Mais um exemplo da porosidade de certas fronteiras (xi)

Como em todos aqueles outros sonhos, eu estou com alguém que conheço mas não sei se conheço e agora a pessoa de repente me mostra que estou cego. Literalmente cego, sem visão etc. Ou então é na presença dessa pessoa que eu de repente me dou conta de que estou cego. O que acontece quando entendo isso é que fico triste. Me deixa incrivelmente triste estar cego. A pessoa de alguma forma sabe com eu fiquei triste e me avisa que chorar vai machucar meus olhos de alguma forma e fazer a cegueira ficar ainda pior, mas eu não consigo evitar. Sento e começo a chorar muito mesmo. Acordo chorando na cama e chorando tanto que não consigo enxergar nada e nem distinguir nada, nada. Isso me faz chorar ainda mais. Minha namorada fica preocupada, acorda, me pergunta o que foi e passa um minuto ou mais antes de entender pelo menos que eu estava sonhando e que estou acordado e que não estou cego de verdade mas só chorando sem nenhuma razão, daí conto o sonho para a minha namorada e faço ela entender. Aí o dia inteiro no trabalho estou incrivelmente consciente da minha visão, dos meus olhos e de como é bom ser capaz de ver cores, a cara das pessoas e saber exatamente onde estou e como tudo isso é frágil, o mecanismo do olho humano e a capacidade de ver, como se pode perder isso com facilidade, como estou sempre vendo por aí com sua bengalas e caras estranhas e ficou pensando que seria interessante passar uns segundos olhando para elas e nunca pensando que elas não têm nada a ver comigo ou com os meus olhos e agora é apenas uma coincidência uma sorte eu enxergar em vez de ser um daqueles cegos que vejo no metrô. E o dia inteiro no trabalho cada vez que essa história me volta começo a lacrimejar de novo, pronto para chorar e só não choro porque a divisão entre os cubículos é baixa e todo mundo ia me ver, iam ficar preocupados e o dia inteiro depois do sonho é assim, cansativo para danar e eu bato o ponto e vou para casa, tão cansado com tanto sono que nem consigo abrir os olhos e quando chego em casa vou direto para a cama e durmo sei lá às quatro da tarde e apago mais ou menos.

(David Foster Wallace – BREVES ENTREVISTAS COM HOMENS HEDIONDOS)

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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4 Responses to Mais um exemplo da porosidade de certas fronteiras (xi)

  1. É MENTIRA.

    Porra.

    Tinha que ser.

    :~

  2. xerxenesky says:

    Eu tô procurando ferozmente no Infinite Jest um trecho que tem sobre suicídio, uma metáfora sobre depressão = um prédio em chamas, saltar do prédio em chamas = a última saída, algo assim. Talvez achando a citação o enforcamento faça algum sentido.

  3. xerxenesky says:

    No google, só achei isso:

    The gist is that a suicide is like a person who jumps from the top floor of a burning building: eventually the fear of the flames overtakes the fear of falling, but the flames haven’t made the jump any less terrifying, i.e. the fear of falling is a constant.

  4. Publiquei esse trecho que tu menciona no Kaliyuga, Xerxes —

    The so-called ‘psychotically depressed’ person who tries to kill herself doesn’t do so out of quote ‘hopelessness’ or any abstract conviction that life’s assets and debits do not square. And surely not because death seems suddenly appealing. The person in whom Its invisible agony reaches a certain unendurable level will kill herself the same way a trapped person will eventually jump from the window of a burning high-rise. Make no mistake about people who leap from burning windows. Their terror of falling from a great height is still just as great as it would be for you or me standing speculatively at the same window just checking out the view; i.e. the fear of falling remains a constant. The variable here is the other terror, the fire’s flames: when the flames get close enough, falling to death becomes the slightly less terrible of two terrors. It’s not desiring the fall; it’s terror of the flames. And yet nobody down on the sidewalk, looking up and yelling ‘Don’t!’ and ‘Hang on!’, can understand the jump. Not really. You’d have to have personally been trapped and felt flames to really understand a terror way beyond falling.

    Mas o suicídio do DFW faz completo sentido, no fim das contas. Eu só não queria que acontecesse, por ele e por nós.

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