Dia 3 – A tropa da guerra (ou um pouco mais sobre Sierra Leoa)

Esta é uma visita planejada para ser a última.

Na última vez, planejava voltar logo e fiquei cinco anos fora. Tenho esperanças de que se planejar não voltar redescubra algo que me faça querer estar aqui sempre.

Como é planejada para ser a última, a visita inclui vários roteiros sentimentais.

Hoje fui visitar meus tios (na verdade não são tios, mas é como se fossem), certamente as pessoas de melhor coração que conheço. Moram na Vila da Penha. No caminho, vi pela primeira vez a Força Nacional de Segurança. Imagem impressionante. Protegidos atrás de barricadas com sacos de areia, usando capacetes de aço e coletes à prova de balas, militares de olhar assustado e uniforme camuflado vigiam as ruas. É o mesmo caminho que fazia todos os dias para a faculdade. Há favelas próximas, mas nunca aconteceu nada no caminho. Agora virou cenário de confrontos e tiroteios.

Passo próximo à fábrica da Coca-Cola que visitei com a turma do colégio. Um dos pontos altos da minha infância. O ônibus da Coca-Cola nos levou até a fábrica, onde, depois de assistirmos a um estranho desenho em que Branca de Neve e os Sete Anões visitavam a empresa, fomos levados à linha de produção, às caldeiras (onde, dizia a lenda, um operário caiu e foi fervido vivo) e então, encerrada a visita, bebemos todo o refrigerante que aguentamos.

A fábrica fechou. O prédio está em ruínas, destruído mesmo. Segundo minha mãe, foi saqueado. Não há nem telhado. Roubaram.

Durante todo o caminho – Bonsucesso, Olaria, Penha – observo o antigo comércio de rua fechado. Tudo faliu. O subúrbio está pobre, sujo, feio, arruinado, violento. É o preço de anos, muitos, de decadência. Era um bom lugar para se viver. Fui criado na Penha. Estudava em Olaria. Desfilava em Ramos no 7 de setembro. Agora por toda parte há mais lojas fechadas do que funcionando, portas arriadas, prédios destruídos e pichados. Lojas de móveis, bancos, fábricas, cinemas, nada mais existe. A minha rua foi fechada com grades, transformada ilegalmente em um condomínio fechado. Os moradores conseguem apoio de um vereador, que usa o poder político para impedir a prefeitura de retirar as grades e a reabertura ao tráfego. Mais uma solução carioca para a violência. Apenas no jardim da casa em frente àquela onde cresci encontraram 18 projéteis de fuzil.

Quando o ônibus me deixa no destino da visita, a melancolia é inevitável. Hoje, numa entrevista, o secretário de Segurança prometeu que carros blindados vão circular pelas ruas da região. As cabines da polícia também serão blindadas. Deverão – informa – pelo menos proteger os policiais dos tiros de fuzis. E quanto às casas? O repórter não pergunta. Ele não responde. Todo mundo sabe o que vai acontecer.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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