The final cut

Tinha o rosto amarelo e rosado e lembrava um antigo personagem de desenho. Da testa brotavam pingos de suor. No peito sem camisa, usava um grande cordão de outo. À sua frente, sobre uma toalha branca, as armas foram todas arranjadas como a obra de um artista conceitual. Estavam sem munição.

– Isso é para você – me alcançou um revólver 22 que cabia quase inteiro na minha mão.

Empertigou-se e me olhou nos olhos por um instante. Um olhar inquisidor. Depois abriu uma gaveta, pegou outra arma – uma pistola – e pôs no lugar do revólver recém-retirado. Ajeitou-o até deixá-lo alinhado com uma fileira de outras pistolas.

– Você vacilou comigo. É um filho da puta, mas se arrependeu, então não vou fazer nada contigo. Mas o Cruz eu não perdôo. Vamos dar um recado a ele (sorriu). Ah, leva o Pequeno com você.

O Pequeno levou algum tempo para conseguir se ajeitar no banco da frente. Praguejou contra o hábito da indústria de construir carros pequenos. O apelido era só um modo de dizer. Tinha mais de dois metros, o corpo largo de ex-leão-de-chácara e ex-lutador de luta-livre. Apontou seus olhos minúsculos e o nariz amassado de ex-boxeador na minha direção quando ordenou.

– Vamos.

O carro se moveu lentamente, parecendo tão sonolento quanto eu. Fora obrigado a acordar mais cedo do que o habitual. Pequeno socou a porta do apartamento com suas mãos grandes até a minha aparição com cara de sono. Me deu o recado. Agora, enquanto seguia ao meu lado, calado, parecia absorvido por alguma grande questão. Cruzava as mãos e as enfiava entre as pernas. Estava nervoso. O casaco caía por cima do câmbio. Me atrapalhava na hora de mudar a marcha, mas resolvi não reclamar.

Rodamos por mais ou menos uma hora. Paramos finalmente diante da casa. Uma rua de terra batida e poucas casas. Nenhuma como aquela.

– É aí – informei, já abrindo a porta.

– Aí?

– É. Aí.

Paredes altas e brancas. Dois andares. Janelas, porta, telhado, tudo branco, feito numa igreja. O Velho Cruz fazia questão de que todos soubessem onde morava. Era só perguntar pela casa branca na vizinhança que todos sabiam dizer.

Nenhum segurança à vista quando avancei pelo gramado bem cuidado. Portas e janelas permaneciam fechadas. Deveria bater? De repente um clique. A sensação me fez girar lentamente. Um recado. Apesar de todo o tamanho, Pequeno estivera fora do alcance da vista. Um recado, porra, um recado. Quando o encontrei, já havia saído do carro. Um recado, caralho. Apoiava as mãos no teto para segurar com mais firmeza a pistola. O cano comprido mirava a minha testa. Bem no meio.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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