Dia 7 – O fim (ou como Ivan Lessa me venceu mesmo)

E então Ivan Lessa me venceu.

Não há ironia maior a ser feita sobre o Rio do que o ponto alto de seu relato, a visita que fez à cidade depois de 28 anos longe. Uma hora ouve um estrondo: foi a Favela do Vidigal que cresceu mais um pouco.

Na paisagem, tenho a impressão de que o estrondo se repete o tempo todo. Uma fábrica de leite, ao lado da estação do Metrô do Jacaré, faliu uns anos atrás. Me acostumei a vê-la fechada em cada visita. Agora há uma favela lá dentro. Ainda cercada pelos muros, ocupa o que antes eram os pátios do prédio. O próprio prédio foi ocupado.

No horizonte, em São Cristóvão, ao lado do prédio que avistava sempre que ia treinar no Vasco, mais uma favela. O prédio antes estava ali sozinho. Fica em curva, no alto do morro. Se não me engano, é cenário do filme Central do Brasil.

No Vidigal, uma nova favela, agora voltada para o Leblon. Antes, ficava virada apenas para São Conrado.

Não é preciso muito para adivinhar o que vai acontecer. É pegar o Google Earth e perceber que favelas antes isoladas umas das outras agora se conectam. Assim, nasceu o “Complexo do Alemão”, uma massa que se estende por muitos bairros e morros. A Vila Cruzeiro fez o mesmo caminho.

Eis, então, o que está para acontecer: daqui a dez anos o que se chama de Rio continuará sendo aqueles mesmos bairros para turistas. Umas poucas ruas de frente para o mar com centenas de policiais espalhados para dar a falsa impressão de segurança. O resto será uma imensa e incontrolável favela nascida na zona sul e a se estender em todas as direções, indo aos limites da cidade. Tudo vai piorar, tudo continuará igual. O carioca continuará de costas para o que acontece, olhando a paisagem. Tudo ficará bem enquanto os turistas continuarem vindo. Se o barulho de tiros se tornar insuportável é só aumentar o volume do aparelho de som ou da TV, dizer que a violência é uma invenção da Globo, discutir quem será a musa do carnaval, etc.

Hoje à noite embarco de volta. Não foi ruim, não foi bom. O Rio sabe divertir. Há coisas que só encontro aqui: coxinhas de galinha, boas empadas, uma casa de suco e um vendedor de cocos em cada esquina, amigos antigos, livrarias de verdade, não megastores. Mas no fim das contas qualquer cidade já não tem tantos encantos depois da segunda ou da terceira visita. Descobri isso indo muitas vezes a São Paulo. Sinto o mesmo sobre Porto Alegre. No caso do Rio, havia os laços que me fizeram querer morar aqui. Ter a falsa sensação de ser um privilegiado por viver na mais bela cidade do mundo. Esses não existem mais. Quando puser os pés de novo fora daqui voltarei a tentar superar Ivan Lessa. Mesmo que ele sempre vá me vencer.

Penso nos 28 anos de seu exílio. Começaram, como amanhã, com um primeiro dia, depois outro, outro, outro, outro…

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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3 Responses to Dia 7 – O fim (ou como Ivan Lessa me venceu mesmo)

  1. Pellizzari says:

    FUCKIN BRILLIANT EH

  2. Rico says:

    É, eu ia dizer sobre cinemas de rua e livrarias que não são megastores e blá-blá: Xápralá, o Pellizza resumiu a história.

    Morei na Penha, minha irmã tem uma das últimas certidões de nascimento emitidas pelo Estado da Guanabara e na(i)sceu no hospital com o mesmo nome. É engraçado ver que esse teu sentimento pelo que o Rio se tornou é parecido com o que sinto sobre o que Porto Alegre se tornou: Não que Poa tenha sido algum dia nem perto do que de grande o Rio já foi, mas era mais civilizadinha, menos “Porto Alegre é demais” (que é o equivalente moral do “Ah, não importa, o Rio é lindo”), menos Peru do Zavallita.

    Quer saber? acho que tu ganhou do Ivan Lessa.

  3. alex valla says:

    Acho que vc está passando pela sensação de que não pertence a lugar nenhum. Eu passei por isso quando voltei de Nova York e acabei descobrindo muitos anos e erros depois que não pertencemos mesmo.
    O negócio é continuar um pé depois do outro e continuar acreditando que os textos que deixaremos é apenas uma mensagem em uma garrafa, assim não nos sentiremos culpados.

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