Homem ao mar

Pelo que posso me lembrar, a idéia estava na minha cabeça desde Encontro com a morte, de Agatha Christie, o primeiro livro “sério” que li, aos treze ou quatorze anos. Se passava em um cruzeiro para o Egito cheio de aristocratas. Desde então a vaga idéia de um dia fazer uma longa viagem de navio foi sendo corroída  pela constatação de que cruzeiro significa música caribenha, uns americanos branquelos de chapeuzinho e uma cafonice sem fim.

É tudo isso mesmo, mas até agora até que está sendo divertido. Desde ontem minha e pelas próximas duas semanas a minha moradia oficial é um transatlântico gigantesco, de doze andares, chamado Norwegian Sun. A viagem começou à tarde em Buenos Aires. Hoje o barco aportou em Montevidéu, de onde sai mais tarde para esse itinerário.

Primeiras impressões:

1 – A Argentina é um país realmente irritante quando se trata de deixá-la. O embarque demorou quase três horas em um galpão a uns 50 graus de temperatura ambiente. Foi preciso passar por QUATRO longas filas, em intermináveis check-ins.

2 – Basicamente, há velhos no navio. Toneladas deles. Alguns incrivelmente decrépitos, me levando a imaginar o esforço deles para estar ali.

3 – Americanos são estereótipos vivos. Quase todos são gordos, rosados e com cara de que moram em Miami e desconfiam desse tal Obama.

4 – Há uma incrível quantidade de asiáticos entre a tripulação. Indianos, indonésios, malaios, chineses, até uma nepalesa.

5 – Pelo menos nas primeiras 24 horas, enquanto estou tolerante, a viagem tem sido a oportunidade de conhecer e conversar com mais estrangeiros do que jamais foi possível. Hoje tomei café com umas velhinhas judias de Manhattan, que confessaram a vontade e o medo de conhecer o Rio e me fizeram prometer ir a Israel. Ontem, dando uma banda, acabei no meio de um grupo de francesas que até elogiaram meu francês.

6 – Americanos são realmente muito gordos.

7 – Os restaurantes são incrivelmente bons. Há nove deles, todos de culinária internacional e cinco estrelas. Todos de graça.

8 – Ver os americanos no café da manhã explica porque são tão gordos.

9 – Quem não viu O Cavaleiro das Trevas em espanhol não viu nada.

À tarde, o navio parte para a Patagônia. O roteiro promete uma visita à maior reserva de leões marinhos do mundo e avistamento de baleias, além da visita à cidade argentina de Puerto Madryn. Enquanto isso o Vasco foi para a Segunda Divisão. Não me lamentarei agora. Tenho um ano para ficar triste.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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3 Responses to Homem ao mar

  1. Maria says:

    Primeiro contato que tive com americanos, autênticos e rosados, foi no café da manhã de um hotel em São Paulo e, re-afirmo que sim, por isso são tão gordos.
    Mais estranho que eles foram um grupo de indianos, no mesmo hotel, que comeram só salsichano café. De duas uma: ou acharam que era de frango, ou resolveram que, se estão fora Índia, não seria pecado…

    ps: Te invejo na parte dos restaurantes, confesso. E boa viagem.

  2. Menezes says:

    Não tomo café e sou gordo.

    ótimo relato.

    Segunda divisão não é tão ruim quanto parece. Ruim mesmo é jogar com o Paraná.

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