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Efeméride

June 17, 2009 · Leave a Comment

Segunda-feira, 15 de junho de 2009, o dia em que Alexandre Rodrigues passou a ser proprietário de todos os livros de Kurt Vonnegut.

Barba Azul era o que faltava. Acontece de procurar muito um livro, desistir e, passado um tempo, uma hora pensar “é hoje” e ser mesmo. Com este, foram anos de espera.

As 42 páginas passadas até agora contam a história de Sirkis Karabekian, pintor armênio e impressionista abstrato, o que imediatamente remete a Rabo Karabekian, o pintor que faz um quadro com uma faixa  azul pintada no fundo branco e profere algumas frases sensacionais lá pelo fim de Café-de-manhã dos campeões. A piada que é o mercado de arte pagar milhões por quadros que às vezes foram feitos de brincadeira é a idéia.

Vonnegut em 1987 era tão mestre quanto em qualquer tempo em fazer piada com coisas tristes com a graça de uma criança. A maneira como a mãe de Karabekian, sobrevivente do massacre de armenos pelos turcos (a primeira vez em que foi usada a palavra genocídio), escapa para os EUA é possivelmente a mais dolorosa piada já escrita. Escondida no meio de cadáveres, fingindo-se de morta, ela vê que da boca aberta de uma mulher assassinada caem jóias. As mesmas jóias que pagam sua fuga da Turquia. Mas no Cairo, ela, mulher casada, não pode participar das negociações da compra de um terreno e um futuro nos Estados Unidos. Está sempre com as jóias escondidas em sua boca.

Chegado o livro em casa, quis registrar o momento. Santino, que observava a cena, fez questão de participar.

santino_vonnegut

A sensação não é muito diferente daquela de encontrar a figurinha difícil (será que crianças ainda fazem isso?) que faltava no álbum.

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O futuro é uma montanha de lixo*

June 14, 2009 · 4 Comments

Em 1976, uma greve de lixeiros tornou Londres uma cidade insuportável. Foi a mesma década em que a economia da Inglaterra decaiu, em que o governo já não não tinha mais dinheiro para bancar o Estado de bem estar social e uma série de greves teve como imagem mais marcante as montanhas de lixo acumulado nas ruas e esquinas. A podridão londrina foi o pano de fundo do surgimento do movimento punk, situação que Julian Temple não deixou passar em branco em O lixo e a fúria, sobre os Sex Pistols. Esta também foi a inspiração de 1985, um dos livros mais interessantes de Anthony Burgess.

Não é dos melhores dele. Dá para citar fácil cinco obras suas que são superiores. O que torna esse livro notável é sua pretensão. Burgess era arrogante. Um Himalaia de presunção. Tinha alma de hooligan, viajando pela Europa em seu dormobile para enfrentar os críticos em debates na TV onde quer que o convidassem. Por isso mesmo só ele poderia ter escrito 1985, um livro para desancar 1984, de George Orwell.

É praticamente impossível algo como 1985. Ataques a obras e autores são mais ou menos comuns no meio literário. Não é o mais interessante aqui. A questão é que em vez de apenas escrever um ensaio ou resenha dizendo o que achava de 1984, Burgess escolheu outro tipo de resposta: escrever ele mesmo como deveria ser o livro de Orwell.

Ele achava 1984 má ficção política e odiava o modo como o livro é celebrado – um manifesto libertário. Trata-se na real de uma história sobre a perda da capacidade de se apaixonar que, como profecia política, falhou completamente.

A primeira parte de 1985 é um ensaio sobre 1984 e outras obras futuristas, como Admirável mundo novo, de Huxley. Burgess amava distopias. Laranja Mecânica e Sementes Malditas são duas versões suas, tratando, respectivamente, da violência social e da ascensão dos gays. Este último é pouco conhecido e, fora a edição obscura que encontrei em um sebo, nunca mais vi à venda. Antes de Laranja Mecânica, foi o que me fez descobri-lo.

Voltando a 1984, o problema do livro de Orwell é a idéia de que o amor liberta. Claro que sim, mas não em qualquer circunstância. Não é algo realmente passável naquele contexto. E Orwell também produziu um livro bem pouco futurista na verdade. Reproduziu simplesmente a Londres de 1948, feia, sombria e arruinada pela guerra. Mas Londres logo deixou de ser assim. Em questão de anos o mundo de Orwell foi ultrapassado. Não é futurologia.

