(No que faço a primeira e única confissão neste blog a respeito do passado e do jornalismo)

Numa das fases de repórter, eu percorria todos os dias dez delegacias de polícia da Baixada Fluminense, sendo submetido, como é de se imaginar, à barbárie humana quase em seu estado mais puro (quase porque tem sempre Ruanda e Auschwitz para provar que as coisas podiam ser piores) . Nunca pensei em escrever sobre esses anos porque achava – e acho – que não há nenhum tema que valha a pena ali. É a infelicidade vista no microscópio apenas. Pura e simples.

Mas logo no segundo ano teve a história do palhaço.

É preciso voltar no tempo até meu primeiro dia de trabalho na vida dentro de uma redação. Naquele dia, me apresentaram a um rádio grande (que ficava precariamente em cima de uma cadeira, mas nunca vi cair), de onde deveria tirar notícias dos programas policiais. Uma delas era um assunto desimportante. Um sujeito dormia, outros bateram na porta. Ele abriu e foi morto. Paf. Paf. Acabou. Fim.

À tarde, chegou o editor de polícia, que me perguntou se não havia nenhum detalhe a mais na história. A matéria só tinha 14 linhas. Liga para a delegacia – sugeriu. Liguei. Nada. Ele ficou meio contrariado, mas disse ok. Fui para casa. Na manhã seguinte, na banca, em deparo com a versão de que os assassinos estavam encapuzados, usavam um carro preto e se diziam “soldados a serviço do Brasil”. Todas informações falsas colocadas pelo editor para dourar a história . Puto da vida, cheguei à redação, fui para o rádio e passei o dia de mau humor.

Mas, enfim, foi minha primeira matéria a virar manchete.

Passam-se mais ou menos dois anos. Meu trabalho agora é andar pelas delegacias atrás de histórias e cadáveres. Em um trabalho desses não há dúvida: ou você é um cínico ou está prestes a desistir. Eu era um cínico. Entrevistava mães diante dos corpos dos filhos com frieza profissional. Já estava havia muito insensível a ver gente morta. É ruim a degradação como ser humano, mas depois da centésima vítima é impossível se importar. Sou, então, um jovem arrogante, com um texto já razoável, que trabalha demais e até gosta disso, obcecado por histórias e indiferente ao fato de que as histórias envolvem pessoas, dor, perda, tristeza, etc.

O dia é uma quarta ou quinta-feira. Faz sol. O carro vaga preguiçoso por uma periferia de Mesquita, então um bairro da cidade de Nova Iguaçu (hoje é uma cidade, acho). Estou aborrecido. É um dia sem nada. Ligo para os batalhões, passo nas delegacias. Só uns poucos mortos a madrugada, cujos corpos já foram recolhidos. De resto, nada.

De repente, nos deparamos com um circo.

É um circo ordinário, miserável, de lona suja, com uns animais maltratados. Mas, porra, é um circo. Um cirquinho amador.

Encostamos. Um pessoal nos olha curioso. Peço para falar com o dono. Ele aparece, fica todo cheio de delicadezas quando peço uma entrevista. Começamos a conversar no picadeiro.

O elenco do circo começa a chegar, curioso. A pedido do fotógrafo, quase todos saem e voltam caracterizados. Posam para fotos. O dono do circo conta, orgulhoso, que ali, numa sexta-feira por mês, se apresenta o Roberto Guilherme, o sargento Pincel dos Trapalhões. Todos falam e contam a própria história. A maioria nasceu no circo ou de alguma maneira fugiu de uma vida miserável. Nada inesperado.

O palhaço me olha de longe. É um tipo mulato, meio baixinho, magrelo, com os cabelos crespos. Por uns momentos me lembra a lenda de que os palhaços são tristes. De repente desaparece. Volta carregando uma caixa de sapatos. Peço para falar com ele. Se aproxima meio cauteloso. Diz que está no circo há mais ou menos um ano e meio. Antes era pedreiro. Acho a história meio fraca. Ele não é bom de conversa, diz pouca coisa. Já estou quase me despedindo quando pergunta:

– Você trabalha no Hoje, né?

– Trabalho.

– Deixa eu te mostrar uma coisa.

Abre a caixa de sapatos. Vasculha uns papéis até achar um recorte de jornal. É a matéria do meu primeiro dia de trabalho. “Soldados a serviço do Brasil” ainda prega a manchete mentirosa. Foi plastificada antes que o papel amarelasse de todo. O palhaço espera que eu examine o jornal e então, sem maldade, mas como se me enfiasse uma agulha no peito, diz:

– Era o meu pai.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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