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O beijo

June 1, 2009 · Leave a Comment

Um beijo é um momento único, capaz de definir em um lampejo se os dois vão passar algum tempo juntos – ou pelo menos lembrar-se daqueles beijos. Danilo apaixonou-se pelo beijo de Célia por um motivo inverso. A falta de sincronia ficou clara desde a primeira tentativa. Suas línguas perdidas duelaram em contraste de estilos e ritmos. Ao final, se afastaram como dois lutadores cansados e derrotados. Desde então se tornou incapaz de beijá-la sem se sentir desafiado.

Seu tipo de beijo sempre fora lento e elaborado, repleto de detalhes. Começava com leves mordidas e grande atenção ao lábio inferior, passando a abranger, na segunda fase, uma breve apresentação de seu  repertório. Célia, movendo a língua freneticamente, beijava com desespero e nenhuma sutileza. Na primeira vez, espantou-o com dois golpes rápidos e violentos. Um beijo ávido. Sempre ávido. Eternamente ávido. Um beijo tão diverso do seu! Encantou-se. Fez questão do casamento para breve.

Depois de um ano, chegou à conclusão inversa. Odiava aquele beijo. Nada iria mudá-lo. Perdeu rapidamente a graça. Sentia-se torturado desde então. A infelicidade conjugal podia agüentar. Também o tédio. Mas um beijo! Um beijo ruim é demais.

Pensando a respeito no táxi: o que posso fazer? O trânsito trancado por causa do movimento da manhã. O táxi não tem ar condicionado. No rádio, um samba antigo do Agepê. Toca o celular. O nome de Célia em letras pequenas.

- Estou cega.

O trânsito demora a liberar. Uma ambulância atropelou um pedestre. A vítima fica estendida no chão com a perna quebrada, gemendo alto de dor ao receber atendimento. Fratura exposta. Motoristas que reduzem a velocidade para ver o acidente causam duas pequenas colisões, piorando ainda mais o engarrafamento. Uma sirene – da polícia – se aproxima. Por causa do barulho, fecha a janela para tentar ouvi-la melhor.

- Cega? Como?

- Não enxergo. Parei de enxergar. Cega.

- Tem alguma coisa errada?

- Não entendeu o que eu disse? Estou cega, meu filho. Não enxergo nada. É um negrume só.

Será um problema psicológico? A ligação cai. Enquanto aperta o botão de rediscagem, o trânsito libera à frente. O táxi avança junto com os outros carros. Em menos de dez minutos, aravessa a portaria do prédio dela.

- O que foi?

- Não enxergo, já disse.

- Como aconteceu?

- Uma hora enxergava normalmente. Na outra, estava assim. Cega.

- Por acaso bateu a cabeça?

- De jeito nenhum.

- Está com deficiência de vitaminas?

- Hmmm… acho que não.

- Será psicológico?

- Psicossomático.

- Hein?

- Doenças provocadas pela mente.

- Precisamos ver um médico.

- Não agora. Quero ficar aqui.

Na cozinha, móveis velhos e feios de fórmica azul. O apartamento inteiro tem a aparência de usado. Torneira parecendo ter cem anos. A pia enferrujada deixa vazar água. Chão de xadrez, quebrado em dois lugares. No início, gostava do apartamento, achou-o charmoso. Hoje preferia viver em um novo e ter móveis brancos.

Estão sentados no chão. Abraçando-a, ele a carrega até o sofá da sala. Dão-se as mãos. Ela se aninha em seu peito, fazendo-o estremecer. Perto de seu tamanho, é pequena. Abriga-a. Pensa: muito daquilo pode agüentar. Ser enfermeiro pelo resto da vida. Todos os luares que não vai conhecer. Pelo menos ela não o verá envelhecer. Será jovem para sempre.

- Como vamos ficar?

- Nada vai mudar – ele responde.

- Nem nós?

- Nada.

- E o médico?

- Podemos ficar aqui mais um pouco.

Quando seus corpos estão colados, ela ergue o rosto para que a beije. Devagar, como se resto do mundo continuasse sendo o resto do mundo, mas eles se movessem como algo extremamente rápido, como o bater das asas de um beija-flor, a cena transcorre quase em câmera lenta. Os lábios se tocam. Esquece toda a hesitação. Toma-o um sentimento de deliberada confiança.  Um beijo não é a simples preparação de um ato erótico. É o sexo em si mesmo – a fusão de dois corpos pelos lábios.

Pálido, levanta-se em seguida. Ela fica no mesmo lugar. Olha-acom tristeza antes de bater a porta atrás de si.

O último beijo é um momento ainda mais intenso e particular, mesmo se o fim é do conhecimento de apenas uma parte. É a breve lembrança de que a impossibilidade não é tudo e um instante pode durar muito mais tempo do que o convencional. Sem um beijo perfeito, algo está faltando. Se acontecer, ninguém pode dizer que aquele não é um momento só seu.

Categories: Conto

Sob a luz da Física

May 20, 2009 · 2 Comments

(estava) Dormiu no táxi. (em) Acordou em Alvorada. (constante) Matou o taxista. (movimento) Fugiu feliz.

(140 vezes)

Categories: Conto

Mickey Mouse

January 28, 2009 · 1 Comment

Uma onda de calor raramente é um enigma insoldável. Pode ser descrita com as palavras certas pelos sábios ou por qualquer um. Pode, por exemplo, ser associada a reações entre a temperatura da luz do sol e as variações do deslocamento de ar, como fazem os meteorologistas. Pode ser traduzida na imagem de dezenas de gotículas na testa de um homem careca ou penduradas no emaranhado de pêlos grisalhos da barba de um motorista que no meio da tarde se abana com a janela aberta, pois o táxi não tem ar condicionado. E prestar-se a uma dezena de interjeições, ofensivas ou não. Pode, se você é mulher, atingida no âmago de sua dignidade, fazê-la sentir-se realmente desconfortável quando percebe que começou a suar e o tecido da blusa está colado à pele logo abaixo do sutiã. Ressentida com a situação de ter entrado justo naquele táxi em um dia que já não estava sendo dos melhores, no banco de trás, ao avistar Lucas na rua, sua sensação foi de ter encontrado uma nova razão para viver. Com vontade de berrar alegremente um palavrão, mandou o motorista parar.

