Martin Amis

Dois livros dele em seguida. Por causa de outro – Água pesada e outros contos – e também daquela matéria sobre os terroristas do 11/9 que saiu traduzida na Piauí (bastante criticada, mas gostei) e de uma resenha antiga no New York Times sobre 1985, de Anthony Burgess, fiquei com uma boa impressão que não perdura nestes dois – Trem noturno e A seta do tempo. Ele escreve realmente bem, é irônico e tem um humor cruel e cortante, mas os dois livros em questão são muito fracos.

A Seta do tempo parte da idéia de contar a história de trás para a frente, porém demora pelo menos meio livro até o leitor se dar conta do que acontece. Os diálogos, mais radicalmente ao inverso, funcionam pelo menos, mas não compensam o fato de que personagens e enredo são meio desinteressantes. A ação é confusa. No fim, alguns trechos muito bem escritos e outros frouxos – nada mais.

Trem noturno decepciona ainda mais. Amis, ao contrário de seus outros livros, geralmente passados em Londres ou na Inglaterra, situa a história numa grande e violenta cidade fictícia dos Estados Unidos onde a morte de uma jovem, filha de seu ex-chefe, leva uma policial a tentar de todas as formas rejeitar a hipótese de suicídio para procurar um culpado. Exceto por uma breve reflexão a respeito da influência de O poderoso chefão sobre o comportamento dos bandidos de verdade (começaram a agir com honra quando antes não fazia isso), nada a lembrar, nem a elogiar. Realmente fraco.

Há paralelos claros – nas virtudes e nos vícios – entre a carreira de Burgess e Amis. Burgess sempre foi acusado de publicar livos demais e com isso não trabalhá-los até o ponto de refletir todo o seu potencial. Não deu bola para isso e continuou publicando – às vezes obras-primas, às vezes lixo absoluto. Ambos se tornaram personalidades políticas, muito além do mundo literário. Em Burgess, isso foi um charme. Sua mania de percorrer a Europa de carro enfrentando críticos e debatedores na TV refletia uma literatura que, como o autor, se preocupava em afrontar. Amis segue o mesmo caminho. Mas não se trata só de querer ser como Burgess. É preciso escrever como ele e nisso Amis, pelo menos até agora, falha clamorosamente.

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About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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