Dia 2 – The kids are allright (ou bem-vindo a 1993)

A música-tema desta visita rola o tempo todo na minha mente. É Velha Roupa Colorida, canção de Belchior que diz que o passado é uma roupa que já não serve mais.

Ivan Lessa ainda me vence, mas marquei um gol.

Vinte e oito anos não são cinco. Nem doze. Em 28 anos é possível alguém envelhecer a ponto do pensamento inevitável dele na Piauí: “como estamos acabados”. Em cinco (ou doze) as coisas não mudam tanto assim. Não estamos acabados. Fora os cabelos brancos, somos os mesmos. Até mais dignos.

Estes são os dois ex-rapazes que achavam que o tempo não iria passar nunca. Estamos sentados no Amarelinho, na Cinelândia. Doze anos é o tempo da separação. Tivemos uma briga idiota em 95 ou 96 e nunca mais nos vimos. E até que não estamos tão diferentes. Ele sempre foi minha contraparte mais alucinada. Eu fui embora para Porto Alegre, ele para Nova York. Tivemos muitos altos e poucos baixos. Amigos de muito tempo.

O terceiro cavaleiro da Apocalipse recebia a visita do filho. Não apareceu. Ligamos para ele, ele nos ligou. Marcamos um reencontro do trio para a próxima terça. Não nos reunimos os três desde 93. Antigamente fazíamos isso toda sexta. Tínhamos a piada mais boba do mundo. Íamos sempre ao mesmo bar, um antro hippie chamado Daniel. Desde dois dias antes começávamos a nos perguntar:

– E então, Daniel ou Daniel?

Um respondia:

– Acho que o Daniel.

Outro rebatia:

– E que tal o Daniel?

O que tudo começou:

– Sei não. Que tal o Daniel?

Por causa de um incidente com o Santino, o gato lá de casa, tive que tomar antirábica e antitetânica. Não posso beber. Tomo café enquanto o outro entorna chopes. Depois do oitavo, me convence a ir jogar sinuca no tradicional salão depois dos Arcos. É o mesmo salão onde jogava Madame Satã, aberto há uns 70 ou 80 anos. No último jornal onde trabalhei aqui gostava de sair após o fechamento e ir lá beber cerveja. Travestis faziam ponto na entrada. Passava por eles, encostava no balcão e ficava vendo os jogadores, mestres do bilhar. Sabia que era um intruso no ambiente. Sou péssimo, tétrico, terrível jogador.

Meu problema com a sinuca é o mesmo problema com a vida. Não sou muito bom em improvisos. Sou bom em planejar e organizar. Mas se tenho que improvisar, as coisas nem sempre saem bem. Jogando sinuca, preciso encostar cada bola antes de encaçapá-la. Gasto milhares de tacadas nisso. Contra qualquer jogador razoável perco muito antes de conseguir matar metade das bolas.

Chegamos ao salão só para descobrir que também fechou. Pode ter sido lá que Madame Satã jogava, mas agora há uma igreja evangélica no lugar. Alguém nos indica outro, mais adiante. Vamos lá. Parece muito com o antigo, porém não há mais os travestis. Está cheio de gente tatuada, indies, jovens e também jogadores tradicionais, destes que chegam com o próprio taco (sem trocadilhos, por favor). Jogamos. Incrivelmente venço. Meu adversário é pior do que eu. Três a dois para mim. A última partida certamente é a pior já disputada naquela mesa, provavelmente no salão e, mais provavelmente ainda, na Lapa. Uma hora e meia para cinco partidas. Tento me lembrar de outra vez em que venci alguém na sinuca. Me recordo de uma ocasião em Santa Teresa, mas desconfio que o adversário estava bêbado. Era de novo o caso.

Depois do jogo, circulamos pela Lapa. Eis uma boa novidade. O Circo Voador reabriu. É um local fundamental na minha vida. Quando os amigos começaram a envelhecer e se casar foi onde encontrei refúgio. Não há mais lona e sim uma espécie de domo. Há pouco rock lá hoje em dia. O show é da Monobloco. Na sexta, informam os cartazes , quem tocou foram Baia e os Rock Boys. Este sim era tradicional do local. Vi muitos shows do grupo ali por 93. O público é quase todo adolescente. Não anima a entrar.

No outro lado da rua, muitas casas antigas viraram bares. Uma festa, Loud!, anuncia a atração: ROCK. O público é mais parecido com o do antigo Circo Voador. Também não entramos, mas simpatizo com o local. Pelas dez da noite já há uma multidão nas ruas. Começa a encher os bares quando voltamos à Cinelândia para jantar. Depois de um galeto, já cansados, entramos na estação do Metrô para a volta para casa, mas então, na plataforma, decidimos ir a Copacabana. Até então tentava evitar o mar, mas acabo aceitando entusiasmado a sugestão.

Copacabana é sempre a mesma. Cheia de clichês, aquilo que o Rio diz ser. Não é, mas é um bom lugar. Acabaram-se os quiosques no calçadão. A prefeitura vendeu o espaço e surgiram bares envidraçados, limpos, com mesas metálicas bonitas e iguais. Tudo meio Miami. Também há banheiros subterrâneos. Bonitos e limpos, mas que cobram pelo uso. Meu amigo continua bebendo chopes enquanto eu bebo café. Experimenta quase todos os banheiros quando começamos a caminhar.

À uma da manhã, entre algumas reminiscências, vislumbro respostas sobre por que não tenho mais nada a ver com essa cidade. Boa parte do mau humor se deve à solidão. Carol está em Santa Catarina. Faz falta.

Mas também há outra razão. Aqui, diante de mim, está um dos grandes amigos de toda a vida. Outro se juntará a nós na terça. Um terceiro foi morar em Fortaleza. Dois morreram. Os dois que morreram fazem muita falta. Costumava sair com eles. Tinha sido na companhia de um a última visita ao bilhar da Lapa. Outro reencontrei em todas as ocasiões em que retornei até o dia em que soube que havia sofrido um ataque cardíaco. Era meu amigo mais velho. Quando nos conhecemos, eu tinha vinte, ele sessenta.

Há fantasmas presentes e nada de novo para contar. Tenho a impressão de que qualquer coisa que vejo já foi melhor.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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2 Responses to Dia 2 – The kids are allright (ou bem-vindo a 1993)

  1. alex valla says:

    Vc, que sempre cita Ivan Lessa, esqueceu dqa maior das verdades ditas por ele. Que na hora do sufoco, procure um McDonald’s.
    Valeu a história, mas da próxima vez espero que vc entorne uns chopps também.
    Acabei lembrando da Marcia, que dizia que o melhor de se estar doente e abstêmio é que acabamos vendo o mico que os outros pagam.
    Mas eu me vingo um dia. Vou a Poa e só bebo café.Rsrsrsrs

  2. alexandre r. says:

    essa história do mcdonald´s foi o rubem fonseca que disse. no mesmo conto que cito no dia 6.

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