Na segunda parte, Burgess apresenta a própria versão de uma Inglaterra totalitária. A Londres de 1976, fedida e à beira do colapso, superado o cinismo da swinging London da década anterior, foi a idéia básica para a especulação sobre como seria se tudo aquilo ocorresse numa escala maior. Se todo aquele transtorno já era imposto aos londrinos, como seria se os sindicatos fossem o governo? O pano de fundo apresenta um elemento comum à obra de Burgess, o sujeito estigmatizado por não se enquadrar em um esquema.

Algum gerador de ironias históricas deve ter entrado em ação nesse ponto. A Londres que ele descreveu desapareceu rapidamente. Margareth Tatcher chegou ao poder no final da década. Enfrentou uma longa greve de mineiros cuja conseqüência foi o apoio da população às reformas liberais do governo que partiram a espinha do sindicalismo. Poucos anos depois da publicação, 1985 estava superado. No fim das contas, teve menos repercussão e importância do que 1984, que nunca deixou de ser celebrado .

Mas é infinitamente mais interessante.

* Publicado no antigo blog em 2007, reescrito agora.

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Música de sábado

June 13, 2009 · Leave a Comment

Pulp no programa Britpop Now – 1995.

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DFW infinito

June 13, 2009 · 1 Comment

O método de Wallace estava fundamentado na convicção de que a literatura deve se dirigir aos paradoxos e confusões do momento. Seu momento era era o capitalismo do fim do século na América, na qual, ele sabia, sua vida havia sido moldada com um genuíno senso de fraude e desespero. Isto foi especialmente verdadeiro para os jovens e cansados leitores de ficção, um grupo cujo agudo desconforto com sentido, emoção e valor Wallace considerava sintomático de uma ampla parcela na cultura. Ele observou como desprezamos a nós mesmo por sermos persuadidos pelas mesmas propagandas que parodiamos e ridicularizamos; como colocamos prazer no lugar de satisfação; como nossas realizações tendem a multiplicar nossa insatisfação. De todos que escreviam ficção nos aos 90, apenas Wallace falou diretamente conosco. Seus personagens, como seus leitores, são educados, fluentes, insatisfeitos e solitários. Arrastados ao ponto da catatonia, eles parecem incapazes incapazes de dizer o que significam.  Da mesma forma, a prosa de Wallace erra sobre e através do sentido como um motor soltando faíscas e tentando compensar alguma peça quebrada. Embora uma vez tenha afirmado que poderia “nunca conseguir ser claro e conciso”, ele queria, esta falha é a chave para a estranha personificação em sua ficção da educada psiquê americana – uma psiquê sufocada com jargão manipulativo e tagarelice autoconsciente.

Death is not the end, excelente texto sobre David Foster Wallace.

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Alvorada

June 7, 2009 · Leave a Comment

dormiu-no-taxi

Gabriel Pardal,  dono do Esquadro, faz de poucas palavras algumas boas imagens. Ele criou a intervenção aí em cima a partir deste post.

Valeu, Gabriel.

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Prefácio de uma simples célula

June 4, 2009 · Leave a Comment

“Amebas não deixam fósseis. Elas não têm ossos (nem dentes, nem fivelas de cinto, nem aliança de casamento). É impossível, consequentemente, determinar há quanto tempo as amebas estão na Terra.

Existe a possibilidade de que elas estejam aqui desde que a cortina se abriu. Talvez até elas tenham dominado a cena desde o primeiro ato. Por outro lado, elas podem ter começado a existir apenas três anos – ou três dias ou três minutos – antes de terem sido descobertas por Anton van Leeuwenhoek, em 1674. Isso não pode ser provado.

Uma coisa, porém, é certa: como as amebas se reproduzem por divisão, infinitamente, transmitindo tudo e não desistindo de nada, a primeira ameba que existiu ainda está viva. Seja há quatro bilhões de anos ou simplesmente há trezentos ele/ ela ainda está conosco hoje.

Onde?

Bem, a primeira ameba pode estar flutuando de costas em uma luxuosa piscina de Hollywood, Califórnia. Ou, quem sabe, escondida entre as raízes das tiráceas do fundo lamacento do lago Siwash. A primeira ameba pode ainda ter acabado de cair de sua perna. É inútil especular.

A primeira ameba, como a última ou a que virá depois desta, está aqui, lá e em todo lugar, pois seu veículo, seu meio, sua essência, é a água.

