Dias 4 e 5 – Simpsons e macacos (ou como volto a ser um carioca)

Ando cheio de frases e referências por estes dias.

Uma é de Ivan Lessa, que ainda está me vencendo: nada de importante aconteceu ou acontecerá no Rio.

Essa é uma cidade cheia de não-fatos. Aqui ficava a sede do reinado e do império, mas a independência se deu em São Paulo. O comício das Diretas Já reuniu um milhão, mas a eleição não foi aprovada naquele ano. O comício final da campanha do Lula em 89 também tinha quase isso de gente, mas como tudo acabou? A passeata dos 100 mil foi um protesto que deu em nada. Bem tem a Bossa Nova, que vive do passado e não é realmente nova desde, sei lá, 1966(?).

A outra referência é a recente entrevista com Jack Nicholson publicada na Folha. O problema – diz ele – é que não há mais classe. Ninguém a possui e nem a valoriza. Vivemos uma cultura, um mundo, uma arte de vulgaridade. O Rio também é assim. Já teve classe, mas esta se esvaiu quando eu ainda era criança. Tornou-se uma cidade vulgar. Uma das coisas que me irritava antes de ir embora é a falsa cortesia, a falta de educação, o cinismo geral. Parece ter piorado muito.

Mas ainda assim – é também inevitável – estou voltando a virar um carioca. Na véspera de Natal, fui com o Hermano e a Carol (mulher dele) ao Parque Lage. Não punha os pés lá há um longo tempo. Caminhávamos por uma alameda e de repente, no alto das jaqueiras, surge um grupo de macacos. Vivem soltos no parque, que se liga à Mata Atlântica que ainda existe na pedra do Corcovado. Não sei por que o prefeito ficou tão irritado com os Simpsons. Uma das coisas notáveis do Rio é ainda ter macacos e cabras vivendo na natureza. Quem tem a sorte de morar perto da Floresta da Tijuca ou de alguma mata se acostuma a vê-los. Há cigarras por todos os cantos. Tudo isso não é vergonha. Torna a metrópole um fenômeno único.

Mais uma peculiaridade carioca: há cinemas de rua. Muitos (lembram, não-cariocas, como eram?) e em vários bairros. Não foram exterminados pelos cinemas de shopping. Pelo menos ainda.

Uma terceira referência é Nelson Rodrigues, que percebeu, ainda nos anos 50, o que o Rio é de verdade. Dizia que quando chegava ao Méier – bairro da zona norte a dezenas de quilômetros dos limites geográficos da cidade – já sentia nostalgia do Rio. O Rio de verdade é formado por uns oito bairros. Todos ficam na zona sul. No máximo a Mangueira poderia ser incluída.

A outra referência é Andy Kaufman. Kaufman percebeu que o único humor válido é o espontâneo. Por isso o Trote da Telerj é mais engraçado do que qualquer esquete que o Monty Python tenha feito. Kaufman não se importou de ser execrado por espancar mulheres em lutas fingidas. Seria como um dia Paulo Coelho dizer “Seus idiotas, eu estava mentindo o tempo todo”. O Rio já teve esse tipo de humor cruel. Perdeu-o, trocou-o pela… argh… picardia . Mas não é o caso d´eu tê-lo perdido. Tão logo me despeço do Hermano retomo uma das piadas de antigamente. Começo a parar as pessoas na rua e perguntar:

– Por favor, sabe onde fica a Rua Alexandre Rodrigues?

– O Edifício Alexandre Rodrigues, sabe onde fica?

– Estou procurando o Parque Alexandre Rodrigues. Já ouviu falar?

Carioca não admite que não conhece a própria cidade. Jamais dirá que não sabe. Se o sujeito disser que não sabe, provavelmente não nasceu ou não mora aqui. Sempre apontam algum lugar. Recebo muitas indicações. Fica em Ipanema. Fica no Leblon. Por último, um sujeito de sunga põe a mão no meu ombro e avisa:

– Ih, brother, se fosse você não ia nessa rua, não. Fica no pé do morro.

Digo que vou assim mesmo. Sigo para um lado. Ele segue para um quiosque.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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