LOVE # 17

There is no such thing as a weird human being

TOM ROBBINS – Another roadside attraction

Rodolfo se divertia com um joguinho na internet quando o chefe mandou chamá-lo. “Tenho más notícias, seu Rodolfo”, o chefe disse logo que ele entrou na sala. Era um homem à moda antiga. Falava cheio de mesuras e rodeios e senhores e senhoras. Penteava os cabelos no estilo combo, os fios desgraçadamente incapazes de cobrir a grande clareira no alto da cabeça. Continuou: “A empresa, seu Rodolfo, está numa época de cortes e ajustes e…”

Rodolfo não esperou o resto da conversa. Voltou para seu computador e para seu joguinho. Só mais tarde começou a esvaziar a mesa. Guardou tudo na mochila e foi embora do escritório. Saiu sem se despedir de ninguém. Não tinha ali ninguém mesmo com quem se importasse ou que suspeitasse que se importava com ele. Bando de filhos da puta. Com a expressão perdida, deixou o prédio, caminhou até a banca de jornal e comprou um cartão telefônico. Foi até um orelhão e discou o número da ex-mulher. Logo que Fátima atendeu, sem deixar ela falar, berrou todas as barbaridades que sempre pensou dela em todos aqueles anos. Bateu o telefone a seguir. Suava. Seu rosto estava vermelho. Sentia-se leve, portador de uma verdade só sua.

No dia seguinte, acordou com uma fortíssima dor de barriga. Dobrado em cólicas, deu o nome do hospital ao taxista e foi deitado no banco de trás do carro. Ao dar entrada na emergência, no entanto, o funcionário da triagem o mandou para a sala de espera lotada. De nada adiantaram seus protestos, ameaças e súplicas. Para não se aborrecer no trabalho, o funcionário da triagem costumava alternar as personalidades. Em alguns dias era um atendente bastante razoável e educado, ajudando aos doentes no que podia e condoendo-se da dor e do sofrimento alheios. Em outros, pelo contrário, completamente irascível e injusto, não dava a menor importância a eles, tratava-os com impessoalidade, desprezo até. Fisicamente, era espantosamente parecido com o barão do Rio Branco. Estava em um de seus piores dias, para azar de Rodolfo.

Ajeitando-se numa cadeira de plástico, Rodolfo verificou no letreiro luminoso que o último número chamado fora o 135-A (o seu era o 272-B). Não demorou, porém, a descobrir que todos os doentes, grávidas e idosos eram atendidos na sua frente.

“Têm prioridade”, deu de ombros o funcionário da triagem quando foi reclamar.

Como todo mundo ali era idoso, doente ou grávida, cinco horas depois a sala continuava lotada e ele ainda esperava. As tripas o fizeram se contorcer um pouco mais e ele, finalmente perdendo a paciência, se levantou e começou a gritar com o funcionário da triagem e com outros pacientes e também com os seguranças, que o arrastaram para fora. Com o resto dos créditos do cartão telefônico, ligou para Adele, que foi sua última namorada antes do casamento com Fátima. Adele atendeu. Antes que terminasse de falar ela já chorava. Sempre foi meio mole, a Adele. Encerrada a ligação, com ofensas recém-ditas ainda frescas na memória, caminhou pelo meio da praça arrastando os pés e levantando uma nuvem de poeira do chão só para atrapalhar as crianças que brincavam. Chutou uma pedra tentando acertar um pombo. Uma velha, sentada próxima, olhou-o com reprovação. Ele respondeu: “Ora, vá se foder, minha senhora”. A cólica havia passado.

Mal havia acabado de acender um baseado na sala, mais ou menos uma semana depois, e a síndica tocou a campainha para reclamar do cheiro de maconha no corredor do prédio. Desde que deixou o emprego passou a fumar sem parar. Não tinha muito o que fazer e nem vontade de procurar emprego. A síndica só foi embora depois que ele concordou em assinar a notificação do condomínio. Levando o papel dobrado no bolso da calça, Rodolfo partiu em um ônibus no fim da tarde para o centro. As ruas ainda estava cheias. Teria que esperar. Foi até uma pastelaria, pediu um pastel de queijo e um caldo de cana. Quando terminou de comer já estava escuro. Saindo da Rua da Praia, subiu a Rua da Ladeira e buscou refúgio na entrada da Biblioteca. Fora naquele mesmo lugar que anos antes pela primeira beijou Camila, que um tempo depois foi embora com outro para Barcelona. Aconteceu antes de Adele. Nunca mais teve notícia de Camila. Rodolfo tirou uma chave de fenda do bolso e, calmamente, esculpiu vários palavrões e desenhos pornográficos na porta, feita de madeira trabalhada e antiga, causando a indignação do diretor da biblioteca, que, na manhã seguinte, ao chegar para trabalhar e ver o estrago, pôs-se logo a escrever um artigo, criticando o vandalismo, a falta de respeito elo patrimônio histórico e outras coisas  reclamações, publicado no segundo maior jornal da cidade. O artigo realmente ficou muito bem escrito, mas Rodolfo não o leu, pois comprava apenas o jornal concorrente.

Houve também um baile de fim de ano na pequena cidade onde vivia sua família, no interior de Minas. Rodolfo viajou para o Natal depois de longos anos de ausência. Naquela cidadezinha passou as férias durante quase toda a adolescência. Tinha boas lembranças daqueles tempos. Na noite da festa, no entanto, reencontrou Marcial, desafeto antigo. Ambos  se desentenderam naquela noite, como muitas vezes antes, por causa de uma antiga namorada. Marcial acabou levado pelos seguranças para o lado de fora. Ficou à espera de Rodolfo. Quando o baile acabou, antes que Rodolfo dissesse qualquer coisa, Marcial saiu de trás de uma árvore e atirou na sua perna antes de fugir  Mancando, Rodolfo caminhou até a casa de uma tia e pediu socorro na cozinha, onde a família estava reunida. Mas antes de sair para o médico pediu licença a todos por um instante e mancou de volta até o telefone. Naquele momento nada era mais importante do que ligar para Cláudia, razão da mais devastadora tristeza que já sofreu e de ter se tornado incapaz de articular os próprios sentimentos, sua primeira namorada de verdade, aquela que lhe ensinou o amor.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to LOVE # 17

  1. Renata says:

    Isso é meio sexista, não?

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