Uma coisa supostamente chata que vou fazer outra vez

Como é descrita em O Fio da Navalha, uma iluminação é um momento em que as coisas parecem fazer sentido e são de uma simplicidade tão cretina que você deve se sentir o maior dos cretinos por não ter pensado naquilo sozinho.

Larry Durrel tem uma iluminação. Li muitas vezes esse livro. É um personagem incômodo. Desde o início não rejeita nada – trabalho, amor, casamento, vida em sociedade –, mas exige um significado. Obviamente fracassa, não se encaixa em qualquer trabalho e é tratado com estranheza por todos, mas é também tão infantil que a mágoa que provoca não dura. Muito tempo depois de todos desistirem dele, sua busca resultou em solidão e isolamento e, no entanto, está feliz. Não deixa de aceitar os fatos.

No dia 13 de dezembro de 1519, Fernão de Magalhães chegou ao Rio de Janeiro. Fazia a viagem para o sul em que pela primeira vez alguém tentava circum-navegar (duvido que volte a usar a palavra outra vez) o continente e encontrar um novo caminho para as Índias. Neste mesmo dia, quatrocentos e oitenta e nove anos depois, eu me encontrava diante do Cabo Horn, justamente o ponto que separa o Oceano Atlântico e o Pacífico (há controvérsias sobre um Oceano Antártico, embora este conste na minha carta de navegação de freeshop), circum-navegado (ok, ok) por ele.

Às 6:12 da tarde eu estava com febre e bastante queimado de sol. Estava de capuz, com o pescoço enrolado numa manta listrada. Estava com um casaco pesado. Estava com frio e mal conseguia me manter de pé. E estava completamente molhado, na chuva, olhando se alternarem grandes e pequenas rochas, as pequenas ilhas que antecedem o Cabo Horn. É um lugar dos diabos. O navio balançava. Tem 78.106 toneladas e era jogado feito brinquedo enquanto avançava. O vento era difícil de suportar. Pessoas mais velhas foram obrigadas a recuar com o vento.

O barco mais pesado de Magalhães tinha cento e vinte toneladas. O mais leve, setenta. Eram cinco. Só onze meses depois de passar pelo Brasil ele conseguiu chegar àquele ponto. Tinha de avançar aos poucos, às vezes com longas esperas até o tempo melhorar. Tinha sempre de conseguir comida e água. No caminho, teve de reprimir uma rebelião e decapitar um amigo. Depois os marinheiros de um dos barcos, com quase toda a comida, se amotinaram e voltaram à Espanha. Fernão avançou.

Levou mais ou menos meia hora até surgir uma rocha grande e meio lisa, que termina numa última, que se inclina abruptamente. A esta altura estava entre um casal de portugueses amigos e alguns franceses que conheci no dia anterior. Berrava. Este é o fim da América do Sul.

Neste momento me dei conta de algo fundamental sobre a vida. Falo disso no fim.

ONU flutuante

O Norwegian Sun é uma construção de trinta metros, pintado de branco e com o desenho horrível de um sol estilizado numa das laterais, dedicado às delícias e às futilidades de qualquer cruzeiro. Com relação a outros navios que fazem o mesmo tipo de serviço, tem uma grande diferença: é um navio free-style (fristáile, segundo a ótima família de cearenses que conheci). Quer dizer que oferece muitas atividades, algumas ao mesmo tempo, das quais os passageiros podem participar quando quiserem. Uma diferença importante: segundo alguns brasileiros conhecidos, em navios de outras companhias há hora para comer. No Norwegian, come-se a qualquer hora, exceto entre 5 e 5 e meia da manhã, quando começa o café. Não há lugares marcados em lugar nenhum.

São 23.400 ovos (quase oito por pessoa, o que já justificaria uma faixa “O colesterol lhes dá as boas vindas na recepção), 1.600 latas de cerveja, mil litros de café (fraco, quase transparente) e 14 mil refeições por dia, mais 450 galões de sorvete e 38.000 iogurtes semanais e mais outras toneladas de comida.

É um navio de uma empresa norueguesa, registrado por sua subsidiária norte-americana nas Bahamas. Um milagre da evasão de impostos. Um clichê é chamarem-no o tempo todo de “cidade flutuante”, mas no fim é o que parece. Uma cidade flutuante com a mesma população do que os 3.060 habitantes de Port Stanley, a capital das Malvinas (Falklands), um dos lugares visitados. A “população” é internacional: dois mil passageiros e mil tripulantes, divididos entre mais ou menos mil americanos, centenas de alemães, ingleses e franceses, uns 600 filipinos (do serviço de restaurantes e camareiros), 148 brasileiros (dois tripulantes), latino-americanos, latinos da Europa, uma russa, uma ucraniana e mais algumas dezenas de nacionalidades.