Água – ás dos elementos. Água que se larga das nuvens sem pára-quedas, asas ou rede de segurança. Água que se joga do mais íngreme precipício sem vacilar. Água que penetra na terra e surge novamente em sua superfície; água que atravessa o fogo, que a faz borbulhar. Estilisticamente composta em qualquer estado – sólido, líquido ou gasoso -, falando dialetos penetrantes compreendidos por todas as coisas – animal, vegetal ou mineral -, a água viaja intrepidamente através de quatro dimensões, mantendo (chute uma alface no campo e ela gritará “Água”), destruindo (o dedo do menino holandês lembrava a vista do Ararat) e criando (diz-se até que os seres humanos foram criados pela água para transportá-la de um lugar ao outro, mas isto já é outra história). Sempre em movimento, num fluxo constante (seja em ritmo de riacho ou em velocidade de geleira), rítmica, dinâmica, onipresente, transformando-se e elaborando suas transformações, uma matemática que mostra seus erros, uma filosofia às avessas, a sempre crescente odisséia de água é irresistível. E onde quer que a água esteja, a ameba aí estará.

Sissy Henkshaw uma vez ensinou um periquito a viajar pedindo carona. Isso ela não precisaria ensinar a uma ameba.

Por sua habilidade como passageira, assim como por sua quase perfeita resolução das tensões sexuais, a ameba (e não a velha garça gritona) é aqui proclamada como a mascote oficial de Até as vaqueiras ficam tristes.

E, à primeira ameba, onde quer que ela esteja, Até as vaqueiras ficam tristes gostaria de dizer: “Feliz aniversário. Feliz aniversário para você“.

(Tom Robbins – abertura de ATÉ AS VAQUEIRAS FICAM TRISTES, uma das melhores já escritas).

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June 1, 2009 · Leave a Comment

Terminado o jogo, os estudantes foram inquiridos sobre o que acontece a seguir em três histórias incompetas envolvendo um motorista e um ciclista que quase colidem por um triz; dois amigos, um dos quais nunca se desculpa, embora chegue repetidamente tarde; e a conversa de um cliente com o gerente de um restaurante depois de esperar por uma hora para ser servido e ainda ter sido salpicado de comida. Aqueles que jogaram “Lemmings” (um jogo violento) sugeriram finais nos quais os personagens das histórias exibiam significantemente  menos pensamentos agressivos, respostas e ações do que aqueles dos jogadores de “Tetris”.

Da Economist: videogames violentos podem tornar os jogadores mais sociáveis.

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O beijo

June 1, 2009 · Leave a Comment

Um beijo é um momento único, capaz de definir em um lampejo se os dois vão passar algum tempo juntos – ou pelo menos lembrar-se daqueles beijos. Danilo apaixonou-se pelo beijo de Célia por um motivo inverso. A falta de sincronia ficou clara desde a primeira tentativa. Suas línguas perdidas duelaram em contraste de estilos e ritmos. Ao final, se afastaram como dois lutadores cansados e derrotados. Desde então se tornou incapaz de beijá-la sem se sentir desafiado.

Seu tipo de beijo sempre fora lento e elaborado, repleto de detalhes. Começava com leves mordidas e grande atenção ao lábio inferior, passando a abranger, na segunda fase, uma breve apresentação de seu  repertório. Célia, movendo a língua freneticamente, beijava com desespero e nenhuma sutileza. Na primeira vez, espantou-o com dois golpes rápidos e violentos. Um beijo ávido. Sempre ávido. Eternamente ávido. Um beijo tão diverso do seu! Encantou-se. Fez questão do casamento para breve.

Depois de um ano, chegou à conclusão inversa. Odiava aquele beijo. Nada iria mudá-lo. Perdeu rapidamente a graça. Sentia-se torturado desde então. A infelicidade conjugal podia agüentar. Também o tédio. Mas um beijo! Um beijo ruim é demais.

Pensando a respeito no táxi: o que posso fazer? O trânsito trancado por causa do movimento da manhã. O táxi não tem ar condicionado. No rádio, um samba antigo do Agepê. Toca o celular. O nome de Célia em letras pequenas.

- Estou cega.

O trânsito demora a liberar. Uma ambulância atropelou um pedestre. A vítima fica estendida no chão com a perna quebrada, gemendo alto de dor ao receber atendimento. Fratura exposta. Motoristas que reduzem a velocidade para ver o acidente causam duas pequenas colisões, piorando ainda mais o engarrafamento. Uma sirene – da polícia – se aproxima. Por causa do barulho, fecha a janela para tentar ouvi-la melhor.

- Cega? Como?

- Não enxergo. Parei de enxergar. Cega.

- Tem alguma coisa errada?

- Não entendeu o que eu disse? Estou cega, meu filho. Não enxergo nada. É um negrume só.

Será um problema psicológico? A ligação cai. Enquanto aperta o botão de rediscagem, o trânsito libera à frente. O táxi avança junto com os outros carros. Em menos de dez minutos, aravessa a portaria do prédio dela.