Cruzou a rua com o sinal ainda aberto para pedestres, mas piscando no verde, e, devagar, se aproximou por trás dele, disposta a surpreendê-lo. Lucas, desde que o avistou, continuou no mesmo lugar, no meio da calçada. Tendo de se desviar dele, as outras pessoas respondiam com olhares hostis, dos quais não aparentava se dar conta.

Olhava a vitrine de um antiquário de brinquedos. Um ferrorama, aparentemente em ótimas condições, percorria o outro lado da vitrine, circulando um aglomerado de bonecas de porcelana, bonecas normais, caixas maltratadas de jogos de salão e réplicas de personagens de desenhos animados, como se bonecos e jogos fora de moda fossem uma paisagem aceitável.

Lucas não prestava atenção nos brinquedos. O olhar estava em um cordão metálico de mais ou menos um metro e meio esticado entre as duas paredes laterais. Cada ponta fora firmemente amarrada a ganchos e um boneco de Mickey Mouse sentado numa bicicleta, também preso à parede para ficar no mesmo lugar, se equilibrava no Cordão. Libertado, se tudo desse certo devia correr de uma ponta a outra, pedalando a bicicleta.

Chamou-o duas vezes pelo nome, sem resultado. Ao agarrá-lo pelos braços, deu a impressão de ser percorrido por um choque elétrico, o que a fez recuar. Com um olhar de surpresa e pânico, Lucas estava a ponto de chorar.

Se conheceram cinco anos e meio antes. No primeiro ano foram apenas colegas, primeiro, e depois amigos de trabalho. O namoro só começou quando já estava fora da empresa, a noite em que se encontraram por acaso numa festa. No terceiro ano, surpreenderam aos amigos e conhecidos ao se casar, com outros passageiros como únicas testemunhas, em um cruzeiro pelo Nordeste. A intimidade e a confiança, absolutas, explicam a facilidade com que o conduziu feito a uma criança a um café próximo. Nas primeiras duas xícaras ainda lutou para se recuperar. Pálido, permaneceu em silêncio. Logo que se viu de novo no controle, porém, se pôs a falar efusivamente sobre vários assuntos e sobre todos os conhecidos de quem conseguiu se lembrar. Uma tentativa tão aberta de manter-se fora da pauta de discussões que ela, comovida com seu momento de fraqueza e conhecendo-o tão bem, aceitou entrar no jogo. Terminou de beber o café e, fazendo uma careta, não voltou à cena de antes. Agarrou o primeiro assunto e logo depois e pelos minutos seguintes, com surpreendente veemência, expôs suas opiniões sobre o Oriente Médio.

Na semana seguinte, precisou voltar novamente ao centro. Em outro táxi, desta vez com ar condicionado, passando rapidamente pelo mesmo local, uma pequena multidão de pedestres tomava a calçada no mesmo lugar, bloqueando sua visão. O táxi continuou avançando. Tinha consulta marcada em um médico próximo dali. Ao sair, uma hora depois, caminhou até um ponto de táxi, mas em vez de entrar no carro que lhe oferecia o motorista com a porta aberta, continuou andando. Tentou manter os pensamentos numa espécie de pausa pelas quadras seguintes. Por sorte estava de tênis. Chegou em poucos minutos. À distância, quase paralisada, avistou-o. Lucas estava no mesmo lugar.

- Um Mickey?

- Isso.

- Em cima de um cordão. Assim, mais ou menos desse tamanho?

- Como a senhora sabe?

- Putaqueopariu.

(Não podia dizer que ela e a sogra se davam bem. Não podia dizer também que gostavam da companhia uma da outra – ou mesmo que gostavam uma da outra. Podia dizer que, graças a ele, se toleravam e isso estava longe de ser uma amizade).

- Quando ele era pequeno – a mãe de Lucas continuou – o pai foi embora muito cedo. Isso não é segredo para ninguém. O canalha não pagava pensão, então tinha que trabalhar. Morávamos de aluguel. Trabalhava em um escritório. Um dia, no aniversário do filho de uma secretária, o pessoal fez uma vaquinha para comprar um presente. Eu fui encarregada de fazer a compra. Fui a uma loja e logo na vitrine estava esse brinquedo.

- O mesmo?

- Se chamava Mickey Equilibrista. Comprei e levei a caixa para casa. A festa era no sábado seguinte. Mas não guardei direito. Ele ficava em casa à tarde com uma babá. Achou o pacote e, pensando ser um presente, tirou da caixa, montou e começou a brincar. Quando cheguei, tive que contar que o brinquedo não era dele e botar de volta na caixa. Tinha uns quatro anos. Jamais imaginei que ainda se lembrava disso. Quantas vezes você disse que já viu ele lá?

- Quatro.

- Dá o que pensar, não é?

Lucas continuou a chegar todos os dias mais ou menos na mesma hora. Continuou a ir à mesma vitrine quase todas as tardes só para verificar se ele estava lá. Era  operador independente da Bolsa. Trabalhava em um escritório, próprio, comprando e vendendo papéis dos mais variados em mercados do mundo todo.

Depois de alguns anos, eram hábitos a respeito um do outro. Tanto agradavam quanto desagradavam na mesma proporção. E continuavam a repetir. Todos os dias, ao chegar, Lucas vestia uma bermuda, se sentava na frente da TV e começava a esfarelar a pele entre os dedos dos pés. Ela fumava três carteiras por dia. Eram ambos quase totalmente incapazes de conversar sobre qualquer problema. Desde o dia em que o surpreendeu diante da vitrine, ao fazerem sexo o olhar dele estava quase sempre no infinito.