É injusto usar a observação superficial de um pequeno grupo para descrever uma nação, mas foda-se, a vida não é justa. Americanos são imensos e comem o tempo todo. Mesmo os mais magros atacam o café da manhã com felicidade. Fora ovos e bacon, comem feijão, lingüiça italiana, batatas, waffle e mingau. Depois repetem o prato. São, enfim, minha esperança. Não demorei três dias para passar a comer como um deles. Se conseguem viver até aquela idade comendo daquele jeito, por que não?

Americanos também ignoram qualquer fila. Colocar uma pessoa atrás da outra deve ser uma invenção desconhecida na América. Completamente incapazes de esperar a vez no buffet ou no fim da fila dos restaurantes dos andares inferiores, simplesmente chegam e se metem, tumultuam, ignoram os outros e passam à frente. Não é o principal defeito deles. Americanos (com exceções) ignoram os cumprimentos de qualquer serviçal. Com os outros hóspedes, simpáticos e falantes, mas não com empregados.  Uma atitude triste, repetida pelos campeões de arrogância e antipatia do barco: os alemães. Um deles chegou a roubar minha mesa – deve ter pensado que era a Polônia – depois que eu o deixei se sentar comigo. Mais tarde, empurrou quem estava perto dele para ver uma geleira.

Japoneses andavam em grupos fechados, sempre conversando entre si, embora educados. Da mesma maneira os chineses. E, surpresa, franceses desmentiram, pelo menos no navio, a fama. de antipáticos.

Já os campeões absolutos de simpatia foram os jamaicanos e os poucos indianos presentes (Kiribati compareceu com 100% de simpatia, mas só tinha uma representante, então não vale).  Em Ushuaia, conversei sobre a economia com um indiano (investe no Brasil) e depois disso sempre que me encontrava era bastante efusivo. Dignas de nota também as tripulantes romenas, simpáticas, alguns israelenses e australianos e as hordas de filipinos, a imensa maioria entre o pessoal do restaurante (sempre com a mesma resposta sobre por que são tantos: “Os filipinos trabalham duro”). Pena que com estes últimos, apesar dos sorrisos, a comunicação é bem difícil. Qualquer um só se comunica bem de verdade em inglês se entender um filipino ou um colombiano. Fracassei lamentavelmente em ambos os casos.

A maior viagem

De Buenos Aires a Valparaíso, a viagem ocorre em um crescente. Na manhã seguinte à partida, ancoramos para uma passagem de algumas horas por Montevidéu. Nada de importante a registrar, exceto que, depois de anos de busca, comprei um xilofone. No terceiro dia, virou o Caribe, pois com sol, piscina de água quente e hot tubs todo mundo põe roupa de praia. Felizmente no dia seguinte chegamos ao frio da Patagônia. Primeira grande parada: Puerto Madryn. A parte ruim: optar entre ver leões e grandes elefantes marinhos em Península Valdés ou, a 400 quilômetros de distância, ver pinguins de perto em Punta Tombo. Pinguins, então.

São as mais fenomenais criaturas da Terra. Embora selvagens, não se importam com humanos. Pinguins têm um jeito de andar engraçado e digno. São curiosos, te olham nos olhos e você tomba a cabeça, viram a cabeça deles na mesma direção.

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Puerto Madryn em si não tem nada demais. Tenho uma implicância com lugares que vivem do turismo. Não têm muito de real. Diante do porto, o centro é dominado por agências que levam turistas às atrações e lojas de lembranças. Foi uma pena não conhecer também Trelew, cidade fundada por galeses no caminho para os pinguins e tomada por algumas casinhas vermelhas que parece interessante. Lá há uma casa em forma de bule de chá e um museu com os maiores dinossauros, todos da Argentina, já encontrados.

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A Patagônia argentina é o fundo de um antigo oceano. A uma centena de quilômetros do mar, a beira da estrada está coberta de pequenas pedras redondas e lisas como as que se encontra nas praias. A umidade é retida no lado chileno pela Cordilheira dos Andes. A Patagônia chilena é verde e fértil. A Patagônia argentina é seca, amarela e geralmente coberta por vegetação baixa, como uma savana. O caminho é marcado por pequenas casinhas – menos de um metro – com garrafas pet dentro à beira da estrada. O guia contou sobre uma tragédia envolvendo pessoas mortas de sede numa viagem. Os motoristas costumam abastecê-las para outros motoristas não passarem o mesmo.

