Ela, Ele

Ela não fez as unhas no horário do almoço, como nas outras quintas-feiras, porque naquela manhã choveu. O ar estava úmido e o esmalte ia demorar a secar. Em vez disso, resolveu pegar um ônibus até o shopping center, que ficava perto do trabalho.

Ele estava sentado no canto oposto da grande praça de alimentação. Tinha, desfeita à sua frente, uma embalagem do Burger King e um brinquedo dos Simpsons, que ganhou de brinde. Comia um hamburger. Caído no chão próximo dele, um saco de batatas fritas. Caíram da bandeja ao levar um esbarrão de um homem gordo que escapuliu sem dar tempo dele fazer nada. Agora comia com ar infeliz.

Ela prestou atenção nele logo que chegou. Levou para perto dele a bandeja com uma refeição leve de um fast-food natural e um pires com pedaços de melão. Comeu devagar, não querendo parecer afoita. Tinha as mãos finas e delicadas cobertas de sardas. Disfarçava o nervosismo tentando não olhar na direção dele para ver se a observava também, porém ele continuou a comer e a ignorá-la.

Ele pensava nos frangos prensados que comia todos os dias no almoço quando morava no Rio, dez anos antes. Seu emprego era vender bolsas de estudo de um curso que prometia um novo e revolucionário método para ensinar inglês, mas cujos resultados não eram, como se podia prever, nem um pouco melhores do que os demais. Era tímido demais para convencer os outros. Para sua sorte, seu primeiro cliente foi um velho livreiro que recebeu-o no depósito da loja. Tinha os braços magros e enrugados cobertos por uma pelagem branca. Estava com mais de setenta anos. Foi facilmente convencido. Depois ele mesmo explicou o porquê:

“Enquanto o senhor entrava por aquela porta eu tentava responder a mim mesmo o significado de um sonho que eu tive essa noite. Agora não tenho nenhuma dúvida. Foi um aviso.  Não costumo me lembrar do que eu sonho. Às vezes, quando acordo, vem um rápido dado ou informação que escapou de desaparecer junto com o resto e é tudo que sobra do sonho; mas desta vez quando acordei o sonho ainda estava nítido na minha mente. Uma mulher muito bonita me olhava. Era mesmo um fenômeno de mulher. Usava uma fina blusa branca, sem sutiã, com o contorno dos seios evidentes e leves manchas amarronzadas no lugar dos mamilos. Numa certa hora ela entreabriu os lábios e o que me disse soou como a mais louca promessa de devassidão que ouvi na vida. Ela tinha a voz agradável e quente.  Sou casado há quarenta e oito anos com a mesma mulher e sou muito feliz. Graças a Deus, nunca fui infiel. Não digo para me gabar, é  porque se trata da mais pura verdade. Mas com aquela mulher ia na hora. Largava tudo mesmo. Só que ela falou tudo em inglês.  Só falava inglês e eu não falo inglês. Nem uma palavra. Era nisso que pensava quando o senhor passou por aquela porta, se devia começar a aprender inglês”.

Pagou com dois cheques pré-datados. Pelas regras da empresa, tinha direito a quatorze por cento da venda.

Quando ele anunciou que fez uma venda, desenrolou-se a seguinte cena no grande escritório no centro que ocupava quase um andar inteiro e pertencia ao curso: Rodolfo, seu chefe, recebeu a notícia e então deixou a sala, foi até o lado de fora e parou diante de um gongo, pendurado diante da porta. Sem a menor cerimônia, ele apanhou um bastão com a ponta acolchoada, pendurado na parede, e fez soar duas vezes o gongo com estardalhaço. De algumas salas surgiram cabeças se perguntando o que acontecia. Logo voltaram a seus afazeres, pois este era um ritual bem comum. Na sala da diretoria, ficava um grande quadro branco com os nomes de todos os vendedores anotados com pincel atômico azul e suas vendas,  com pincel atômico vermelho Alguns nomes registravam bons números – 14, 16, 18 – ao lado, eram os melhores na equipe, enquanto outros, com 8 ou 9, podiam ser definidos como os médios. O seu estava marcado com um X. Significava que não fizera nenhuma venda até o momento. Rodolfo apagou o X com a manga da camisa e, com pincel atômico vermelho, rabiscou: 1.

Continua.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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