- O que foi?

- Não enxergo, já disse.

- Como aconteceu?

- Uma hora enxergava normalmente. Na outra, estava assim. Cega.

- Por acaso bateu a cabeça?

- De jeito nenhum.

- Está com deficiência de vitaminas?

- Hmmm… acho que não.

- Será psicológico?

- Psicossomático.

- Hein?

- Doenças provocadas pela mente.

- Precisamos ver um médico.

- Não agora. Quero ficar aqui.

Na cozinha, móveis velhos e feios de fórmica azul. O apartamento inteiro tem a aparência de usado. Torneira parecendo ter cem anos. A pia enferrujada deixa vazar água. Chão de xadrez, quebrado em dois lugares. No início, gostava do apartamento, achou-o charmoso. Hoje preferia viver em um novo e ter móveis brancos.

Estão sentados no chão. Abraçando-a, ele a carrega até o sofá da sala. Dão-se as mãos. Ela se aninha em seu peito, fazendo-o estremecer. Perto de seu tamanho, é pequena. Abriga-a. Pensa: muito daquilo pode agüentar. Ser enfermeiro pelo resto da vida. Todos os luares que não vai conhecer. Pelo menos ela não o verá envelhecer. Será jovem para sempre.

- Como vamos ficar?

- Nada vai mudar – ele responde.

- Nem nós?

- Nada.

- E o médico?

- Podemos ficar aqui mais um pouco.

Quando seus corpos estão colados, ela ergue o rosto para que a beije. Devagar, como se resto do mundo continuasse sendo o resto do mundo, mas eles se movessem como algo extremamente rápido, como o bater das asas de um beija-flor, a cena transcorre quase em câmera lenta. Os lábios se tocam. Esquece toda a hesitação. Toma-o um sentimento de deliberada confiança.  Um beijo não é a simples preparação de um ato erótico. É o sexo em si mesmo – a fusão de dois corpos pelos lábios.

Pálido, levanta-se em seguida. Ela fica no mesmo lugar. Olha-acom tristeza antes de bater a porta atrás de si.

O último beijo é um momento ainda mais intenso e particular, mesmo se o fim é do conhecimento de apenas uma parte. É a breve lembrança de que a impossibilidade não é tudo e um instante pode durar muito mais tempo do que o convencional. Sem um beijo perfeito, algo está faltando. Se acontecer, ninguém pode dizer que aquele não é um momento só seu.

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Bikini girls with machine guns

May 29, 2009 · Leave a Comment

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Homem e máquina

May 28, 2009 · 1 Comment

typewriter

Li que Will Self ainda usa máquina de escrever.

Escrever à máquina – ele diz – impõe maior reflexão no trabalho. Sem a facilidade de reescrever infinitamente o mesmo texto no computador, costuma pensar mais a respeito antes de escrever. Se deixar para fazer muitas revisões, perderá muito tempo, precisará reescrever páginas inteiras, até a parte na qual não queria mexer.

Acredita: o texto nasce mais elaborado do que no computador sem, no entanto, perder a essência original da idéia, algo que ocorre facilmente com sucessivas reescritas.

Senti algo assim desde que comecei a escrever à mão. Com tendinite, não conseguia ficar mais de meia hora no computador sem dores. A solução foi comprar um caderno de estudante americano e começar a fazer anotações. Fazia quase só esboços no início. Hoje sou capaz de escrever textos mais longos. Um dos contos do livro, inspirado nesse post, foi escrito inteiro à mão em um café do Bom Fim. O livro foi uns 80% escrito primeiro nessa pilha de cadernos que agora guardo em casa.

Escrever à mão é um processo lento. O computador funciona para registrar idéias que surgem rapidamente. Escrevendo à mão, é impossível acelerar o processo sem transformar o texto numa espécie de taquigrafia ou acabar na situação bizarra de não reconhecer minha própria letra – situação comum. Acabo pensando muito mais antes de escrever e prestando muito mais atenção no que estou fazendo.

Paul Auster também escreve à mão. Numa entrevista quando veio para a Flip, disse que leva um ano e meio planejando o livro, criando personagens, e só começa a escrever quando todas as situações estão resolvidas. Ainda assim prefere escrever primeiro em um caderno, passando mais tarde o livro para o computador.

Woody Allen deita-se na cama com um bloco tamanho grande e rabisca um esboço completo do roteiro. No fim, leva duas semanas para digitar tudo

Charles Bukowski, em seu último livro, dizia o contrário. Como o computador havia eliminado horas de revisão, tornando sua escrita menos preguiçosa.