No caminho, longo, mas interessante na ida, meio chato na volta, a guia, de Taiwan, mas moradora dos Estados Unidos, contou estar há um ano na cidade. Viajando pela América do Sul, resolveu passar um tempo em Puerto Madryn e com os pinguins. Ela e o guia às vezes pareciam ter um caso. Trocavam uns olhares, mas quando o guia se enrolou com alguns guardas do parque dos pinguins (culpa de outros visitantes, não nossa), voltou conosco. Ele  ficou. Na ida, bebi o chimarrão preparado pelo guia para mostrar aos turistas o sabor deste exótico hábito gaucho.  Estava doce. Esqueci que argentinos fazem isso. Não gosto de chimarrão. Só mesmo pondo açúcar para piorar o gosto.

Malvinas, Cabo Horn e o preço da diversão

A viagem avançou por mais dois dias até a chegada às Malvinas (Falklands). Os dias de navegação são sempre os mais estranhos. É quando aproveita para tirar um dinheiro a mais dos passageiros. Para começar, não falhava. O café terminava às dez. Naquele momento soava nos alto-falantes:

– Good morning, ladies and gentlemen! You know what time is? It´s bingo time!

Fui a um bingo na segunda semana. Deixaram duas cartelas grátis na cabine. Na manhã seguinte o navio todo estava lá. Muito depois, explicaram que as cartelas verdes – as nossas – só valiam para o terceiro sorteio. Para participar dos outros três, dezenas de pessoas pagaram 70 dólares pelo direito de ganhar uns 100 dólares em cada sorteio.Não faz sentido, mas essa é uma faceta da viagem: o consumismo.

O navio não ganha muito dinheiro com as passagens. A viagem custa muito menos do que apenas dois vôos de ida e volta de Buenos Aires a Ushuaia. A comida, sofisticada e realmente de ir às lágrimas algumas vezes, sairia barato por uns 100 dólares diários. É de graça. As cabines são arrumadas duas vezes por dia pelos camareiros (que deixavam dois chocolates de menta em cima do travesseiro toda noite e duas vezes fizeram um coelho enrolando as toalhas de banho).

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Em troca, nos dias de navegação estava trancado em um shopping center flutuante, informado uma vez por dia (no jornalzinho de atividades que entregam toda noite na cabine) das novas promoções no freeshop e no cassino, obrigado a pagar indecentes 100 dólares por 250 minutos se quisesse usar a internet e fotografado a todo momento e colocado em exposição na banca de fotos. Em defesa do navio, o fato de sistematicamente ter recusado todos os serviços oferecidos jamais resultou em qualquer mudança de tratamento. Fora gorjetas, 20 dólares por dia, debitados na conta da cabine, o gasto total a bordo foi de 110 dólares em 14 dias.

O que não quer dizer que não sejam bons em vender. Na festa alemã, duas grandes churrasqueiras de barril são colocadas na varanda dos fundos. Grandes pedaços de cordeiro, hambúrgueres e diversos tipos de salsicha foram servidos enquanto no buffet ao lado salsichas cozidas e repolho iam para os pratos daqueles velhinhos severos com cara de Dieter.

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A festa alemã marcou nova descoberta a respeito dos filipinos. Não são apenas cordiais, incompreensíveis e os mais dados ao trabalho duro. São vendedores implacáveis. Para começar, um filipino só pode ser assim porque nasceu dotado de um radar para bebedores de cerveja. Não há treinamento que possa induzir à maneira como, mal Walter ou Benjamin se sentam para o almoço, surgem do nada:

– Beer, sir?

Agora TODOS os filipinos com esse radar – uns quinze – reunidos no mesmo espaço, sob as nuvens de um dia nublado e frio? Um me cortou o caminho tão logo me aproximei da churrasqueira.

– Cerveja grátis.

– Grátis?

– É, compra cinco, ganha seis e essa camiseta.

– Quando custa?

– Vinte e dois dólares.

Respondi que não naquela hora, fui ao quarto, troquei o casaco, voltei, o mesmo filipino.

– Beer, sir?

– Acho que depois, não bebo enquanto como.

Vou ao buffet, recolho umas salsichas italianas, Ele de novo.

– E agora, sir, beer?

Olhei em volta. As mesas estavam lotadas de long necks vazias. Ninguém, absolutamente ninguém, conseguiu escapar. Que chance tinha? As cervejas pelo menos incluíam algumas do Canadá, do Alasca e dos Estados Unidos. Bebi a Guinness e mais uma do Alasca e pedi que me conseguisse as outras quentes. Ia dar de presente a amigos. Ele me trouxa a conta. Não havia avisado que a sua gorjeta era à parte. Quase quatro dólares.

