Quatro leituras da viagem (até agora)

A arte da entrevista – Picasso desmente todas as análises feitas pelo desconcertado entrevistador sobre seus quadros. Gilberto Freyre revela a Ricardo Noblat que usava uma camisinha com um penacho acoplado para provocar orgasmos nas moçoilas. Scott Fitzgerald convalescente de uma doença. Hitchcock de uma cirurgia. Marilyn Monroe, casada com Arthur Miller, a um passo de entrar na espiral que levou à sua morte. Todos humanos, frágeis e ainda assim senhores de toda a mitologia que os envolve. Tem ainda uma entrevista de Drummond, três anos antes da morte, falando da própria e a maior já feita no país: a de Samuel Wainer com Getúlio Vargas. Vai ser difícil ler algo nesse nível no resto do ano.

O vingador do futuro e outras histórias de Philip K. Dick – Dele,  sempre se diz que era um escritor de técnica medíocre com uma grande imaginação. Mais ou menos. O vingador do futuro (ou lembramos você por atacado) é um ótimo conto, bem diferente do filme, que por sua vez é tão bom quanto a história original partindo do mesmo ponto e indo numa direção diferente. A formiga elétrica é outro bom momento. Mas em geral as histórias são bem fracas, nada além de ficção científica convencional e banal. Talvez a seleção é que seja ruim. Foi publicada em 1991, quando nada de K. Dick saía no Brasil. Nunca li Minority report, que vem com mais outros contos. Talvez seja melhor. Talvez.

O púcaro búlgaro – A Bulgária existe? De tanto matarmos o tempo pode o tempo acabar mesmo morto? E se alguém mora sozinho e alguém for morar com essa pessoa, os dois passam a morar sozinhos juntos? E quando cai o dia 32 de novembro? Campos de Carvalho devia ser ensinado nas escolas. 

Não há nada lá – Joca Reiners Terron é o maior escritor brasileiro vivo. Se morresse, seria o maior escritor vivo ou morto (e colocariam seu rosto em um cartaz tipo Velho Oeste). Livro foda do início ao fim. Impossível defini-lo. Impossível não gostar e não se sentar ao meio-fio e chorar lágrimas de esguicho (obrigado, Nelson Rodrigues) por ter acabado. Experimente encarar as dez últimas páginas, entrar no mar, deixa a água cobrir a cabeça e então pensar nelas. O mundo não é o que parece. William Burroughs vive mais uma vez. Billy The Kid aparecerá como assombração. O fim é um hipercubo girando alucinadamente. O início é uma falange de demônios. Meio.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to Quatro leituras da viagem (até agora)

  1. A Segunda Variedade, conto do Minority Report, é bem bom. Os que tu nomeou aí em cima também. O Impostor se questiona com palavras semelhantes às da Formiga Elétrica e agrada do mesmo jeito. Os outros contos ficam no outros mesmo. Uma boa leitura pros 19 anos o Minority Report esse, desaparecido nos dias de hoje.

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