O que no fim me leva a pensar no diálogo entre Kerouac e Ginsberg em Almoço nu, versão David Cronenberg. Kerouac defende que a escrita é fruto da pura inspiração e se um texto é refeito demais, acaba maculando-a. Nada – ele acrescenta – é mais verdadeiro do que a voz original.

Ginsberg acha que não. Cada palavra e vírgula só devem estar ali porque precisam estar. O único desfecho é a certeza absoluta.

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Então você escreveu um livro…

May 27, 2009 · Leave a Comment

Chama-se “Veja se você responde a essa pergunta”. Será lançado em julho pela Não Editora.

Resisti o quanto pude a escrever um livro de contos – início de um monte de gente aqui no RS. Não queria partir de um simples apanhado, mas de uma idéia básica.  Esta passou a ser a “coletânea” publicada na Bielorússia em 2006. Mas o problema é que a liberdade que dei à Tatiana, que os traduziu, me impunha problemas. Os contos em bielorusso quase todos foram escritos entre 2002 e 2004, estavam distantes do que queria fazer agora.

A solução foi escrever quase um livro inteiro e que, se não contava com uma temática comum, devia ter uma unidade própria. Foram doze meses escrevendo e – enlouquecidamente – reescrevendo até o ponto em que achava que não ia mais conseguir só para esperar algumas semanas e reescrever mais um pouco.

Sou um obcecado, os mais chegados sabem. O livro acabou sendo sobre isso: obsessão. E matemática. Cheio de pequenos truques que exploram o cruzamento destas duas facetas.

No momento, acompanho com extremo prazer todo o processo de edição, escolha de capas, etc, no pré-lançamento. É bem divertido.

Vai se falar mais do livro aqui nas próximas semanas.

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Por falar na Não, autores da editora foram entrevistados pelo blog Mundo Livro. Boa parte do pessoal também está numa matéria do Segundo Caderno de Zero Hora de hoje sobre a geração (nascida nos) anos 80.

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Ainda a escola x leitura

May 27, 2009 · 1 Comment

Um colégio de Caxias todos os anos indicava para a leitura dos alunos, fora os clássicos, apenas livros de autores de uma só editora. Todo início de ano rolava uma Feira do Livro, com presença de alguns autores, e desta se montava a grade de leituras. Pela metade dos anos 90, no dito colégio, caro e no qual estuda parte da elite da cidade,  o elenco da tal editora dominava as leituras de literatura gaúcha ou contemporânea. Apenas uma professora não aceitava a escolha e oferecia aos alunos uma lista de opções.

É óbvio que o colégio levou alguma vantagem para dar exclusividade à tal editora. Os autores talvez nem soubessem o que se passava, mas de alguma forma foram beneficiados. O esquema causou dano a quem foi obrigado a ler os tais livros – os alunos. Não causaria se fossem realmente bons – o que não são. Mas mesmo que fossem, não há melhores ou mais fundamentais?

A discussão sobre as leituras na escola começa a ficar complexa.

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No post de ontem acabei cometendo uma injustiça ao não anotar a correta posição do Carlos André a respeito da importância da leitura começar em casa. Ele chama atenção hoje em novo post para o fato de que, sim, concordamos: se não houver estímulo em casa o sujeito chega à escola quase um caso perdido.

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Voltando aos livro, dois foram fundamentais para gostar de ler. Ainda não perderam nada daquilo que me fez gostar tanto deles quando era criança. O Gênio do crime provocou furor na minha turma de quinta série. Passou de mão em mão o único exemplar do colégio até ficar totalmente imprestável.  Não preciso olhar o Google para me lembrar que o detetive se chama John Smith Peter Tony e que o segredo para seguir alguém sem ser notado é fazê-lo de trás para a frente.

O segundo li aos 12. Estava com caxumba, sem sair de casa. De alguma maneira a minha vida de suburbano, com irracionais antipatias pelos moradores de todas as ruas próximas (embora apenas em parte do tempo, pois era amigo deles no colégio), apego quase patriótico ào matagal atrás de nossas casas, assim como às cavernas da imensa pedra  da Igreja da Penha (meu quintal) e a amizade hierárquica com os vizinhos (criamos um “exército” que durou anos, com patentes baseadas em nossas alturas – eu era capitão) tinha um correspondente na Budapeste do início do século XX. Aqueles garotos esquisitos que roubavam a massa dos vidros das janelas para mascar e passam quase a história inteira se preparando para resolver na porrada a posse de um terreno são responsáveis por hoje ainda saber pronunciar todos os nomes húngaros dos personagens. Dali em diante não teve mais volta. O livro é esse aqui.

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