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Quanto às Malvinas, no quinto dia, lugarzinho sem graça, pequeno, onde só vivem 3 mil e poucas pessoas e 600 mil ovelhas, cujas maiores atrações são um osso de baleia e uma lojinha de souvenirs. Ainda por cima com campos minados remanescentes da guerra de 82. Quando chegamos, caças ingleses começaram a dar rasantes sobre o navio. Mais tarde um Hércules fez o mesmo. Os ingleses são uns idiotas. Diante de umas boas dezenas de argentinos e de um navio que partiu de Buenos Aires fazem uma saudação militar. Que bela maneira de afirmar a paz com os vizinhos.

Mas o que me marcou mesmo naquele dia foram as gaivotas. Segundo o americano que passou toda a viagem sentado no mesmo lugar, olhando o mar de binóculos, os pequenos pássaros negros que seguiram o navio na primeira semana (aproveitavam que o deslocamento da água punha peixes na superfície e comiam o tempo todo) são patrols. Nascem em terra e depois nunca mais voltam.  Passam a vida no mar, voando e caçando, de vez em quando pousando e flutuando no mar para descansar. Já as gaivotas não mantêm a distância. Com o navio ancorado, pousaram na parte de trás quando estava meio vazia. Os garçons não tinham acabado de  limpar as mesas. Uma delas pousou na mesa ao lado. Mais tarde, uma segunda surgiu e comeu todo o pão, salsicha, repolho, salada de batata, bolos rosado e branco, croissant, pão francês fatiado e branco, tomate e uma estranha mistura de ovo e manteiga que criavam um troço parecido com feijão – apresentada como “delícia australiana” – que lhe deram os passageiros. O melhor é que depois uma delas resolveu perturbar um alemão dos mais antipáticos, fazendo barulho, levantando vôo e voltando, sempre à volta dele, conseguiu levá-lo a reação abaixo.

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Voltando à viagem, o sexto dia é primeiro dos grandes momentos. Fernão de Magalhães não aceitou que Portugal se negasse a procurar um novo caminho para as Índias. Renunciou à cidadania portuguesa e em setembro de 1519 partiu com cinco caravelas da Espanha. Entre a partida de Sevilha e o Cabo Horn, se passaram quatorze meses.

A travessia foi antecedida por uma palestra a respeito da viagem de Magalhães. Uma tarefa realmente formidável, pois não bastou passar pelo Cabo Horn. Embora tenha encontrado águas mais calmas (o Oceano que batizou de Pacífico), a fome, a sede e as doenças dizimaram a tripulação. Fernão de Magalhães avançou. Só em abril de 1521 chegou às Filipinas. Parecia que o pior tinha passado, mas dias depois, atraído a uma emboscada dos nativos, o próprio Magalhães foi morto por uma flecha envenenada.

A tripulação, então, avançou sozinha. Finalmente os espanhóis chegaram às Índias. Tiveram que afundar um barco e perderam outro. Os dois remanescentes caíram prisioneiros dos portugueses no Cabo da Boa Esperança. Um dos navios, no entanto, escapou e assim, em Sevilha, terminou a aventura, em 3 de setembro de 1522, três anos depois. Dos 234 marinheiros que partiram, só 18 voltaram. Tempo bom para se viver, não?

Ushuaia

Com uma semana de viagem  acordei e me vi diante de um submarino preto da Marinha argentina. Marinheiros de uniforme escuro, de pé em cima do submarino, acenavam. A passagem do transatlânico por barcos menores costuma ser seguida de flashs. Os marinheiros do submarino também tiravam fotos. O submarino se deslocava com os marinheiros de pé do lado de fora. Foi assim até quase sumir de vista.

Ushuaia é pequena, com poucas construções altas e muitas casas coloridas em estilo inglês. Aquela ruazinha de San Francisco com umas casinhas antigas que estão sempre em filmes? Dez vezes mais. E as montanhas são como uma propaganda viva de Alpino. Um daqueles é o Cerro que inspirou a montanha de “Cordilheira”, de Daniel Galera, que li na semana anterior à viagem (este livro tem três partes excelentes. Sem “mas”). Às 8, estava coberta de neblina e misteriosa.  Ao longe, por volta das 9 da manhã, a neblina se levantou e ficou entre a cidade e uma massa de topos cobertos de neve.

O Trem do Fim do Mundo parte do pé de um parque e vai até o pé de uma montanha com o topo coberto de neve. A estação hoje fica ao lado de um campo de golfe mal cuidado que enfeia um pouco a paisagem. A locomotiva funcionou por 43 anos para transportar presos de uma penitenciária obrigados ao trabalho forçado de cortar árvores. A paisagem na subida é linda e, obviamente, triste, devastada por campos de árvores cortadas pelos presos, já podres. Também há muitas novas árvores cortadas. Ushuaia sofre uma praga de castores. Foram levados para lá porque alguns fazendeiros esperavam que pudessem aproveitar seu pêlo. Mas o frio de lá não é tão intenso quanto no Alasca. Os castores têm pêlo curto e, além de não servirem para nada, cortam as árvores, constroem represas e bloqueiam os rios. Como não têm predadores, se reproduzem descontroladamente. A caça ao castor é liberada.

