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Entries categorized as ‘literatura’

A arte(?) de falar de si mesmo

July 13, 2009 · 3 Comments

Nunca tinha ouvido falar de Sophie Calle até um mês e pouco atrás, quando vi que estava na programação da Flip. Desde então ouvi falar muito dela e também de seu ex-namorado, o escritor francês Gregoire Bouillier.

Resumindo: Sophie e Bouillier namoraram alguns meses. Ao terminar o relacionamento, ele foi deselegante: não o fez pessoalmente, mas enviou um e-mail. Sophie, em Paraty, disse não ter compreendido bem o que ele queria dizer. Em vez de simplesmente dar um reply no e-mail e perguntar, resolveu pedir que 107 mulheres de 107 diferentes profissões interpretassem o texto. O resultado é a exposição “Cuide de você“, frase final do e-mail, que estreou no fim de semana em São Paulo.

Bouillier por sua vez escreveu um romance, “O convidado-surpresa”, para dar sua versão dos fatos. Também esteve em Paraty e participou de uma mesa-redonda com Sophie. Assumiu em público o papel de namorado malvado.

Aí começa o grande problema nessa história. O ex-romance de ambos parece bastar por si só para justificar o interesse por suas obras. O amor é mesmo pop. Mas não li uma só palavra de avaliação realmente crítica sobre ambas. É um bom livro? A exposição justifica o interesse?

Sophie – chamada de Marcel Duchamp da roupa suja emocional pela crítica inglesa –  diz não expor sua intimidade, mas jamais deixou de colocar o drama pessoal em primeiro plano. É um diário ou um blog, sim, Sophie. Bouillier não fez muito diferente. Ambos conseguiram não só muita propaganda – o que não tem nada demais – como – aí sim o problema – impor limites a um consumo crítico do que produziram.  Impossível esperar que o público não ceda ao voyerismo.

É justamente o contrário da lição na primeira parte do filme “Storytelling”, de Todd Solondz. Entre as alunas de uma oficina literária, uma se encanta com o professor, apesar da presença na aula também do namorado, deficiente. Ela acaba cedendo e numa noite vai ao apartamento do professor, um escritor de meia idade. Terminado o coito, no banheiro, descobre , encontrando fotos, que todas as outras alunas passaram por ali. Escreve, enojada, um conto a respeito, que lê na aula. O professor friamente analisa o conto do ponto de vista da literatura, nada mais. Então ela berra: “É tudo verdade”. O professor rebate: “Quando você começa a escrever, TUDO se torna ficção”.

Comparando com o post de sábado, é como se resolvesse pegar minha história pessoal, escrever um romance e antes de lançá-lo pregar aos quatro ventos: aconteceu comigo. Ok, todo escritor escreve sobre si mesmo, mas é injusto trapacear o leitor/público desta maneira em busca de empatia gratuita. Sophie e Bouillier não tiveram o mesmo pudor. Pode até ser uma boa exposição. Pode ser um bom livro. Mas no fundo não passam de dois oportunistas.

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Do que você tem medo?

July 8, 2009 · 1 Comment

No escritório em que trabalho há cinco pessoas das quais tenho medo. Cada uma dessas cinco pessoas tem medo de quatro pessoas (excluindo-se as superposições), dando um total de 20. Cada uma dessas 20 pessoas tem medo de seis pessoas, perfazendo um total de 120 pessoas que são temidas pelo menos por uma pessoa. Cada uma dessas 120 pessoas tem medo de outras 119 e todas as 145 têm medo dos 12 homens que estão no topo, que ajudaram a fundar e desenvolver a companhia e agora a possuem e a dirigem.

(…)

Aliás, quase todo mundo na companhia tem medo de quase todo mundo na companhia.

(…)

No curso normal de um dia de trabalho, tenho medo de Green e Green tem medo de mim. Tenho medo de Jack Green porque meu departamento faz parte do dele e Jack Green é meu chefe. Green tem medo de mim porque a maior parte do trabalho do meu departamento é realizada para o Departamento de Vendas, que é mais importante do que o seu departamento.

