O amor – Parte II

Pastelão foi o primeiro livro de Kurt Vonnegut que li. Foi em janeiro de 2002, numa viagem ao Rio. Absolutamente chocado pelo tema – um sujeito de cabeça grande burro demais para ser outra coisa que não o presidente dos Estados Unidos e sua irmã mais inteligente – , percebi que ali havia alguma coisa que nunca havia encontrado.

Pastelão saiu das minhas mãos uns meses depois, emprestado a um amigo que nunca o devolveu. Nunca mais voltou. Ficou a vontade de uma releitura e a lembrança de um livro muito bom, meio excêntrico, no qual os dois personagens principais eram apresentados como uma versão literária do Gordo e o Magro (o que por si só já me conquistaria).

Vonnegut o escreveu em memória da irmã, Alice, morta de câncer aos 41 anos (sua morte precedeu a do marido, 24 horas depois, em um acidente de trem). Era a irmã do meio, mais velha do que o escritor e mais nova do que Bernard, que era cientista. Reconhece logo na primeira frase ser o mais próximo de uma autobiografia que poderia chegar. Quando Bernard também morreu, em 1997, abandonou a literatura por não ter mais a quem mostrar seus originais. No caso de Pastelão, obviamente tratam-se de Vonnegut e Alice os personagens principais.

Hoje comprei uma antiga edição da Artenova, com uma capa muito mais bonita do que a outra, do Círculo do Livro. Reli na fila do banco a apresentação. Não me lembrava de quase nada dela. Linda. A perfeição em duas páginas, define tudo que sempre pensei da literatura. A vida cotidiana não é relevante. Não precisamos de personagens pequenos. Podemos fracassar na tentativa (e eu fracasso miseravelmente o tempo todo), mas estamos nessa – ou pelo menos deveríamos estar –, como Laurel e Hardy, para dar grandeza àquilo que o destino nos coloca como desafio. Quem pensa diferente devia escrever um diário.

A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente.

Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa.

***

Havia muito pouco amor em seus filmes. Era freqüente haver uma poética situação de casamento, o que é diferente. Tratava-se, no entanto, de uma outra prova – com possibilidades cômicas, desde que a ela todos se submetessem de boa fé.

O amor jamais estava em questão. E talvez porque eu tenha sido tão intoxicado e educado por Laurel e Hardy durante minha infância na Grande Depressão, ache natural discutir a vida sem jamais falar de amor.

É algo que não me parece importante.

***

Tive algumas experiências com o amor ou pelo menos acho que tive, embora aquelas de que mais gostei possam ser facilmente descritas como decência mútua. Por algum tempo tratei bem determinada pessoa e essa pessoa, por sua vez, me tratou igualmente bem. O amor nada tinha a ver com isso.

Outra coisa: sou incapaz de distinguir entre o amor que tenho por gente o que sinto por cachorros.

Quando eu era criança e não estava vendo filmes cômicos ou ouvindo os comediantes que trabalhavam no rádio, costumava passar de tempo rolando nos tapetes com os afetuosos e nada críticos cachorros que tínhamos.

E ainda faço isso. Os cachorros logo se cansam e ficam confusos e desconcertados. Eu poderia continuar a vida toda.

Aiô.

***

O amor está onde é encontrado. Acho que é tolice sair à sua procura e penso que muitas vezes isso pode ser prejudicial.

Eu gostaria que as pessoas que, para seguir as convenções, declaram que se amam, dissessem umas às outras quando brigassem: “Por favor – um pouco menos de amor e um pouco mais de respeito mútuo“.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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