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A viagem dura 40 minutos. É feita numa das duas locomotivas originais. Antes da partida um casal do Arizona disse ter torcido por Felipe Massa contra Lewis Hamilton na Fórmula-1. Elogiei John MCcain, eles votaram em Obama. A narração nos alto-falantes do trem exagera no melodrama para falar do passado. O trabalho dos presos foi terrível. Todos os dias, não importa o clima, subiam a montanha para cortar árvores. Segundo a narração, na cidade se conta histórias sobre fugas fantásticas. Então um terremoto entortou os trilhos (momento Ítalo Calvino em que a natureza muda tudo) e, embora o governo tenha tentado manter o trem em funcionamento, em 1952 a ferrovia foi abandonada. O trem voltou em 1994 para transportar turistas e, além da visita oficial custar absurdos 60 dólares por pessoa, os vagões têm a marca do cartão Visa.

A visita à cidade é curta. Termina às 2 da tarde para que o barco possa chegar ainda de dia ao Canal de Beagle. Ficaram para trás, a geleira Martial, o Farol do Fim do Mundo (passamos ao lado depois) e uma ilha, distante, com leões marinhos. A cidade tem um pouco de armadilha para turistas – cheia de lojas de lembranças que incomodam na paisagem – e também bancos. Mas são locais simpáticos. Um garçom, diante da minha curiosidade diante de uma centolla (o “king crab” é a razão daquele programa “Pesca Mortal”, em que marinheiros morrem ou acabam mutilados, e também é vendido congelado e em conserva no Chile, o que dá uma estranha poética ao caso), apanhou uma viva só para que o fotografasse.

Há uma cidade para turistas e outra nas casas mais afastadas em estilo vitoriano. Há muitos hotéis e no porto havia um barco oceanográfico da Rússia.  Ao passar pelos marinheiros, gritei um bordão que eu e alguns amigos costumamos repetir:

– Russo é melhor em tudo.

Obviamente, não  entenderam.

Beagle e outra viagem

O canal de Beagle tem águas muito calmas, justificando o “Pacífico” do Oceano, batizado por Fernão de Magalhães. O mar corre entre duas grandes estreitas cadeias de montanhas de cumes nevados. Antes da chegada,  no meio da tarde, mais uma palestra: um professor da Universidade de Houston falou sobre a viagem de Darwin e a teoria da evolução.

As atividades no navio duram 50 minutos. Um show, uma palestra, bingo, um jogo. Aposto que é o tempo comprovado cientificamente em que se pode manter a atenção de um grupo de idosos sem uma debandada geral em busca de café e bolo. Tão logo qualquer atividade chegava ao fim, sempre havia uma corrida para o buffet ou para o cassino, mais próximo, em busca de café e bolo.

Naquela palestra temia pelas discussões filosóficas e religiosas que viriam a seguir. Haveria criacionistas a bordo? Nada. Depois que as luzes se acenderam, os velhinhos desapareceram pelas portas de saída. Esperei um pouco. Um transtorno de em um barco lotado é que raramente o elevador vai descer ou subir sem parar em todos os andares.  Subi pelas escadas. Eles já faziam fila no buffet ou comiam. Um dia vou entender a razão da salsicha com repolho às 3 da tarde.

Foi naquela mesma paisagem que Charles Darwin começou a delinear a idéia da seleção natural. Fazia frio a ponto de alguns blocos de gelo flutuarem no mar.  Notei uma mulher com pincéis e um caderno numa mesa. Ela Pintava as paisagens coloridas, diferentes do original, um pouco enevoado. Viu que eu tomava notas e fez uma observação a respeito. No dia seguinte, me mostrou alguns desenhos. É uma pintora australiana. Nos desenhos dela, o Canal é assim.

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Então surgiu a primeira geleira. A bem da verdade, a palavra “geleira” me fora restrita até então. Significava um “iceberg”, geralmente branco. A geleira Espanha é azul turquesa. É uma massa de gelo que se derrama do alto até mais ou menos metade de uma montanha com dezenas de metros. Surge de repente. Houve um suspiro de assombro e todo mundo prendeu a respiração. Cinco minutos depois do capitão anunciá-la, surgiu a segunda, Itália, a mais bela de todas. Cobre  a montanha, se debruça até o mar e é injusto esperar que uma máquina fotográfica seja capaz de captar totalmente aquilo.

