Dia 6 – Solvitur ambulando (ou a arte de se lamentar nas ruas do Rio)

De volta ao centro, rendo homenagem à minha obra favorita sobre (passada n´) o Rio.

O conto A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro é a mais pungente/relevante história que tem a cidade como cenário desde João do Rio e Lima Barreto. Augusto, o andarilho, vaga melancolicamente pelo centro tentando reencontrar um Rio que não existe mais: o Rio antigo, o Rio de belle époque, quando a cidade se prestava ao flaneur. Sua solução para tudo de ruim que vê, para seus próprios problemas, é andar. Solvitur ambulando, repete sempre.

Anos atrás, escrevi um ensaio sobre o conto para fazer mestrado em literatura. Depois de algumas releituras, me dei conta de que Augusto parece preso ao centro. Mora no centro, se alimenta no centro. Não vai a outro lugar. O Rio que o interessa deve ser visto das ruas, não do alto ou do mar. No centro, encontra a companhia da prostituta que o acompanhará em suas caminhadas. A prostituta não se interessa pela história da cidade. Não quer saber se este ou aquele personagem viveu neste ou naquele sobrado que agora é uma loja/depósito/igreja evangélica. Quer muito mais fazer sexo com o andarilho, que não parece atraído por ela.

De todo modo é um Rio que vale muito a pena ver. O centro do Rio podia ser tão belo quanto o centro de Buenos Aires. Não faltam construções antigas, ruas e ruas delas, mas a ocupação por um comércio nada turístico e o perigo que é caminhar em alguns locais levou à degradação. A cidade fez a opção de ser um só tipo de cartão postal e assim será até que só tenham sobrado os prédios do governo.

Desde que li o conto ainda não tinha voltado. Hoje, caminhando pelo centro, procurei alguns dos locais por onde passa o personagem. Alguns estão próximos de desaparecer, como o antigo cinema freqüentado por Rui Barbosa, cujo teto se abria nas noites estreladas. Primeiro o prédio foi dividido em dois. Uma parte virou uma sapataria, outra já andava fechada. Agora ambas as lojas estão fechadas. O prédio está muito mal conservado.

Uma parada no Real Gabinete Português de Leitura, ultimamente citado em sites estrangeiros entre as cinco bibliotecas mais bonitas do mundo. É mesmo. E agora, além de tudo, estão expostos manuscritos de Machado de Assis (tinha letra pequena), Eça de Queiróz (rabiscava tudo, fazia uma bela confusão) e João do Rio (uma tradução de Salomé, de Oscar Wilde). Espero que a segurança seja melhor do que a do Masp e que uma hora dessas não leia que foram roubados.

Uma parada na galeria da Rua do Ouvidor onde funcionava a loja responsável por boa parte da minha formação musical. A Gramophone tinha um belíssimo acervo de CDs e – quando ainda se vendia isso – fitas. Com suas coletâneas Cruisin, importadas, me aprofundei no rock dos anos 50 e 60. Não sobreviveu à pirataria e à MP3. Há uma farmácia de manipulação no local. Em frente, na mesma galeria, funcionava uma livraria onde o forte eram os livros de arte. Se foi também. Um salão de cabeleireiro ocupa o espaço.

Uma parada na Casa Cavé, que fechou e mudou para a rua do lado. O antigo café, onde bebia guaraná caçulinha e comia folhado de camarão, reabriu meio modernizado, com outro nome, mas também um pouco da velha dignidade. Os doces são bons. O café é barato. A máquina da expresso é a mais bonita que já vi. Imensa, uma torre prateada de se poder ver o reflexo. Combina com o lugar. Sempre preferi a Casa Cavé à Confeitaria Colombo, que é mais uma atração turística do que um bom lugar para se comer.

No Metrô, o sistema de som informa (em português e em um inglês canhestro) que há um vagão só para mulheres. O assédio era tão grande que foi preciso separá-las dos homens. No Pavilhão de São Cristóvão, um cartaz gigantesco informa que é proibido entrar com armas de fogo. Ah, bom.

Enfim, foi o penúltimo dia. Ivan Lessa novamente me vence. A solução para deixar um lugar é aquela que preconizou em sua visita: ir embora sem olhar para trás. Simplesmente, sem se lamentar.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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