A teoria*

A teoria do menino é de que existe mesmo o bem e mal e no seu mundo de infância os soldadinhos verdes de plástico representam o bem e os soldadinhos cinzentos de plástico representam o mal. Ele encena combates imaginários no tapete da sala, derrubando um bonequinho quando acha que balas e estilhaços imaginários o atingiram enquanto imita o barulho de canhões e metralhadoras imaginários varrendo o campo de batalha. O menino também brinca com aviões de plástico, fazendo-os sobrevoar o tapete com pequenas bombas de plástico guardadas em seu interior. Todos os aviões e bombas de plástico pertencem ao exército verde. Cada vez que o menino aperta um botão, se abre a escotilha embaixo do avião e caem as bombas, que rolam pelo tapete e então a mão do menino sai derrubando bonequinhos cinzentos. O menino faz o som de uma explosão. Puf! Derruba de uma vez quase todos os bonequinhos inimigos. Ganha quem termina com mais bonequinhos no seu lado, no caso o verde, pois o menino acredita estar do lado do bem e que o bem sempre vence.

A teoria dos soldadinhos cinzentos é de que os bonequinhos verdes são o verdadeiro mal porque não hesitam em usar bombas e aviões e o menino no campo de batalha, enquanto eles só usam armas inúteis que nem disparam balas de verdade.

A teoria dos soldadinhos verdes é de que guerra é guerra e isso inclui usar bombas, aviões e o menino contra armas inúteis, desde que em nome do bem maior, que, aliás, eles representam.

A teoria da pequena bomba de plástico é de que os bonequinhos cinzentos são o verdadeiro mal, pois contra eles que se emprega a pior arma que o homem já criou: uma bomba. No seu frio raciocínio de artefato de guerra, o mal deve ser tão ruim que é preciso mobilizar cientistas, teorias, inteligência, tempo e matéria-prima para construir as bombas e ainda é preciso esquecer a sensatez antes de jogá-las.

A teoria dos cientistas que fazem bombas é de que cientistas, teorias, tempo e matéria-prima só são usados para fabricá-las porque existiram primeiro os soldadinhos.

A teoria dos pais do menino é de que não há nada demais em brincar de guerra, assim como não há nada de mal em brincar de polícia e ladrão, assim como não há nada demais em brincar de luta, só havendo algo demais em brincar de médico com essa idade.

A teoria do tapete é de que é melhor servir de campo de batalha do que de passadeira e o único perigo, acredita, é que algum soldadinho fique preso e arrebente as suas cerdas.

A teoria do caos diz que tudo isso tem um sentido.

A teoria dos vídeo games, carrinhos, jogos de tabuleiro, bolas e outros brinquedos do menino é de que tanto faz quem vai vencer a batalha, pois na verdade este é uma brincadeira muito chata.

* Escrito quando começou essa guerra aí. Reescrito agora.

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About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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