A era dos navegadores

Pretendia ter feito um diário da longa viagem de navio que terminou ontem. Escrevo do terraço de um hostel com a cidade chilena de Valparaíso logo abaixo. É uma cidade muito bonita, com grandes morros tomados de casarões estilo vitoriano, construídos no século XIX, destruídos por um terremoto de 1906 e então reconstruídos iguais. A parte central é incrivelmente bela, sem nada dever a Buenos Aires, a outra cidade do gênero que me acostumei a visitar. Bem à minha frente está o porto, lotado de navios de cargas e contâineres, e à direita, distante, Viña del Mar, uma versão chilena de Miami, Rio, Barcelona, estas cidades iguais umas às outras, que agradam a novos ricos, americanos gordos e rosados, yuppies, japoneses que não tiram os olhos da tela de cristal da máquina fotográfica, mas que no me gustam. Há uma orla bonitinha, prédios luxuosos e uma praia. Parece bastante Copacabana. Todas não acrescentam nada umas às outras.

Voltando à viagem de navio, o relato deveria ter sido mais atualizado. Muita coisa aconteceu. O cruzeiro durou duas semanas. Neste tempo estive em duas reservas de pinguins, subi o trem do fim do mundo em Ushuaia, visitei as Falklands, cruzei o Cabo Horn e passei ao lado de geleiras azuis do tamanho de montanhas no Canal de Beagle, enfrentei tormentas no Estreito de Magallanes, uma noite em claro esperando o salvamento dos náusfragos de um barco oceanográfico, assisti ao pouso de um helicóptero no teto do restaurante para o resgate de um passageiro que se sentiu mal, vi fiordes de vários tipos, uma cachoeira verde e subi em um vulcão ativo. Isso tudo em sete dias.

Nos outros sete dias – de navegação – esperava escrever a respeito da viagem não fosse a descoberta, já embarcado, que isso me custaria a exorbitrância de 75 centavos de dólar o minuto. De modo que apenas no Brasil usarei todas aquelas anotações e desenhos. Até lá posso dizer que viajar de navio para o sul do continente foi a maior coisa que fiz na vida.O caminho dos grandes navegadores continua perigoso, emocionante, misterioso e belo. Os navios são maiores, mas tem dias em que suas dezenas de milhares de toneladas não significam quase nada diante da força do mar.

O título deste post deveria ser ¨Uma coisa supostamente chata que vou fazer outra vez¨. É uma piada com o ensaio de David Foster Wallace sobre outra viagem de navio, cujo título diz justamente o contrário. Sobre Foster Wallace, escrevi um texto que saiu no primeiro número dos Cadernos de Não-ficção da Não Editora. ¨O Escritor Deprimido¨ começa na página 48, mas a revista inteira vale ser lida.

Volto na sexta ao Brasil. Amanhã viajo para Santiago, que ainda não conheço. Dizem que lá há condores.

Até a volta.

P.S. Hoje vi pelicanos.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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2 Responses to A era dos navegadores

  1. emily says:

    condores e muitos plátanos.

  2. dante says:

    inveja total, completa e absoluta, mas branca-quase-transparente.

    irei pra caralho.

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