(…)

No meu departamento há seis pessoas que têm medo de mim e uma secretária que tem medo de todos nós. Há uma pessoa que trabalha para mim e que não tem medo de ninguém, nem mesmo de mim. Eu a despediria sem qualquer hesitação se não tivesse medo dela.

(JOSEPH HELLER – Alguma coisa mudou).

Absolutamente genial.

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A mais longa história de todas

June 18, 2009 · 2 Comments

A história, impressa na capa da revista Opium, tem nove palavras. Mas graças ao processo de impressão, uma dupla camada de tinta, exposta à luz ultravioleta cada palavra só vai se revelar mais ou menos a cada cem anos.

Por volta de 3009, se um exemplar ainda restar, se um curioso ainda existir a respeito, finalmente poderá ser lido inteiro o conto  “The longest story ever”, de Jonathon Keats, que não é escritor, mas artista conceitual.

O que me leva a imaginar nove palavras que possam ser lidas como algo digno de se ler, não apenas uma curiosidade,  algo mil anos no futuro. Eu escreveria o seguinte:

Desculpe, mas continuamos fazendo as coisas do jeito errado.

Categories: literatura

DFW infinito

June 13, 2009 · 1 Comment

O método de Wallace estava fundamentado na convicção de que a literatura deve se dirigir aos paradoxos e confusões do momento. Seu momento era era o capitalismo do fim do século na América, na qual, ele sabia, sua vida havia sido moldada com um genuíno senso de fraude e desespero. Isto foi especialmente verdadeiro para os jovens e cansados leitores de ficção, um grupo cujo agudo desconforto com sentido, emoção e valor Wallace considerava sintomático de uma ampla parcela na cultura. Ele observou como desprezamos a nós mesmo por sermos persuadidos pelas mesmas propagandas que parodiamos e ridicularizamos; como colocamos prazer no lugar de satisfação; como nossas realizações tendem a multiplicar nossa insatisfação. De todos que escreviam ficção nos aos 90, apenas Wallace falou diretamente conosco. Seus personagens, como seus leitores, são educados, fluentes, insatisfeitos e solitários. Arrastados ao ponto da catatonia, eles parecem incapazes incapazes de dizer o que significam.  Da mesma forma, a prosa de Wallace erra sobre e através do sentido como um motor soltando faíscas e tentando compensar alguma peça quebrada. Embora uma vez tenha afirmado que poderia “nunca conseguir ser claro e conciso”, ele queria, esta falha é a chave para a estranha personificação em sua ficção da educada psiquê americana – uma psiquê sufocada com jargão manipulativo e tagarelice autoconsciente.

Death is not the end, excelente texto sobre David Foster Wallace.

Categories: literatura

Então você escreveu um livro…

May 27, 2009 · Leave a Comment

Chama-se “Veja se você responde a essa pergunta”. Será lançado em julho pela Não Editora.

Resisti o quanto pude a escrever um livro de contos – início de um monte de gente aqui no RS. Não queria partir de um simples apanhado, mas de uma idéia básica.  Esta passou a ser a “coletânea” publicada na Bielorússia em 2006. Mas o problema é que a liberdade que dei à Tatiana, que os traduziu, me impunha problemas. Os contos em bielorusso quase todos foram escritos entre 2002 e 2004, estavam distantes do que queria fazer agora.

A solução foi escrever quase um livro inteiro e que, se não contava com uma temática comum, devia ter uma unidade própria. Foram doze meses escrevendo e – enlouquecidamente – reescrevendo até o ponto em que achava que não ia mais conseguir só para esperar algumas semanas e reescrever mais um pouco.

Sou um obcecado, os mais chegados sabem. O livro acabou sendo sobre isso: obsessão. E matemática. Cheio de pequenos truques que exploram o cruzamento destas duas facetas.

No momento, acompanho com extremo prazer todo o processo de edição, escolha de capas, etc, no pré-lançamento. É bem divertido.

Vai se falar mais do livro aqui nas próximas semanas.