Ela conversou também com a própria mãe, que ouviu a história em silêncio e depois disse:

- Conversa fiada. Abre os olhos: ele tem outra.

Para ela, tudo sempre era uma questão de infidelidade.

Uma semana depois, deixou-o dormindo na cama até tarde e saiu do apartamento tentando fazer silêncio. Deixou um bilhete explicando a ausência – uma ida repentina ao médico da qual se esquecera de avisá-lo. O comércio ainda não havia aberto as portas, mas a caminho do centro precisou lutar com a sensação de que era tarde demais. Mas ao chegar à loja, encontrou o boneco no lugar de sempre. A loja ainda estava fechada. Precisou esperar a chegada do dono, um oriental na faixa entre cinqüenta ou sessenta anos, que não demorou.

- Eu quero comprar aquele brinquedo – Marina disse enquanto ele abria a porta.

- O Mickey?

- Ele mesmo.

- Não está à venda. É só para exposição. É um brinquedo raro. Tem mais de quarenta anos.

- Pago o preço que for preciso.

Contou sua história – parte dela, ocultando que o homem em questão era o mesmo que costumava ficar do lado de fora da loja. O dono já devia tê-lo notado. Podia até mesmo conhecer Lucas. Ele fez um preço.

- Com valor sentimental ou não, é uma raridade – justificou. Marina pagou com cheque.

À tarde, para domar a ansiedade, se meteu a fazer o jantar, que lhe tomou muito tempo. Montou o brinquedo e pôs o Mickey Equilibrista no lugar. O boneco, como um artista que faz seu número, pedalou de um lado ao outro do fio de metal, chegando à parte de baixo com uma trajetória perfeita.

Na hora habitual, Lucas não apareceu. Não era raro se atrasar e chegar um pouco depois. Às nove, contudo, não havia chegado. Ela amaldiçoou-lhe a mania: por que não compra um celular? Só depois das dez começou a dar telefonemas.

Pela manhã, sem dormir, cinco cigarros, acesos um no outro, forneceram a coragem necessária para a ligação para o IML. Desligou aliviada. Não estava lá. Nem nos hospitais para onde telefonou em seguida.

Não estava em seu lugar habitual. Tentando localizá-lo nos arredores, só muito depois se deu conta da vitrine. Um buraco fora aberto na parte do alto, coberto agora por um remendo de plástico. Do lado de dentro, o dono ajeitava os brinquedos de volta no lugar. Ao vê-la, fez um sinal e correu para o lado de fora.

- Um homem veio aqui ontem – ele anunciou. – É o mesmo que vem quase todo dia e fica parado aí mesmo. Estava nervoso desta vez. Começou a gritar e depois apareceu com uma pedra. Não voltou hoje, mas vai ver só se aparecer aqui de novo. Louco. Louco.

Ao abrir a porta, de volta ao apartamento, a luz do corredor iluminou a silhueta do equilibrista, parado no mesmo lugar. Naquela noite e nas outras seguintes não voltou a vê-lo.

Categories: Conto

LOVE # 17

November 26, 2008 · 1 Comment

There is no such thing as a weird human being

TOM ROBBINS – Another roadside attraction

Rodolfo se divertia com um joguinho na internet quando o chefe mandou chamá-lo. “Tenho más notícias, seu Rodolfo”, o chefe disse logo que ele entrou na sala. Era um homem à moda antiga. Falava cheio de mesuras e rodeios e senhores e senhoras. Penteava os cabelos no estilo combo, os fios desgraçadamente incapazes de cobrir a grande clareira no alto da cabeça. Continuou: “A empresa, seu Rodolfo, está numa época de cortes e ajustes e…”

Rodolfo não esperou o resto da conversa. Voltou para seu computador e para seu joguinho. Só mais tarde começou a esvaziar a mesa. Guardou tudo na mochila e foi embora do escritório. Saiu sem se despedir de ninguém. Não tinha ali ninguém mesmo com quem se importasse ou que suspeitasse que se importava com ele. Bando de filhos da puta. Com a expressão perdida, deixou o prédio, caminhou até a banca de jornal e comprou um cartão telefônico. Foi até um orelhão e discou o número da ex-mulher. Logo que Fátima atendeu, sem deixar ela falar, berrou todas as barbaridades que sempre pensou dela em todos aqueles anos. Bateu o telefone a seguir. Suava. Seu rosto estava vermelho. Sentia-se leve, portador de uma verdade só sua.

No dia seguinte, acordou com uma fortíssima dor de barriga. Dobrado em cólicas, deu o nome do hospital ao taxista e foi deitado no banco de trás do carro. Ao dar entrada na emergência, no entanto, o funcionário da triagem o mandou para a sala de espera lotada. De nada adiantaram seus protestos, ameaças e súplicas. Para não se aborrecer no trabalho, o funcionário da triagem costumava alternar as personalidades. Em alguns dias era um atendente bastante razoável e educado, ajudando aos doentes no que podia e condoendo-se da dor e do sofrimento alheios. Em outros, pelo contrário, completamente irascível e injusto, não dava a menor importância a eles, tratava-os com impessoalidade, desprezo até. Fisicamente, era espantosamente parecido com o barão do Rio Branco. Estava em um de seus piores dias, para azar de Rodolfo.

Ajeitando-se numa cadeira de plástico, Rodolfo verificou no letreiro luminoso que o último número chamado fora o 135-A (o seu era o 272-B). Não demorou, porém, a descobrir que todos os doentes, grávidas e idosos eram atendidos na sua frente.

“Têm prioridade”, deu de ombros o funcionário da triagem quando foi reclamar.