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A geleira Alemanha é a maior de todas e serve como uma pausa para Romance, a galeira que está derretendo (neguem o aquecimento global, biltres!) e já perdeu a sua metade de baixo. O resultado é uma cachoeira ensurdecedora e de uma triste beleza. Depois dela – e de uma pausa de vinte minutos – Europa, a última, não teve muito a acrescentar. Para completar, naquela noite, no resturante, quatro leões marinhos surgiram e desapareceram bem ao lado da janela onde estava sentado.

Em Punta Arenas, no Chile, o dia seguinte foi de novo dos pinguins. A cidade é uma das mais ricas do Chile por causa das jazidas locais de gás. É tomada de bancos, mas não há onde trocar dólares, razão dos vendedores locais cobrarem um câmbio imoral. O motorista contou que na região viviam os patagões, índios descritos por Fernão de Magalhães como gigantes de cinco metros . Não tinham. Ele confundiu o tamanho das pegadas. No século XIX, ainda estavam por lá quando chegaram os criadores de ovelhas ingleses e alemães. Os patagões não entenderam para que serviam as cercas, invadiam as fazendas e comiam as ovelhas. Os donos resolveram que a melhor maneira de lidar com o assunto era pagar a pistoleiros pelas orelhas e línguas dos patagões. Lá se foi uma civilização.

Homem ao mar

O Estreito de Magalhães põe em dúvida a expressão “Pacífico”. É o pior trecho da viagem. Ondas de 2,5 a quatro metros. Subitamente, depois do almoço, rostos mareados por toda parte e sacos de vômito presos no corrimão de cada andar. O balanço do restaurante era um adversário para alguns presentes. Cadeiras de rodas passeavam para a frente e para trás.

No dia da travessia do canal as áreas públicas ficaram quase vazias. No meu posto, no restaurante, não tive o menor problema para conseguir uma mesa na janela. Por volta das oito e meia da noite finalmente já estávamos quase no fim. O restaurante estava movimentado. Então o capitão anunciou o seguinte.

– Quero informar que daremos meia volta e vamos resgatar um barco que está naufragando no início do Estreito de Magalhães. Segundo as normas da Lei Marítima Internacional, o barco mais próximo é obrigado a prestar socorro. Somos o barco mais próximo.

E então passamos de novo pelo mesmo mar agitado. Enquanto eu tomava banho, o sistema de alto-falantes anunciou um “Código Alfa” no restaurante acima do fim do corredor. Não me importei muito. Exausto e meio mareado, caí no sono às 9 da noite. Acordei de repente às 2 da manhã. Lembrei: o naufrágio!

O Observation Lounge, uma grande sala envidraçada na proa, estava lotado. Conhecia alguns dos presentes de vista. Do lado de fora, algumas umas dez pessoas de binóculo vasculhavam o mar. O navio estava ancorado. Ocorreu o seguinte diálogo.

– Ali.

– É um farol.

– É aquela outra.

– Outro farol.

– Tem uma terceira.

– Um farol.

Quando acabaram os faróis, fui ao quarto pegar o casaco e ao voltar, encontrei a sala totalmente vazia. Todos foram dormir. Em outro café encontrei uns brasileiros, que também não ficaram muito tempo. Andando pelo sexto andar, encontrei David, um dos filhos da família de amigos de Fortaleza. No resto da madrugada, eu desisti da vigilia, desisti de dormir, voltei e, junto com David, avistei uma luz verde e uma amarela à distância. Quando voltávamos ao restaurante, do lado de fora, usando só camiseta, calção e bermuda, descalço em um frio de 5 ou 6 graus, um homem de uns sessenta anos passou por nós.

Não foi bem madrugada.  O sol só baixava pelas 11 da noite, mas não sumia. Durante quatro dias o céu ficou assim. Esta foto foi tirada à uma da manhã da madrugada anterior.

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Enquanto amanhecia surgiram mais pessoas. À distância, um barco nos circulava. Soube depois que era um submarino. Então, quando começou a ser servido o café, o pátio de trás foi misteriosamente fechado e todas as mesas empilhadas e amarradas no bar. Uma novidade: um helicóptero iria pousar no teto do restaurante. A seguir, uma reviravolta: o helicóptero não era para os náufragos, mas para o “Código Alfa”. Um passageiro se sentiu mal na noite anterior e tinha que ser levado a um hospital. Os náufragos estavam a salvo em outro navio. Um navio de pesquisa geológica inglês com 148 pessoas a bordo havia naufragado próximo do Estreito de Magalhães, mas a Marinha do Chile chegou antes de nós. O Norwegian Sun teve de esperar por dez horas para o caso de ter de prestar um eventual socorro.