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Por falar na Não, autores da editora foram entrevistados pelo blog Mundo Livro. Boa parte do pessoal também está numa matéria do Segundo Caderno de Zero Hora de hoje sobre a geração (nascida nos) anos 80.

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Ainda a escola x leitura

May 27, 2009 · 1 Comment

Um colégio de Caxias todos os anos indicava para a leitura dos alunos, fora os clássicos, apenas livros de autores de uma só editora. Todo início de ano rolava uma Feira do Livro, com presença de alguns autores, e desta se montava a grade de leituras. Pela metade dos anos 90, no dito colégio, caro e no qual estuda parte da elite da cidade,  o elenco da tal editora dominava as leituras de literatura gaúcha ou contemporânea. Apenas uma professora não aceitava a escolha e oferecia aos alunos uma lista de opções.

É óbvio que o colégio levou alguma vantagem para dar exclusividade à tal editora. Os autores talvez nem soubessem o que se passava, mas de alguma forma foram beneficiados. O esquema causou dano a quem foi obrigado a ler os tais livros – os alunos. Não causaria se fossem realmente bons – o que não são. Mas mesmo que fossem, não há melhores ou mais fundamentais?

A discussão sobre as leituras na escola começa a ficar complexa.

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No post de ontem acabei cometendo uma injustiça ao não anotar a correta posição do Carlos André a respeito da importância da leitura começar em casa. Ele chama atenção hoje em novo post para o fato de que, sim, concordamos: se não houver estímulo em casa o sujeito chega à escola quase um caso perdido.

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Voltando aos livro, dois foram fundamentais para gostar de ler. Ainda não perderam nada daquilo que me fez gostar tanto deles quando era criança. O Gênio do crime provocou furor na minha turma de quinta série. Passou de mão em mão o único exemplar do colégio até ficar totalmente imprestável.  Não preciso olhar o Google para me lembrar que o detetive se chama John Smith Peter Tony e que o segredo para seguir alguém sem ser notado é fazê-lo de trás para a frente.

O segundo li aos 12. Estava com caxumba, sem sair de casa. De alguma maneira a minha vida de suburbano, com irracionais antipatias pelos moradores de todas as ruas próximas (embora apenas em parte do tempo, pois era amigo deles no colégio), apego quase patriótico ào matagal atrás de nossas casas, assim como às cavernas da imensa pedra  da Igreja da Penha (meu quintal) e a amizade hierárquica com os vizinhos (criamos um “exército” que durou anos, com patentes baseadas em nossas alturas – eu era capitão) tinha um correspondente na Budapeste do início do século XX. Aqueles garotos esquisitos que roubavam a massa dos vidros das janelas para mascar e passam quase a história inteira se preparando para resolver na porrada a posse de um terreno são responsáveis por hoje ainda saber pronunciar todos os nomes húngaros dos personagens. Dali em diante não teve mais volta. O livro é esse aqui.

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O longo adeus

May 25, 2009 · Leave a Comment

Editores e autores por séculos conspiraram e lutaram por palavras, sentenças, capítulos, fontes, ilustrações, papel, diagramação,  material,  contracapa. Decisões de publicação fizeram uma importante diferença na literatura a cada século. Uma lógica editorial está por trás do desejo de Descartes de que o Discurso sobre o Método tivesse um formato inusualmente pequeno. O editor de A Cartuxa de Parma queria publicá-la rapidamente e necessitava que não tivesse muitas páginas. Stendhal concordou em reduzir o final  (uma falha notada por Balzac). G.B. Shaw insistiu em um tipo específico (”Ficarei com Caslon até morrer”, ele disse, sendo Caslon a mesma fonte que Benjamin Franklin usou na Declaração de Independência – dos Estados Unidos). Edmund Wilson, numa ordem incomum. John Updike, em todos os aspectos físicos de seus livros.  Se você fala da morte dos livros, você está falando da extinção de uma cultura comum de escolha, correção, revisão e apresentação. Se você fala do futuro dos livros, deve de alguma maneira antecipar como isso deve continuar.