Como todo mundo ali era idoso, doente ou grávida, cinco horas depois a sala continuava lotada e ele ainda esperava. As tripas o fizeram se contorcer um pouco mais e ele, finalmente perdendo a paciência, se levantou e começou a gritar com o funcionário da triagem e com outros pacientes e também com os seguranças, que o arrastaram para fora. Com o resto dos créditos do cartão telefônico, ligou para Adele, que foi sua última namorada antes do casamento com Fátima. Adele atendeu. Antes que terminasse de falar ela já chorava. Sempre foi meio mole, a Adele. Encerrada a ligação, com ofensas recém-ditas ainda frescas na memória, caminhou pelo meio da praça arrastando os pés e levantando uma nuvem de poeira do chão só para atrapalhar as crianças que brincavam. Chutou uma pedra tentando acertar um pombo. Uma velha, sentada próxima, olhou-o com reprovação. Ele respondeu: “Ora, vá se foder, minha senhora”. A cólica havia passado.

Mal havia acabado de acender um baseado na sala, mais ou menos uma semana depois, e a síndica tocou a campainha para reclamar do cheiro de maconha no corredor do prédio. Desde que deixou o emprego passou a fumar sem parar. Não tinha muito o que fazer e nem vontade de procurar emprego. A síndica só foi embora depois que ele concordou em assinar a notificação do condomínio. Levando o papel dobrado no bolso da calça, Rodolfo partiu em um ônibus no fim da tarde para o centro. As ruas ainda estava cheias. Teria que esperar. Foi até uma pastelaria, pediu um pastel de queijo e um caldo de cana. Quando terminou de comer já estava escuro. Saindo da Rua da Praia, subiu a Rua da Ladeira e buscou refúgio na entrada da Biblioteca. Fora naquele mesmo lugar que anos antes pela primeira beijou Camila, que um tempo depois foi embora com outro para Barcelona. Aconteceu antes de Adele. Nunca mais teve notícia de Camila. Rodolfo tirou uma chave de fenda do bolso e, calmamente, esculpiu vários palavrões e desenhos pornográficos na porta, feita de madeira trabalhada e antiga, causando a indignação do diretor da biblioteca, que, na manhã seguinte, ao chegar para trabalhar e ver o estrago, pôs-se logo a escrever um artigo, criticando o vandalismo, a falta de respeito elo patrimônio histórico e outras coisas  reclamações, publicado no segundo maior jornal da cidade. O artigo realmente ficou muito bem escrito, mas Rodolfo não o leu, pois comprava apenas o jornal concorrente.

Houve também um baile de fim de ano na pequena cidade onde vivia sua família, no interior de Minas. Rodolfo viajou para o Natal depois de longos anos de ausência. Naquela cidadezinha passou as férias durante quase toda a adolescência. Tinha boas lembranças daqueles tempos. Na noite da festa, no entanto, reencontrou Marcial, desafeto antigo. Ambos  se desentenderam naquela noite, como muitas vezes antes, por causa de uma antiga namorada. Marcial acabou levado pelos seguranças para o lado de fora. Ficou à espera de Rodolfo. Quando o baile acabou, antes que Rodolfo dissesse qualquer coisa, Marcial saiu de trás de uma árvore e atirou na sua perna antes de fugir  Mancando, Rodolfo caminhou até a casa de uma tia e pediu socorro na cozinha, onde a família estava reunida. Mas antes de sair para o médico pediu licença a todos por um instante e mancou de volta até o telefone. Naquele momento nada era mais importante do que ligar para Cláudia, razão da mais devastadora tristeza que já sofreu e de ter se tornado incapaz de articular os próprios sentimentos, sua primeira namorada de verdade, aquela que lhe ensinou o amor.

Categories: Conto

Ele, Ela

November 11, 2008 · 3 Comments

Ela também tinha uma história passada no trabalho, bem diferente a propósito. Seu primeiro emprego, três anos antes, foi numa ótica e loja de revelações fotográficas. Chegava no fim da manhã e passava as tardes atendendo no balcão até as seis da tarde, quando ajudava Seu Herique, o dono, a baixar as portas e a apagar as luzes. Então pegava a bolsa debaixo do balcão, dava boa-noite a Seu Henrique (estavam os dois nos quase sempre sozinhos) e ia embora. Na sexta-feira da terceira semana, contudo, depois de ajudar Seu Henrique com as portas, ia começar a apagar as luzes quando ele pediu que esperasse um momento. Seu Henrique foi então até o depósito e depois de alguns minutos chamou-a lá de dentro. Ao chegar lá, ela encontrou-o com as calças abaixadas até os tornozelos e a cueca branca pela altura do joelho. Seu Henrique segurava o pinto com a mão direita. Apontava-o diretamente na sua direção, como se aquele buraco no meio fosse um olho e assim pudesse vê-la. Antes que pudesse dizer alguma coisa, ele segurou o pau com força, como se aquele buraco no meio fosse uma boca e pudesse falar.

Sentindo-se completamente ultrajada, ela não se moveu até que ele agarrou-a o braço, puxando-a para perto de si. Devagar, em silêncio, ela se abaixou e, meio indiferente à situação, pôs o negócio na boca. Não podia afirmar com certeza que esta não era uma obrigação profissional. Sabia, ouvindo falar e lendo a respeito, que eram relativamente comuns relacionamentos nos locais de trabalho, mas não tinha a menor idéia de começavam. Seria este um tipo de ritual e, assim, com um ataque abrupto, é que mais tarde acabaria apaixonada? O gosto não era ruim, mas Seu Henrique tinha um pinto grande, que encheu toda a boca, fazendo-a se afastar com violência ao quase tocar a garganta. Começou a masturbá-lo para não ter que colocar aquilo de novo na boca, mas não escapou do orgasmo. Ele enfiou o negócio de novo e logo depois gozou apertando a sua cabeça contra si. Tinha um gosto que desteou.

