Mickey Mouse

Uma onda de calor raramente é um enigma insoldável. Pode ser descrita com as palavras certas pelos sábios ou por qualquer um. Pode, por exemplo, ser associada a reações entre a temperatura da luz do sol e as variações do deslocamento de ar, como fazem os meteorologistas. Pode ser traduzida na imagem de dezenas de gotículas na testa de um homem careca ou penduradas no emaranhado de pêlos grisalhos da barba de um motorista que no meio da tarde se abana com a janela aberta, pois o táxi não tem ar condicionado. E prestar-se a uma dezena de interjeições, ofensivas ou não. Pode, se você é mulher, atingida no âmago de sua dignidade, fazê-la sentir-se realmente desconfortável quando percebe que começou a suar e o tecido da blusa está colado à pele logo abaixo do sutiã. Ressentida com a situação de ter entrado justo naquele táxi em um dia que já não estava sendo dos melhores, no banco de trás, ao avistar Lucas na rua, sua sensação foi de ter encontrado uma nova razão para viver. Com vontade de berrar alegremente um palavrão, mandou o motorista parar.

Cruzou a rua com o sinal ainda aberto para pedestres, mas piscando no verde, e, devagar, se aproximou por trás dele, disposta a surpreendê-lo. Lucas, desde que o avistou, continuou no mesmo lugar, no meio da calçada. Tendo de se desviar dele, as outras pessoas respondiam com olhares hostis, dos quais não aparentava se dar conta.

Olhava a vitrine de um antiquário de brinquedos. Um ferrorama, aparentemente em ótimas condições, percorria o outro lado da vitrine, circulando um aglomerado de bonecas de porcelana, bonecas normais, caixas maltratadas de jogos de salão e réplicas de personagens de desenhos animados, como se bonecos e jogos fora de moda fossem uma paisagem aceitável.

Lucas não prestava atenção nos brinquedos. O olhar estava em um cordão metálico de mais ou menos um metro e meio esticado entre as duas paredes laterais. Cada ponta fora firmemente amarrada a ganchos e um boneco de Mickey Mouse sentado numa bicicleta, também preso à parede para ficar no mesmo lugar, se equilibrava no Cordão. Libertado, se tudo desse certo devia correr de uma ponta a outra, pedalando a bicicleta.

Chamou-o duas vezes pelo nome, sem resultado. Ao agarrá-lo pelos braços, deu a impressão de ser percorrido por um choque elétrico, o que a fez recuar. Com um olhar de surpresa e pânico, Lucas estava a ponto de chorar.

Se conheceram cinco anos e meio antes. No primeiro ano foram apenas colegas, primeiro, e depois amigos de trabalho. O namoro só começou quando já estava fora da empresa, a noite em que se encontraram por acaso numa festa. No terceiro ano, surpreenderam aos amigos e conhecidos ao se casar, com outros passageiros como únicas testemunhas, em um cruzeiro pelo Nordeste. A intimidade e a confiança, absolutas, explicam a facilidade com que o conduziu feito a uma criança a um café próximo. Nas primeiras duas xícaras ainda lutou para se recuperar. Pálido, permaneceu em silêncio. Logo que se viu de novo no controle, porém, se pôs a falar efusivamente sobre vários assuntos e sobre todos os conhecidos de quem conseguiu se lembrar. Uma tentativa tão aberta de manter-se fora da pauta de discussões que ela, comovida com seu momento de fraqueza e conhecendo-o tão bem, aceitou entrar no jogo. Terminou de beber o café e, fazendo uma careta, não voltou à cena de antes. Agarrou o primeiro assunto e logo depois e pelos minutos seguintes, com surpreendente veemência, expôs suas opiniões sobre o Oriente Médio.

Na semana seguinte, precisou voltar novamente ao centro. Em outro táxi, desta vez com ar condicionado, passando rapidamente pelo mesmo local, uma pequena multidão de pedestres tomava a calçada no mesmo lugar, bloqueando sua visão. O táxi continuou avançando. Tinha consulta marcada em um médico próximo dali. Ao sair, uma hora depois, caminhou até um ponto de táxi, mas em vez de entrar no carro que lhe oferecia o motorista com a porta aberta, continuou andando. Tentou manter os pensamentos numa espécie de pausa pelas quadras seguintes. Por sorte estava de tênis. Chegou em poucos minutos. À distância, quase paralisada, avistou-o. Lucas estava no mesmo lugar.

– Um Mickey?

– Isso.

– Em cima de um cordão. Assim, mais ou menos desse tamanho?

– Como a senhora sabe?

– Putaqueopariu.

(Não podia dizer que ela e a sogra se davam bem. Não podia dizer também que gostavam da companhia uma da outra – ou mesmo que gostavam uma da outra. Podia dizer que, graças a ele, se toleravam e isso estava longe de ser uma amizade).