(The Long Goodbye –   The Book Business and its Woes)

Categories: literatura

Cento e quarenta vezes

May 15, 2009 · Leave a Comment

Enquanto escrevia “As cuecas do senhor Epaminondas estão sujas”, um olho surgiu no dorso de minha mão esquerda. Acho que tinha terçol.

Fiz um twitter só de ficção. A idéia é escrever 140 posts – se as idéias durarem tanto – e acabar. Mas para não acabar antes este é um projeto aberto. Quem quiser publicar junto, mande colaborações.

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James Joyce

May 13, 2009 · Leave a Comment

Homem anda por Dublin. Nós seguimos em detalhe cada minuto do seu dia. Ele provavelmente twitta demais.

(Ulysses via Twitter)

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Sexo e acidentes de carro

April 22, 2009 · 1 Comment

Em 1970, alguém do New Arts Laboratory, em Londres, me contactou para perguntar se eu gostaria de expor algo lá. Me ocorreu que poderia testar minha hipótese sobre os links inconscientes entre sexo e acidentes de carro. O Arts Lab me ofereceu a galeria por um mês. Eu dirigi por ferros-velhos no norte de Londres e paguei para que três carros, inclusive um Pontiac, fossem entregues na galeria.

Os carros foram expostos sem nenhum material gráfico de apoio, como se fossem grandes peças de escultura. Uma pessoa da TV, entusiasta do Arts Lab, ofereceu-me uma câmera e monitores nos quais os convidados  podiam ver a si mesmos enquanto passeavam em volta. Eu sugeri que ele contratasse uma jovem para entrevistar o público a respeito de suas reações. Contactada por telefone, ele aceitou fazer o trabalho nua, mas quando ela viu os carros acidentados, me disse que só aceitava topless – uma resposta significativa, senti no mesmo momento.

Eu nunca vi os convidados de uma galeria ficarem bêbados tão rápido. Havia uma grande tensão no ar, como se alguém se sentisse ameaçado por um alarme interno que começou a soar. Ninguém teria notado os carros se estivessem estacionados na rua, mas sob as luzes invariáveis da galeria estes veículos danificados pareciam provocar e perturbar. Vinho foi espalhado sobre os carros, janelas foram quebradas, a garota de topless quase foi estuprada no banco de trás do Pontiac (foi o que ela alegou) (…). Uma jornalista do New Society começou a me entrevistar sobre o caos, mas estava tão agitada pela indignação, da qual o jornal tinha um suprimento inesgotável, que se restringiu a me atacar.

Durante o mês os carros foram incessantemente atacados, manchados com tinta branca por um grupo hare kishna e dilapidados para roubo de espelhos e placas. Quando foram rebocados,  sem pesar, tinham sido confirmadas todas as minhas suspeitas a respeito das ligações inconscientes que minha novela podia explorar.

JG Ballard, que morreu no domingo, explica de onde vieram das idéias de Crash.

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Murilo Franz Rubião Kafka

March 22, 2009 · Leave a Comment

Sempre aceitei a literatura como uma maldição. Poucos momentos de satisfação ela me deu. Somente quando estou criando uma história sinto prazer. Depois é essa tremenda luta com a palavra, é revirar o texto, elaborar e reelaborar, ir para a frente, voltar. Rasgar.

Achei uma estranha entrevista com Murilo Rubião – não tem perguntas, só  respostas – no prefácio de O pirotécnico Zacarias. Ao contrário do que esperava, mesmo que o livro tenha vendido mais de 100 mil exemplares nos anos 70, é extremamente difícil de achar. Tem apenas 50 páginas e dez contos.

Ele conta ter ouvido falar de Kafka pela primeira vez apenas quando o primeiro livro já estava escrito. Não nega a semelhança e acha que o tcheco, como ele, foi influenciado pelo Velho Testamento.

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E agora algo completamente diferente

March 21, 2009 · 1 Comment

Por que nas livrarias Cortázar está sempre na prateleira de autores brasileiros?

Categories: literatura