Não voltou mais à loja. Pediu as contas por telefone e no mesmo dia contou tudo para o irmão, que foi à loja buscar a indenização no seu lugar. Depois de receber o cheque e assinar um recibo, o irmão agarrou Seu Henrique pelos cabelos e arrastou com calma até o depósito. A loja ficou vazia. O irmão era mais jovem do que Seu Henrique. Frequentava academia três vezes por semana e comia suplementos alimentares para ficar mais forte. Dominou facilmente seu Henrique. Nos fundos da loja, o irmão arriou a calça até os tornozelos e a cueca até os joelhos. Com o negócio ainda mole, agarrou Seu Henrique pelos cabelos e, sem nenhuma emoção, apontou com os olhos. Seu Henrique começou a chorar

O irmão chegou ao apartamento dela meia hora depois usando um óculos de sol. Levou para casa, junto com a indenização, três meses a mais de salário para ela. Seu Henrique enviou, junto com o dinheiro, um cartão roxo dentro de um envelope roxo. Ela rasgou o envelope sem ler e jogou os pedaços na privada, dando descarga a seguir.

Ele terminou de comer e olhou em volta na praça da alimentação. Os olhares dele e dela se encontraram rapidamente e cada um deu um sorriso simpático, logo desviando os olhos. Após afastar a bandeja, ele tirou da bolsa um livro e começou a ler. Ali ficaram, ele ainda ignorando-a, por mais alguns minutos até que fechou o livro e, levantando-se, começou a deixar a praça da alimentação.

Ela observou-o ir embora quase em câmera lenta, desde o momento em que atravessou a praça de alimentação, depois parou diante de uma vitrine masculina (usava uma bonita camisa, talvez tivesse bom gosto) e também quando examinou as TVs de tela grande na loja de eletrodomésticos (será casado? Mora sozinho?) até a hora que esperou numa pequena fila para usar a escada rolante. Enquanto ainda podia vê-lo, imaginou uma vida para ele e como, no dia seguinte, iria voltar ao shopping para almoçar e então se reencontrariam. Descobrira qual livro ele estava lendo e, ao ler também o mesmo livro, haveria motivo para mil perguntas e comentários, e ele a tomaria por uma destas mulheres inteligentes, que era certamente o que desejava, tornando-os certamente bastante íntimos logo neste início tão promissor. A vez dele chegou na escada rolante e enquanto ele desaparecia, com desalento, ela se sentiu infeliz por todos os encontros não-concretizados pelos quais já passou e ainda teria que passar na vida.

Ele desceu pela escada rolante e depois bebeu um café expresso numa loja de chocolates do primeiro andar. Pediu duas bolinhas de cacau com conhaque, que devorou com prazer. Depois caminhou com o passo apressado na direção do banheiro. Por uma disfunção qualquer, não podia beber café expresso sem ser atacado mais ou menos dez minutos depois por uma vontade incontrolável de correr para o banheiro. Escolheu um reservado e antes de sentar-se desenhou cobriu com papel higiênico o asento da patente. Era seu método predileto para evitar os germes; o outro era ajeitar-se pouco acima do assento, sem tocá-lo, e de cima mesmo exercer sua função. A sensação de esvaziar-se encheu-o de calma.

Ela dormiu naquela noite às 22:47, mas não tinha a menor noção disso e nem do que fazer com a própria vida.

Categories: Conto

Ela, Ele

November 6, 2008 · Leave a Comment

Ela não fez as unhas no horário do almoço, como nas outras quintas-feiras, porque naquela manhã choveu. O ar estava úmido e o esmalte ia demorar a secar. Em vez disso, resolveu pegar um ônibus até o shopping center, que ficava perto do trabalho.

Ele estava sentado no canto oposto da grande praça de alimentação. Tinha, desfeita à sua frente, uma embalagem do Burger King e um brinquedo dos Simpsons, que ganhou de brinde. Comia um hamburger. Caído no chão próximo dele, um saco de batatas fritas. Caíram da bandeja ao levar um esbarrão de um homem gordo que escapuliu sem dar tempo dele fazer nada. Agora comia com ar infeliz.

Ela prestou atenção nele logo que chegou. Levou para perto dele a bandeja com uma refeição leve de um fast-food natural e um pires com pedaços de melão. Comeu devagar, não querendo parecer afoita. Tinha as mãos finas e delicadas cobertas de sardas. Disfarçava o nervosismo tentando não olhar na direção dele para ver se a observava também, porém ele continuou a comer e a ignorá-la.

Ele pensava nos frangos prensados que comia todos os dias no almoço quando morava no Rio, dez anos antes. Seu emprego era vender bolsas de estudo de um curso que prometia um novo e revolucionário método para ensinar inglês, mas cujos resultados não eram, como se podia prever, nem um pouco melhores do que os demais. Era tímido demais para convencer os outros. Para sua sorte, seu primeiro cliente foi um velho livreiro que recebeu-o no depósito da loja. Tinha os braços magros e enrugados cobertos por uma pelagem branca. Estava com mais de setenta anos. Foi facilmente convencido. Depois ele mesmo explicou o porquê:

“Enquanto o senhor entrava por aquela porta eu tentava responder a mim mesmo o significado de um sonho que eu tive essa noite. Agora não tenho nenhuma dúvida. Foi um aviso.  Não costumo me lembrar do que eu sonho. Às vezes, quando acordo, vem um rápido dado ou informação que escapou de desaparecer junto com o resto e é tudo que sobra do sonho; mas desta vez quando acordei o sonho ainda estava nítido na minha mente. Uma mulher muito bonita me olhava. Era mesmo um fenômeno de mulher. Usava uma fina blusa branca, sem sutiã, com o contorno dos seios evidentes e leves manchas amarronzadas no lugar dos mamilos. Numa certa hora ela entreabriu os lábios e o que me disse soou como a mais louca promessa de devassidão que ouvi na vida. Ela tinha a voz agradável e quente.  Sou casado há quarenta e oito anos com a mesma mulher e sou muito feliz. Graças a Deus, nunca fui infiel. Não digo para me gabar, é  porque se trata da mais pura verdade. Mas com aquela mulher ia na hora. Largava tudo mesmo. Só que ela falou tudo em inglês.  Só falava inglês e eu não falo inglês. Nem uma palavra. Era nisso que pensava quando o senhor passou por aquela porta, se devia começar a aprender inglês”.

