Ele, Ela

Ela também tinha uma história passada no trabalho, bem diferente a propósito. Seu primeiro emprego, três anos antes, foi numa ótica e loja de revelações fotográficas. Chegava no fim da manhã e passava as tardes atendendo no balcão até as seis da tarde, quando ajudava Seu Herique, o dono, a baixar as portas e a apagar as luzes. Então pegava a bolsa debaixo do balcão, dava boa-noite a Seu Henrique (estavam os dois nos quase sempre sozinhos) e ia embora. Na sexta-feira da terceira semana, contudo, depois de ajudar Seu Henrique com as portas, ia começar a apagar as luzes quando ele pediu que esperasse um momento. Seu Henrique foi então até o depósito e depois de alguns minutos chamou-a lá de dentro. Ao chegar lá, ela encontrou-o com as calças abaixadas até os tornozelos e a cueca branca pela altura do joelho. Seu Henrique segurava o pinto com a mão direita. Apontava-o diretamente na sua direção, como se aquele buraco no meio fosse um olho e assim pudesse vê-la. Antes que pudesse dizer alguma coisa, ele segurou o pau com força, como se aquele buraco no meio fosse uma boca e pudesse falar.

Sentindo-se completamente ultrajada, ela não se moveu até que ele agarrou-a o braço, puxando-a para perto de si. Devagar, em silêncio, ela se abaixou e, meio indiferente à situação, pôs o negócio na boca. Não podia afirmar com certeza que esta não era uma obrigação profissional. Sabia, ouvindo falar e lendo a respeito, que eram relativamente comuns relacionamentos nos locais de trabalho, mas não tinha a menor idéia de começavam. Seria este um tipo de ritual e, assim, com um ataque abrupto, é que mais tarde acabaria apaixonada? O gosto não era ruim, mas Seu Henrique tinha um pinto grande, que encheu toda a boca, fazendo-a se afastar com violência ao quase tocar a garganta. Começou a masturbá-lo para não ter que colocar aquilo de novo na boca, mas não escapou do orgasmo. Ele enfiou o negócio de novo e logo depois gozou apertando a sua cabeça contra si. Tinha um gosto que desteou.

Não voltou mais à loja. Pediu as contas por telefone e no mesmo dia contou tudo para o irmão, que foi à loja buscar a indenização no seu lugar. Depois de receber o cheque e assinar um recibo, o irmão agarrou Seu Henrique pelos cabelos e arrastou com calma até o depósito. A loja ficou vazia. O irmão era mais jovem do que Seu Henrique. Frequentava academia três vezes por semana e comia suplementos alimentares para ficar mais forte. Dominou facilmente seu Henrique. Nos fundos da loja, o irmão arriou a calça até os tornozelos e a cueca até os joelhos. Com o negócio ainda mole, agarrou Seu Henrique pelos cabelos e, sem nenhuma emoção, apontou com os olhos. Seu Henrique começou a chorar

O irmão chegou ao apartamento dela meia hora depois usando um óculos de sol. Levou para casa, junto com a indenização, três meses a mais de salário para ela. Seu Henrique enviou, junto com o dinheiro, um cartão roxo dentro de um envelope roxo. Ela rasgou o envelope sem ler e jogou os pedaços na privada, dando descarga a seguir.

Ele terminou de comer e olhou em volta na praça da alimentação. Os olhares dele e dela se encontraram rapidamente e cada um deu um sorriso simpático, logo desviando os olhos. Após afastar a bandeja, ele tirou da bolsa um livro e começou a ler. Ali ficaram, ele ainda ignorando-a, por mais alguns minutos até que fechou o livro e, levantando-se, começou a deixar a praça da alimentação.

Ela observou-o ir embora quase em câmera lenta, desde o momento em que atravessou a praça de alimentação, depois parou diante de uma vitrine masculina (usava uma bonita camisa, talvez tivesse bom gosto) e também quando examinou as TVs de tela grande na loja de eletrodomésticos (será casado? Mora sozinho?) até a hora que esperou numa pequena fila para usar a escada rolante. Enquanto ainda podia vê-lo, imaginou uma vida para ele e como, no dia seguinte, iria voltar ao shopping para almoçar e então se reencontrariam. Descobrira qual livro ele estava lendo e, ao ler também o mesmo livro, haveria motivo para mil perguntas e comentários, e ele a tomaria por uma destas mulheres inteligentes, que era certamente o que desejava, tornando-os certamente bastante íntimos logo neste início tão promissor. A vez dele chegou na escada rolante e enquanto ele desaparecia, com desalento, ela se sentiu infeliz por todos os encontros não-concretizados pelos quais já passou e ainda teria que passar na vida.

Ele desceu pela escada rolante e depois bebeu um café expresso numa loja de chocolates do primeiro andar. Pediu duas bolinhas de cacau com conhaque, que devorou com prazer. Depois caminhou com o passo apressado na direção do banheiro. Por uma disfunção qualquer, não podia beber café expresso sem ser atacado mais ou menos dez minutos depois por uma vontade incontrolável de correr para o banheiro. Escolheu um reservado e antes de sentar-se desenhou cobriu com papel higiênico o asento da patente. Era seu método predileto para evitar os germes; o outro era ajeitar-se pouco acima do assento, sem tocá-lo, e de cima mesmo exercer sua função. A sensação de esvaziar-se encheu-o de calma.

Ela dormiu naquela noite às 22:47, mas não tinha a menor noção disso e nem do que fazer com a própria vida.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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3 Responses to Ele, Ela

  1. Ramilla says:

    Do conto eu não gostei muito, mas a situação parece tanto com a minha vida…

  2. Ramilla says:

    Na verdade, eu estava falando do conto anterior. Só pra deixar claro. Pois é.

  3. alexandre rodrigues says:

    na verdade, os dois são um só.

    eu tive um emprego mais ou menos assim, mas não é autobiográfico.

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