O helicóptero pousou tão rapidamente e se foi que quase ninguém percebeu. Às 8 e meia da manhã o restaurante estava lotado e o clima de frustração era geral. Às dez o capitão repetiu as mesmas informações pelo alto-falante. Por conta do transtorno estava cancelada a visita a Puerto Chacabuco, no dia seguinte. E o navio iria, de novo, passar pelo Estreito de Magalhães.

Neste dia aconteceram mais duas coisas:

No fim da tarde a paisagem foi tomadas pelos fiordes.  Fiordes são rochas imensas que já foram cobertas de gelo e,  esmagadas, despedaçadas e depois alisadas, são cobertas de curvas e rugas. Alguns são parecidos com uma obra de Gaudí. Como muita coisa na viagem, uma visão única. O gelo recuou há menos tempo do que nos fiordes de Chacabuco, hoje cobertos de matas, dos quais o navio se aproximou na quinta-feira. As águas do canal são tão tranquilas como no canal de Beagle.  O sol se firmou a partir de mais ou menos a metade. Estávamos mais próximos das montanhas. Cardumes de peixes saltaram várias vezes ao lado. Um grupo de quatro golfinhos surgiu perseguindo-os.

Também fui a um leilão de arte, realizado por uma galeria norte-americano. De dois em dois dias, a cada leilão, expunha alguns originais de Picasso, Rembrandt, Goya e Norman Rockwell. Mas com o balançar do navio manter todos aqueles quadros de pé era impossível. Uma hora Picasso desabou em cima de mim. Agarrei a moldura e por mais ou menos trinta segundos tive nas mãos milhões de dólares. É uma sensação estranha.

Um vulcão e o DNA cearense

Assisti na última sexta a um documentário sobre o anel de fogo. É um círculo descomunal contendo várias grandes falhas geológicas e 80% dos vulcões ativos no mundo. É grande a chance de um dia causar uma reação em cadeia e matar centenas de milhões de pessoas. Estive ao lado da cratera de um dos vulcões. Osorno está ativo e anos atrás causou a evacuação das cidades mais próximas por causa do risco de uma erupção.

A maior e mais próxima cidade abaixo, Puerto Montt é uma Gramado gigante. Foi construída por alemães e até hoje é povoada por casas de madeira novas e antigas, muitas espetaculares. A área do cais do porto, com boates e lojas em prédios de madeira, lembra filmes do Velho Oeste.

Puerto Varas, caminho para o vulcão, é uma cidadezinha bem menor e também muitíssimo parecida com Gramado. Fica diante de um lago imenso, Llanquihue, de onde se pode avistar a Cordilheira dos Andes e os três vulcões da região.

A meia hora de carro ficam os Saltos Petrohue. Logo na entrada do parque há uma piscina natural completamente verde. Já achando aquilo bonito, segui por uma trilha atrás de um rugido e segundos depois surgiu uma cascata de águas esverdeadas. Então,  entre hordas de turistas, surge um paredão imenso à frente, do outro lado do rio, e, abaixo, a cachoeira mais bonita que vi na vida. Os vulcões, cobertos de neve e ainda ativos, são o pano de fundo da paisagem.

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Enquanto isso grandes besouros e mosquitos atacavam a todos. Na represa mais adiante eram tantos que provocaram a rápida fuga até o carro. Ainda tentávamos nos livrar deles quando o carro começou a subir, a subir, a subir, a subiiiiiir… só parando quase no topo do vulcão Osorno. O Osorno tem mais de 2 mil metros de altura e é coberto por neve eterna. De carro, chega-se até a estação de esqui a pouco mais da metade da  montanha. O resto do caminho é feito no teleférico, que estava fechado por causa dos ventos fortes. Fazia zero grau.

Pausa para a discussão do DNA cearense.

Durante a viagem nos aproximados de uma família de Fortaleza, já citada en passant. Núbia, a mãe, foi uma grande negociadora de preços nas excursões em terra. David, o filho mais velho, foi companheiro de muitas conversas e encontros. Victor,o filho mais novo, protagonizou uma espécie de novela em tempo real. Tem 16 anos e no terceiro dia de viagem se lamentava da quase completa falta de adolescentes do sexo feminino no navio. Bem, descobriu que havia uma. E cinco pretendentes do sexo masculino. No fim deu Brasil. Orgulho nacional.

O mais inusitado, no entanto, era ver Maurílio, o pai. Não importa se no Cabo Horn, visitando uma geleira em Ushuaia ou nos pingüins da Patagônia, estava sempre de bermuda e camiseta. Diante da última geleira, os filhos levaram ainda mais longe o recorde do pai posando para fotos descalços, de bermuda e sem camisa no frio.