Pagou com dois cheques pré-datados. Pelas regras da empresa, tinha direito a quatorze por cento da venda.

Quando ele anunciou que fez uma venda, desenrolou-se a seguinte cena no grande escritório no centro que ocupava quase um andar inteiro e pertencia ao curso: Rodolfo, seu chefe, recebeu a notícia e então deixou a sala, foi até o lado de fora e parou diante de um gongo, pendurado diante da porta. Sem a menor cerimônia, ele apanhou um bastão com a ponta acolchoada, pendurado na parede, e fez soar duas vezes o gongo com estardalhaço. De algumas salas surgiram cabeças se perguntando o que acontecia. Logo voltaram a seus afazeres, pois este era um ritual bem comum. Na sala da diretoria, ficava um grande quadro branco com os nomes de todos os vendedores anotados com pincel atômico azul e suas vendas,  com pincel atômico vermelho Alguns nomes registravam bons números – 14, 16, 18 – ao lado, eram os melhores na equipe, enquanto outros, com 8 ou 9, podiam ser definidos como os médios. O seu estava marcado com um X. Significava que não fizera nenhuma venda até o momento. Rodolfo apagou o X com a manga da camisa e, com pincel atômico vermelho, rabiscou: 1.

Continua.

Categories: Conto

Love # 9

September 16, 2008 · Leave a Comment

Terminou o cigarro em silêncio, nua, imóvel, pensando em alguma maneira de se mandar dali. Estava atrasada. Se chamava Amanda. Miss Samantha era um apelido. Usava-o apenas nas conversas com os outros operadores. Todo mundo tinha o seu. Todos trabalhavam em casa e não gostavam de dizer os nomes verdadeiros. Medo de seqüestro. O apelido de Carlos, dormindo ao seu lado, era Ray Davies. Davies foi o cantor dos Kinks. Ela não sabia disso, ele sim. Ela não sabia do apelido dele, ele não sabia do apelido dela. Nenhum dos dois gostava de comentar o que fazia. Medo de seqüestro.

Ele dormia profundamente ao seu lado. Ela sabia que em breve o telefone começaria a tocar e, sem poder desligá-lo, veria arruinadas as chances de sair dali em silêncio. Precisava ir embora logo.

Quando se conheceram, ela se apresentou com o próprio nome:

- Amanda.

- A-M-A-N-D-A, ele soletrou de um jeito desagradável, tentando impressionar. Quase conseguiu.

Ele sabia sobre Fibonacci. Ela tinha sido advogada antes de abandonar a carreira para, diante do computador, em casa, operar números, gráficos e títulos. Entendia de processos, representações, encargos, recebimentos, a coisa toda do Direito. Ambos achavam que sabiam bastante sobre o mercado financeiro e a bolsa de valores e todas estas outras coisas para viver disso.

Wolfgang Amadeus Mozart, pensando sabe-se lá no quê, certa vez escreveu uma composição chamada chamada “Lamba meu Ânus” e nenhum dos dois sabia disso. Não era uma informação necessária.

O pianista executava, entendiado, uma versão aguada de Chega de Saudade quando Carlos dela se aproximou. Não se conheciam, porém já estava bêbada o suficiente para não resistir à abordagem. Carlos, além do mais, era do tipo engraçado, que algumas mulheres, ela inclusive, consideram irresistível. Ambos sozinhos, sem amigos, entre grupos de estranhos que agora se empolgavam e batiam palmas. As pessoas também costumam gostar desta outra, igualmente insuportável: Andança.

Terminaram a noite no apartamento dele, que fica mais perto do bar. Ele sabia que Paul McCartney, para permanecer incógnito, registrava-se nos hotéis com seu nome dito ao contrário, Ian Iachmoe, mas que importância isso tem na hora do sexo?

Agora, enquanto tomava consciência dos acontecimentos, sentiu, com a boca ressequida, a mesma vergonha e arrependimento das outras vezes. Olhando em volta, rapidamente traçou um pequeno inventário da infelicidade de Carlos Medeiros, 41 anos, levemente acima do peso, que usa cuecas slip, morador solitário de um apartamento alugado na Glória sem estantes e com pilhas de livros abandonadas no chão, com um computador cuja mesa, pela aparência, também é usada nas refeições, e que na única prateleira disponível decidiu pôr apenas bonecos de personagens de filmes e séries de TV, que considera mais adequados à sua personalidade. As pessoas têm essa idéia de que na bolsa todos são bem sucedidos. Nem todos.

Ela sabia que na Ásia Central um buraco queima pela eternidade. Exploradores pensaram se tratar de uma caverna. Para limpar o ar viciado antes da descida, lançaram fogo pela cavidade. Era um depósito gigante de gás. Chamam-no agora de Portão do Inferno. Leu a respeito na internet. Por coincidência, ele também. Se tivessem comentado sobre isso, teriam encontrado um ponto em comum, um vínculo, de modo que, pensando  um no outro mais tarde, um dos dois ou os dois, talvez tivesse comentado “Mas veja só” e seriam no mínimo uma lembrança agradável. Mas não aconteceu e, como se empenhado a provar que certas situações sempre podem ficar piores, Carlos soltou naquele momento um longo e inacreditável flato, fazendo-a arregalar um pouco os olhos.