– Quando ele era pequeno – a mãe de Lucas continuou – o pai foi embora muito cedo. Isso não é segredo para ninguém. O canalha não pagava pensão, então tinha que trabalhar. Morávamos de aluguel. Trabalhava em um escritório. Um dia, no aniversário do filho de uma secretária, o pessoal fez uma vaquinha para comprar um presente. Eu fui encarregada de fazer a compra. Fui a uma loja e logo na vitrine estava esse brinquedo.

– O mesmo?

– Se chamava Mickey Equilibrista. Comprei e levei a caixa para casa. A festa era no sábado seguinte. Mas não guardei direito. Ele ficava em casa à tarde com uma babá. Achou o pacote e, pensando ser um presente, tirou da caixa, montou e começou a brincar. Quando cheguei, tive que contar que o brinquedo não era dele e botar de volta na caixa. Tinha uns quatro anos. Jamais imaginei que ainda se lembrava disso. Quantas vezes você disse que já viu ele lá?

– Quatro.

– Dá o que pensar, não é?

Lucas continuou a chegar todos os dias mais ou menos na mesma hora. Continuou a ir à mesma vitrine quase todas as tardes só para verificar se ele estava lá. Era  operador independente da Bolsa. Trabalhava em um escritório, próprio, comprando e vendendo papéis dos mais variados em mercados do mundo todo.

Depois de alguns anos, eram hábitos a respeito um do outro. Tanto agradavam quanto desagradavam na mesma proporção. E continuavam a repetir. Todos os dias, ao chegar, Lucas vestia uma bermuda, se sentava na frente da TV e começava a esfarelar a pele entre os dedos dos pés. Ela fumava três carteiras por dia. Eram ambos quase totalmente incapazes de conversar sobre qualquer problema. Desde o dia em que o surpreendeu diante da vitrine, ao fazerem sexo o olhar dele estava quase sempre no infinito.

Ela conversou também com a própria mãe, que ouviu a história em silêncio e depois disse:

– Conversa fiada. Abre os olhos: ele tem outra.

Para ela, tudo sempre era uma questão de infidelidade.

Uma semana depois, deixou-o dormindo na cama até tarde e saiu do apartamento tentando fazer silêncio. Deixou um bilhete explicando a ausência – uma ida repentina ao médico da qual se esquecera de avisá-lo. O comércio ainda não havia aberto as portas, mas a caminho do centro precisou lutar com a sensação de que era tarde demais. Mas ao chegar à loja, encontrou o boneco no lugar de sempre. A loja ainda estava fechada. Precisou esperar a chegada do dono, um oriental na faixa entre cinqüenta ou sessenta anos, que não demorou.

– Eu quero comprar aquele brinquedo – Marina disse enquanto ele abria a porta.

– O Mickey?

– Ele mesmo.

– Não está à venda. É só para exposição. É um brinquedo raro. Tem mais de quarenta anos.

– Pago o preço que for preciso.

Contou sua história – parte dela, ocultando que o homem em questão era o mesmo que costumava ficar do lado de fora da loja. O dono já devia tê-lo notado. Podia até mesmo conhecer Lucas. Ele fez um preço.

– Com valor sentimental ou não, é uma raridade – justificou. Marina pagou com cheque.

À tarde, para domar a ansiedade, se meteu a fazer o jantar, que lhe tomou muito tempo. Montou o brinquedo e pôs o Mickey Equilibrista no lugar. O boneco, como um artista que faz seu número, pedalou de um lado ao outro do fio de metal, chegando à parte de baixo com uma trajetória perfeita.

Na hora habitual, Lucas não apareceu. Não era raro se atrasar e chegar um pouco depois. Às nove, contudo, não havia chegado. Ela amaldiçoou-lhe a mania: por que não compra um celular? Só depois das dez começou a dar telefonemas.

Pela manhã, sem dormir, cinco cigarros, acesos um no outro, forneceram a coragem necessária para a ligação para o IML. Desligou aliviada. Não estava lá. Nem nos hospitais para onde telefonou em seguida.

Não estava em seu lugar habitual. Tentando localizá-lo nos arredores, só muito depois se deu conta da vitrine. Um buraco fora aberto na parte do alto, coberto agora por um remendo de plástico. Do lado de dentro, o dono ajeitava os brinquedos de volta no lugar. Ao vê-la, fez um sinal e correu para o lado de fora.

– Um homem veio aqui ontem – ele anunciou. – É o mesmo que vem quase todo dia e fica parado aí mesmo. Estava nervoso desta vez. Começou a gritar e depois apareceu com uma pedra. Não voltou hoje, mas vai ver só se aparecer aqui de novo. Louco. Louco.

Ao abrir a porta, de volta ao apartamento, a luz do corredor iluminou a silhueta do equilibrista, parado no mesmo lugar. Naquela noite e nas outras seguintes não voltou a vê-lo.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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