Dia 1 – De volta a Ruanda (ou que fim levaram as cotias?)

Ivan Lessa continua me vencendo.

Começou sua visita de volta pela zona sul. É onde estão as belezas naturais e o Rio para turistas, onde tudo é lindo, limpo e “astral”.

Eu sou um cara do subúrbio. Meu Rio é o mesmo que o avião sobrevoa durante quase uma hora esperando vaga para pousar. Feio, cheio de favelas e meio irreal. O piloto informa primeiro que vai demorar de cinco a oito minutos a mais do que o previsto (isso que o avião já havia decolado com quase três horas de atraso). Depois desiste de qualquer informação, de modo que apenas às 10 e 40 da noite (devia ter sido às 7 e 40) o avião mal toca o solo e dá uma imensa freada que causa um solavanco geral.

Ao receber a bagagem, noto que a sacola foi rasgada no fundo. Quatro grandes rasgos. A bagagem também foi aberta e revirada. Reclamo com a Gol, que me promete uma resposta a respeito em três dias. Não perco tempo com mais reclamações, vou para o táxi. Já que está tarde, peço ao taxista que evite passar em favelas. Ele faz o contrário. Lá vamos nós. Maré, uma em Bonsucesso, outras duas em Del Castilho até que saímos em Inhaúma, onde já morei, que está mais feio, mais sujo, mais abandonado. Mais adiante, uma construção bonita. É o Estádio do Engenhão, “maravilha” construída pela prefeitura para o Pan e depois cedida a preço de banana ao Botafogo, pois se o clube não quisesse, seria um elefante branco. Chego à Abolição. Avenida Suburbana. É isso. Estou em casa.

Acordo com um barulho estridente de alto-falantes. Carros passam fazendo propaganda. Um oferece promoções para “a mais importante festa cristã”. Enquanto tomo café na varanda da casa dos pais pergunto a minha mãe por alguns conhecidos. Descubro que alguns, jovens ainda, morreram. Como?

– A milícia – ela explica.

A milícia é a solução carioca para a violência. Em vez de lei, assassinos. Sao ex-policiais que, expulsos da polícia porque eram criminosos, formaram grupos paramilitares que passaram a ocupar as favelas e expulsar (e em geral matar) os traficantes. Nenhuma autoridade se importa muito em combatê-los. As favelas ocupadas pelas milícias ficam tranqüilas por um tempo. Não há mais tiroteios, mas então as milícias iniciam a própria exploração dos moradores. Cada casa da favela próxima ao lugar onde vivi até onze anos atrás tem que pagar 10 reais de taxa de proteção. Máfia mesmo. O tráfico é proibido, porém milicianos consomem drogas abertamente.

Saio para o primeiro passeio – o centro – e me deparo de tempos em tempos com carros da PM. Do lado de fora, armado com um fuzil, um policial vigia ameaçadoramente algo de que não fico bem certo. Este é o Rio de verdade. Oitenta por centro da população convive com isso. Policiais violentos, despreparados, bandidos, canalhas, desonestos são os guardiães de todos. São coniventes com as milícias – afinal, ex-colegas. Certamente tudo acabará com a volta do tráfico – na mão dos milicianos, aliados aos policiais. Tudo ficará pior, mas todo mundo finge que não vê. O próprio prefeito apóia as milícias veladamente.

Chego ao centro. Primeira parada: o Campo de Santana. Não ponho os pés aqui há uns 15 anos. Mas já gostei de passear dentro dele. Quando eu era criança chamava-o de Campo das Cotias por causa da intensa pesença do roedor na paisagem. Agora desapareceram. Há centenas de gatos. Há patos. Mas cadê as cotias? Muita gente estranha, muitos desocupados. Aqui é o lugar onde se proclamou a República. Deodoro morava aqui perto. Mas não há mais muita dignidade no parque. É mal cuidado, é sujo, e não tem quase nenhuma cotia. Finalmente encontro um grupo de cinco delas. Brincam e comem próximas a uns patos. Não se incomodam que as fotografe. São dóceis. Tão dóceis que famintos das redondezas, anos atrás, começaram a transformá-las em refeição. Talvez seja por isso que são tão poucas.

Sou carioca. Essa cidade não me engana. Me encaminho para o almoço em um dos meus pontos tradicionais. O Restaurante Lisboeta serve frutos do mar e comida portuguesa. Meu acepipe favorito é uma empada de camarão com uma pimenta inteira dentro. A pimenta arde mesmo, exige cuidados senão a experiência será ruim. O resturante tem várias décadas e… está fechado. Passo do lugar, vou até o fim da quadra. Pergunto a respeito.

– Fechou – me informa um homem.

– Comi muito peixe ali – me diz outro.

– Eu gostava da empada – acrescento.

Acabamos os três pensativos.

Volto a pé pelo centro. Ando pelos sebos da Rua da Carioca. Os sebos do centro do Rio são os melhores do país, mas não encontro nada de bom. Estou atrás de livros de Evelyn Waugh, estou atrás de Barba Azul, de Vonnegut, e Os nus e os mortos, de Norman Mailer. Não encontro nada. Ainda com fome, decido me conformar com um pastel de queijo e caldo de cana. A pastelaria tem um aviso de que prostituição infantil ali é proibida.

Entro em um dos meus sebos favoritos. Era gigantesco. Agora só há uma prateleira e os livros são todos de Direito. O resto é uma mistura de cibercafé, loja de esoterismo e bar. Pelo menos há computadores. Peço um. A tela exige que eu preencha um cadastro, que leva mais de cinco minutos e exige até meu endereço. Então recebo um login e senha.

São 16 e 30. Ainda estou com fome. Só estou no Rio há menos de um dia e quero voltar para casa.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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