Deixou o apartamento logo depois com o cuidado de fechar a porta sem fazer barulho. Não dueria  acordá-lo e ser obrigada a uma despedida. Tampouco se importou em deixar anotado em algum lugar o telefone. Sob o sol do lado de fora, hesitou por um momento.  Detestava dias assim. Saiu pela rua em busca de um táxi, mas logo se deparou com o trânsito parado. Um caminhão, parado no meio, interrompia a passagem dos carros. De dentro do baú, dois homens de macacão bege tentavam desajeitadamente carregar um imenso sofá azul de quatro ou cinco lugares para a calçada. Um deles se atrapalhou com a carga e, desajeitado, caiu sentado no chão. O sofá escorregou até a parte da frente, depois caiu de pé na calçada e, finalmente, desabou com um estrondo no chão. Toda a cena foi cômica, mas ninguém riu.

Caminhou mais duas quadras até finalmente encontrar um táxi livre. Deu o endereço e, enquanto se acomodava no banco de trás, suspirou lentamente. Os eventos passados desde que abriu os olhos finalmente começaram a tomar as feições de um sonho.

Ele tinha um pateta predileto. Era Moe. Ela não lembrava mais quem eram os Três Patetas. Se ele soubesse disso, não teria abordado-a, para começar.

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As CosTaS DA mão

July 4, 2008 · Leave a Comment

I

“Seu Jonas”.

O velho fala com a voz quase sumida, pouco mais do que um chiado. Desde que lhe operaram a garganta tiraram quase tudo. O doutor disse que o câncer quase o matou, mas não matou. Tomou todos os remédios. Fez tratamento. Sobreviveu. Voltou ao trabalho mais ranzinza, mais insuportável. Com preferência especial por perturbar Jonas.

“Seu Jonas”.

“Oi”.

“Seu Jonas, o senhor fez as encomendas que eu pedi?”

É nesta hora que começa a coceira em sua mão direita. Com a ponta da unha do indicador, acaricia suavemente o local – as costas da mão. Quase imperceptível, nota um pequeno caroço.

“Seu Jonas, o senhor está me escutando?”

“Estou”.

“Então me responda, seu Jonas. E quanto às encomendas?”

Nesta cidade, os jovens desfilam em flor pelo centro, onde Jonas come seu sanduíche usando o papel da embalagem de guardanapo. Sentado em um banco, desfruta da solidão que costuma apreciar em espaços abertos – quase sempre difícil de conseguir. De fato, é o único na praça. À sua frente, a usina também parece vazia, embora não esteja. Por um instante não passa nenhum carro e tem a impressão de que talvez aquele mesmo momento esteja a se replicar em todo o mundo e que tudo esteja parado, congelado. Ilusão que se desfaz quando vários carros aparecem de uma vez na curva, seguidos de um caminhão e um ônibus. Dá uma grande mordida no sanduíche.

A mão volta a coçar e, à luz do dia, verifica melhor o local. A pele arroxeada afunda sob a pressão  da ponta do dedo. Por baixo, sente um caroço endurecido. Aproxima o dedo do nariz e cheira-o. Depois se levanta, toma o rumo do trabalho. O velho o enxerga de longe. Tão logo aponta na porta de entrada, vai na sua direção. Por causa do câncer, às vezes acontece de ter violentas contrações musculares involuntárias – problema que de repente o faz começar a mexer o corpo descontroladamente. Depois, no entanto, se apruma e, como se nada tivesse acontecido, chama-o fazendo também um gesto com as mãos.

“Seu Jonas”.

Continua.

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Passatempo

March 12, 2008 · Leave a Comment

Neste ponto o maníaco psicótico observa meio catatônico o mousse de amendoim devorado pela metade e a xícara quase vazia de café expresso já frio, colocados sobre a mesa diante de si, com um tampo redondo e transparente, através da qual pode ver as próprias pernas cruzadas, enfiadas em jeans sujos, e os próprios pés, cujos tênis, também imundos, não são um bom cartão de visita sobre o próprio asseio. Ele não se importa, já que a esta altura cuidar da higiene pessoal não é uma questão relevante, há assuntos mais prementes como a submetralhadora uzi que guardou na mochila, pousada nas costas da cadeira que, a propósito, em nada combina com o restante do mobiliário da cafeteria. Este homem, cujos pensamentos, ao invés de confusos, como sugere a psicologia convencional, são cristalinamente claros, se distrai com um exemplar de Paulo Coelho, levantando os olhos ocasionalmente para observar os outros presentes, que não são mais do que seis, sendo o elemento mais agressivamente destacado a criança de uns cinco ou seis anos que corre entre as mesas vestida de Robin enquanto os pais não se dão ao trabalho de discipliná-la, demonstrando que de alguma forma são participantes do culto de progenitores irresponsáveis que envenena os ambientes nas sociedades contemporâneas e, além de tudo, pelo modo de vestir, rebeldes retardados que, ultrapassados os quarenta, tentam a todo custo se agarrar à imagem e à persona que mantinham aos vinte, sendo este, a busca pela juventude eterna, um mal que aflige não apenas uns poucos, como se pode imaginar. Um outro é o homem de músculos salientes e cabelos salpicados de louro e pernas também cruzadas, cuja calça xadrez sugere algum tipo de jogador de golfe, mas que apenas segue a moda mais recente, que prefere camisetas apertadas que possam ressaltar sua forma, como esta, preta, que tem no peito e nas costas os mesmos dizeres: PILATES. E ainda é digno de alguma atenção o casal, ele com os óculos modernos e grandes tatuagens cobrindo os braços, cabelo pintado de marrom escuro, um piercing de argola no nariz, que às vezes o deixa com a aparência de um javali, sugerindo um publicitário, um DJ, um redator, qualquer coisa que combine com o visual, ela acima do peso, rugas e um rosco vincado, os olhos cansados, com a aparência de que perdeu algo, jogou fora alguma coisa, sofreu alguma derrota irremediável, não sendo possível saber a distância o que se passa entre ambos, silenciosos, cada um com a sua xícara de café fumegante diante de si, próximos da rua, de vez em quando negando um trocado aos pedintes que não param de passar, pois este também é um tormento cada vez mais presente nos dias de hoje. E ainda a mulher idosa, como as antigas avós das latas de farinha de trigo, de leite condensado e de outros produtos alimentícios, uma lembrança quase remota, posto que quase nenhuma das que chegaram à sua idade gostaria de admiti-lo. Ela tem cabelos brancos, penteados de uma maneira assustadora, e pergunta à atendente se ainda demora para aparecer o guarda que costuma verificar o parquímetro em frente, pois estacionou seu carro sem fazer o devido pagamento, razão pela qual, diante da resposta, desiste do pão de queijo, recém-servido, e beberica o café apressada, tirando da bolsa uma nota de dez que põe em cima da mesa antes de se levantar.

