Ora, o pênis

Edson, 41 anos, corretor de imóveis, acordou na hora habitual, pulou da cama e se dirigiu sonolento ao banheiro, esfregando o rosto para sentir o arranhar da barba crescida na palma da mão. Escovou os dentes, examinou o fundo dos olhos e, depois de defecar, quando se desnudava para o banho matinal, notou que não tinha mais o pênis.

A grande coleção de bonequinhos de Carmelo, 26, webdesigner, cobria toda a mesa no cubículo do escritório. Bonequinhos de filmes, de desenhos, de personagens de quadrinhos e também os que eram apenas tolamente infantis. Carmelo virava um por um na sua direção, transformando-os numa multidão reverente, quando percebeu, quase no final da arrumação, que se esquecera de Space Ghost. A miniatura, alheia à nova ordem, continuava de costas para as demais. Ao esticar o braço para movê-lo, sentiu ao mesmo tempo o vazio na parte da frente da calça. Apalpou cauteloso o local só para descobrir que estava sem o pênis.

José, 61, jornalista de amenidades, ajeitou a folha de papel na única máquina de escrever ainda em atividade na imprensa, já que nunca se acostumou com os computadores. Gosta de ouvir o tec-tec na ponta dos dedos e de sentir o odor da tinta vermelho-preta, o que faz aproximando o nariz da fita da máquina. Começou a datilografar e seu corpo, inquieto, virou-se várias vezes na cadeira, procurando posição Ao cruzar as pernas, como se tivesse sido sempre assim, se deu conta de que não havia nada no lugar do pênis.

Menestrel, 47, compositor de sambas-enredo, casado há 22, ouviu com paciência a admoestação da mulher, que não entende sua mania de comer pão sem carregar um prato para recolher os farelos. Deixou Marisa emburrada e afundada numa poltrona da sala, foi até o armário no quarto dos fundos e tirou da prateleira o ventilador quebrado que tentava consertar todas as vezes em que brigava com com a mulher. Lutava mais uma vez para fazer o motor funcionar, equilibrando-se em um banquinho de madeira pequeno demais para o seu corpo, quando sentiu um intenso calor no meio das pernas. Faltava-lhe agora o pênis.

Aureliano, 39, coveiro, cavou um buraco tão fundo que quase não conseguiu sair de dentro dele. Depois da escalada até o topo e ainda por cima de ter que voltar, pois esquecera a pá no fundo da cova, limpou o suor dos olhos e espantou um pouco da terra nas mãos. Acendendo um cigarro, conferiu satisfeito o resultado do trabalho. O imenso buraco era simetricamente retangular. Exalava um cheiro agradável de terra úmida como se tivesse recém-chovido. Uma rajada de vento refrescou a tarde de primavera e um formigamento intenso na região do baixo ventre veio anunciar que seu pênis estava quatro vezes maior.

About Alexandre Rodrigues

Alexandre Rodrigues não acredita no terceiro segredo de Fátima.
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One Response to Ora, o pênis

  1. Menezes says:

    O link do Conversar Furtadas tá duplicado. De resto: genial a cara nova!

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