Brasil, país de…

Fui acordado hoje por uma ligação a cobrar. Mal atendo, uma voz feminina do outro lado começa a gritar que foi roubada e que é refém. Sonolento, tento conversar, mas ela grita. Então uma voz masculina assume o telefone:

– Ela está comigo. Se desligar o telefone, ela morre.

Fico em silêncio.

– Ouviu?

– Quero falar com ela – eu digo.

Ela volta ao telefone.

– Helena?

– Oi (gritos descontrolados da mulher).

– E você, Helena?

– Sou.

– Quem?

– Eu, a Helena.

Volta o homem.

– Se você desligar, vou executá-la.

– Idiota – eu digo -, ela não se chama Helena, está no… e não vou cair nessa.

Ainda dá tempo para algumas referências desrespeitosas à mãe dele, que desliga com um palavrão. Me ponho a avisar os pais de ambos os lados. Vem então a insegurança. Será que estava mesmo certo e não era ela? Será que o sono não me enganou? Será que ela não estava nervosa e se confundiu e agora eu tinha posto tudo a perder? Ela saiu de madrugada para a viagem. Coloquei-a no táxi e ficamos de nos falar na chegada. Por uma maldita coincidência, esta é a manhã em que um ladrão ordinário resolveu me chantagear. A sensação perdura até que, somente horas depois, confirmo que ela está bem e participando de um seminário.

Mudo o número do telefone ao mesmo tempo em que conto o caso aos mais próximos. Começo a receber relatos de ataques semelhantes ocorridos há pouco tempo. Como em cada acontecimento violento (furtos, assaltos, sequestro-relâmpago), há uma série de vítimas mais ou menos em volta. É assim que acabamos: fatia-se uma estatística em crimes reais e, fora uns bem absurdos, todos estão por perto.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to Brasil, país de…

  1. Cardoso says:

    Eu não teria dito que ela estava no Chile.

    Fora isso, genial.

    Fizeram algo semelhante no final do ano passado. Ligaram pra casa dos meus pais como se EU estivesse em poder de bandidos. Eu estava em reunião a tarde toda e só liguei o celular por volta das 17h por um acidente. Notei que começou a vibrar demais e vi que tinha mais de 20 ligações em menos de uma hora: meu pai, meu irmão, o telefone da casa dos meus pais.

    Pensei “puta merda, morreu alguém” e liguei apavorado.

    Assim que meu irmão atendeu, fui miseravelmente xingado. Depois, foi a vez do meu pai. Depois, minha mãe. Todo mundo caiu nessa.

    Eu perguntei: “mas o que o cara disse?”

    Meu pai: “Ai, pai, me acode”

    E eu disse: “Se alguém ligar praí dizendo ‘me acode’, pode ter certeza de que não sou eu”.

    Igual, é um lixo.

    Ninguém riu.

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