No Osorno, é claro, Maurílio estava de bermuda. Diante da estação de esqui, a zero grau, enquanto éramos jogados de um lado ao outro pelo vento, comentou:

– Rapaz, agora tá frio mesmo.

Faça amigos e influencie pessoas

O camareiro da minha cabine é jamaicano e se chama John. No terceiro dia eu e John começamos a ter diálogos de negro.

– Como vai, John?

– Bem, man. E você?

– Bem.

Um dia me mandou esperar, se aproximou e bateu seu punho fechado em meu punho fechado. Disse “Respect!”

Fizemos a mesma coisa duas vezes por dia nos dez dias seguintes. Fizemos até uma foto juntos no mesmo gesto.

Um japonês casado com uma americana, sempre ao me encontrar, me saudava:

– Hello, Lucky Man!

Três vezes eu o encontrei no elevador e imediamente a porta se abriu. Pelo resto da viagem não voltou a acontecer, mas continuamos mantendo a brincadeira. Em um dia de sol, jogava golfe no navio e nesse momento, mais uma vez, é o que diz.

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Uma coisa supostamente chata que vou fazer outra vez

No ensaio “A supposedly funny thing I´ll never do again”, David Foster Wallace constata – a respeito de outro cruzeiro, pelo Caribe – que quando as atividades se encerram, o clima que fica no ar no navio vazio é de autêntico desespero. Uma madrugada tive a mesma sensação. Em outras pensei o contrário. Eu era o único astronauta solitário e acordado numa nave onde todos dormiam.

Um cruzeiro, vá em que direção for, é um passatempo superficial com noites preenchidas por jantares sofisticados e shows água-com-açúcar feitos por comediantes, músicos, mágicos, cantores e dançarinos ruins para uma platéia de senhores e senhoras que não está muito interessada em nada além de uma distração agradável

Mas este é o mesmo cruzeiro em que fui o mais feliz dos humanos ao me sentir dono, por sete horas, na última tarde, de um original de Snoopy e Charlie Brown assinado por Charlie Schultz até o momento em que o negócio foi desfeito por causa das informações erradas dos leiloeiros. Não era um original e não estava assinado por Schultz.

É o mesmo cruzeiro em que aprendi mais sobre Darwin e quase tudo o que sei agora sobre fiordes e geleiras. Na biblioteca, aberta 24 horas por dia, era só pegar um livro, anotar o nome em um caderno e levar. O acervo era razoável. Tinha The Black Swann, um Tom Robbins (Ferozes inválidos de volta aos Trópicos), Cormac McCarthy (A Travessia), uma coletânea da New Yorker, bons livros de história e de viagens. As salas de leitura estavam sempre cheias. Em um canto, às vezes me deparava com mini-torneios de xadrez.

Encontrei pessoas realmente interessantes e pessoas cretinas. Uma manhã dividi a mesa do café com um casal de ex-integrantes das forças de paz da ONU, planejando voltar à África. Outra noite jantei com um lobista.

Não acho que alguém escrever sobre si mesmo em geral acrescente algo à vida alheia. Pelo contrário. Mas qualquer um que escreva fatalmente escreverá sobre si mesmo.

Não foi a viagem de navio em si. Trata-se, no fim das contas, de um programa seguro e luxuoso para desfrute de idosos do primeiro mundo cuja maioria estava lá tanto pelo cassino e pelo bingo quanto pelas geleiras.

Foi a idéia que me fulminou diante do Cabo Horn. Por que navios mil vezes mais leves se arriscaram insanamente naqueles lugares? Mesmo 500 anos depois alguns trechos são perigosos não importa o tamanho do navio. Uma semana antes da viagem um transatlântico bateu numa geleira na passagem de Drake e teve de ser resgatado pela Marinha argentina.

Dinheiro? A serviço de Portugal, Fernão de Magalhães acumulou dinheiro a ponto de causar algumas suspeitas sobre a origem de sua fortuna? Fama? Certamente ser um aventureiro devia ajudar a pegar mulher, mas primeiro você precisava ficar três anos fora em viagens nas quais  menos de 10% das pessoas sobrevivia.

Foi por integridade. Iniciada a viagem, fizeram o seu melhor.

Charlie Schultz sempre negou que Charlie Brown seja um loser, pois, a despeito dos resultados, Charlie Brown enfrenta de bom coração cada desafio. “Ele sempre se mantém otimista” – disse Schultz – “e continua tentando, não importa o que aconteça”.

Eu sou Charlie Brown.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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6 Responses to Uma coisa supostamente chata que vou fazer outra vez

  1. Daniel G. says:

    Sensacional. Sem mais,

  2. mardruck says:

    Baita relato.

  3. Pingback: Filho do mar « gabinetedentario.org

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