi a palavra com um ex. Um dicionarista.

– Engraçado.

– É?

– Não. Nenhuma das opções.

– Então diz (tiro a roupa?)

– (Não). Poeta.

– Faz poesia.

– Escrevo poemas por dinheiro.

– Quem paga por isso?

– Muita gente. Agora mesmo estou preso em uma ode para um rede de supermercados. Está completando 50 anos. Também tem as bodas e formaturas. Mas o que mais faço é poema de amor. Da mulher para o marido. Do marido para a mulher. Ou, mais comum: para (o) a amante.

– Faz um pra mim?

– Não dá.

– Eu pago. Fica de graça por hoje.

– Você teria que voltar aqui muitas outra vezes.

– Escuta só: Felizes e alegres nós já vamos trabalhar/ Nosso chefe é nosso pai/ Nossa loja é nosso lar.

– O que é isso?

– O hino de uma empresa. Os funcionários tinham que cantar todo início de expediente. Aprendi numa novela. Faz muito tempo. Tiro a roupa afinal de contas?

– Hum, só mais um pouco.

– Eles cantavam e é só.

– Eu não canto.

– Como faz quando a poesia vira música?

– Outros cantam por mim.

– Perde a melhor parte.

– Cantar?

– É.

– É… É.

– Posso perguntar uma coisa?

– Pode. Várias.

– Você leu todos esses livros?

– Quase todos. Alguns eu compro, mas não leio.

– Você já amou? (tiro a roupa, porra?)

– Essa é mais uma pergunta (já disse que não, caralho).

– Você disse várias.

– Já.

– Já ficou apaixonado? Quantas vezes?

– Três. As três foram mais felizes longe de mim.

– Você é uma pessoa triste.

– Não sou não.

– Posso tirar a roupa?

– Pode. Mas devagar.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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