Nunca tinha ouvido falar de Sophie Calle até um mês e pouco atrás, quando vi que estava na programação da Flip. Desde então ouvi falar muito dela e também de seu ex-namorado, o escritor francês Gregoire Bouillier.
Resumindo: Sophie e Bouillier namoraram alguns meses. Ao terminar o relacionamento, ele foi deselegante: não o fez pessoalmente, mas enviou um e-mail. Sophie, em Paraty, disse não ter compreendido bem o que ele queria dizer. Em vez de simplesmente dar um reply no e-mail e perguntar, resolveu pedir que 107 mulheres de 107 diferentes profissões interpretassem o texto. O resultado é a exposição “Cuide de você“, frase final do e-mail, que estreou no fim de semana em São Paulo.
Bouillier por sua vez escreveu um romance, “O convidado-surpresa”, para dar sua versão dos fatos. Também esteve em Paraty e participou de uma mesa-redonda com Sophie. Assumiu em público o papel de namorado malvado.
Aí começa o grande problema nessa história. O ex-romance de ambos parece bastar por si só para justificar o interesse por suas obras. O amor é mesmo pop. Mas não li uma só palavra de avaliação realmente crítica sobre ambas. É um bom livro? A exposição justifica o interesse?
Sophie – chamada de Marcel Duchamp da roupa suja emocional pela crítica inglesa – diz não expor sua intimidade, mas jamais deixou de colocar o drama pessoal em primeiro plano. É um diário ou um blog, sim, Sophie. Bouillier não fez muito diferente. Ambos conseguiram não só muita propaganda – o que não tem nada demais – como – aí sim o problema – impor limites a um consumo crítico do que produziram. Impossível esperar que o público não ceda ao voyerismo.
É justamente o contrário da lição na primeira parte do filme “Storytelling”, de Todd Solondz. Entre as alunas de uma oficina literária, uma se encanta com o professor, apesar da presença na aula também do namorado, deficiente. Ela acaba cedendo e numa noite vai ao apartamento do professor, um escritor de meia idade. Terminado o coito, no banheiro, descobre , encontrando fotos, que todas as outras alunas passaram por ali. Escreve, enojada, um conto a respeito, que lê na aula. O professor friamente analisa o conto do ponto de vista da literatura, nada mais. Então ela berra: “É tudo verdade”. O professor rebate: “Quando você começa a escrever, TUDO se torna ficção”.
Comparando com o post de sábado, é como se resolvesse pegar minha história pessoal, escrever um romance e antes de lançá-lo pregar aos quatro ventos: aconteceu comigo. Ok, todo escritor escreve sobre si mesmo, mas é injusto trapacear o leitor/público desta maneira em busca de empatia gratuita. Sophie e Bouillier não tiveram o mesmo pudor. Pode até ser uma boa exposição. Pode ser um bom livro. Mas no fundo não passam de dois oportunistas.