A pergunta: quando ele apanhar a submetralhadora da mochila, em quem vai atirar primeiro?

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Parte DOIS

March 8, 2008 · Leave a Comment

Uma breve história do tempo.

Sento-me encostado à parede aos dezenove e dois anos depois, como se isso fosse possível, me encontro no mesmo lugar. Como se os dois anos não tivessem passado. Ou tivessem, mas eu não me fora. Eu tivesse-me ido, mas de alguma maneira permanecido. Ou nada disso tenha realmente se passado e, em dois anos, tudo o que aconteceu – a passagem pelo exército, o primeiro emprego, duas experiências sexuais, o conhecimento de dois tipos e drogas, a morte de um parente distante – não tenham sido mais do que um quase. Ou um quê. Ou nada. De modo que quando estou na mesma posição, no mesmo lugar, sem a lembrança de ter feito o mesmo durante 731 dias – considerando-se a passagem de um ano bissexto no transcurso – algumas coisas fazem mais sentido do que outras. Uma galáxia distante, por exemplo, move-se a centro e vinte quilômetros por segundo na direção da nossa. Quando chegar, fatos assim não terão a menor importância”.

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Parte UM

March 6, 2008 · Leave a Comment

A senhora Low Chen explica como matou o marido durante um ataque de raiva em pleno jantar.

“Eu sempre dizia… dia a ele… sabe? Algumas coisas podem e outras não. Algumas se suportam e com outras é impossível. Mas ele não me dava atenção e nem me dava ouvidos. Dizia que eu falava demais. De certa forma é verdade. Falo mesmo. Estou sempre falando, mas o senhor entenda: aqui éramos só nós dois, aposentados, velhos, o tempo todo juntos. Por isso comecei a ver televisão quinze ou dezesseis horas por dia. Televisão ajuda a ficar quieto. Desde que acordo, até a hora de dormir, assisto a qualquer coisa que esteja passando. Não sou de ter preconceito. Mas ele até disso reclamava. Tornou a minha vida um inferno. Mas do que eu falava mesmo? Ah sim, tem certas coisas que se suporta e outras não. Por exemplo: depois da décima ou décima primeira vez, quando ele enfiou o dedo no nariz na mesa do jantar achei que não era mais o caso de de só reclamar. Apanhei o garfo em cima da mesa e o senhor mesmo pode ver como tudo acabou”.

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The final cut

January 22, 2008 · Leave a Comment

Tinha o rosto amarelo e rosado e lembrava um antigo personagem de desenho. Da testa brotavam pingos de suor. No peito sem camisa, usava um grande cordão de outo. À sua frente, sobre uma toalha branca, as armas foram todas arranjadas como a obra de um artista conceitual. Estavam sem munição.

– Isso é para você – me alcançou um revólver 22 que cabia quase inteiro na minha mão.

Empertigou-se e me olhou nos olhos por um instante. Um olhar inquisidor. Depois abriu uma gaveta, pegou outra arma – uma pistola – e pôs no lugar do revólver recém-retirado. Ajeitou-o até deixá-lo alinhado com uma fileira de outras pistolas.

– Você vacilou comigo. É um filho da puta, mas se arrependeu, então não vou fazer nada contigo. Mas o Cruz eu não perdôo. Vamos dar um recado a ele (sorriu). Ah, leva o Pequeno com você.

O Pequeno levou algum tempo para conseguir se ajeitar no banco da frente. Praguejou contra o hábito da indústria de construir carros pequenos. O apelido era só um modo de dizer. Tinha mais de dois metros, o corpo largo de ex-leão-de-chácara e ex-lutador de luta-livre. Apontou seus olhos minúsculos e o nariz amassado de ex-boxeador na minha direção quando ordenou.

– Vamos.

O carro se moveu lentamente, parecendo tão sonolento quanto eu. Fora obrigado a acordar mais cedo do que o habitual. Pequeno socou a porta do apartamento com suas mãos grandes até a minha aparição com cara de sono. Me deu o recado. Agora, enquanto seguia ao meu lado, calado, parecia absorvido por alguma grande questão. Cruzava as mãos e as enfiava entre as pernas. Estava nervoso. O casaco caía por cima do câmbio. Me atrapalhava na hora de mudar a marcha, mas resolvi não reclamar.

Rodamos por mais ou menos uma hora. Paramos finalmente diante da casa. Uma rua de terra batida e poucas casas. Nenhuma como aquela.

– É aí – informei, já abrindo a porta.

– Aí?

– É. Aí.

Paredes altas e brancas. Dois andares. Janelas, porta, telhado, tudo branco, feito numa igreja. O Velho Cruz fazia questão de que todos soubessem onde morava. Era só perguntar pela casa branca na vizinhança que todos sabiam dizer.

Nenhum segurança à vista quando avancei pelo gramado bem cuidado. Portas e janelas permaneciam fechadas. Deveria bater? De repente um clique. A sensação me fez girar lentamente. Um recado. Apesar de todo o tamanho, Pequeno estivera fora do alcance da vista. Um recado, porra, um recado. Quando o encontrei, já havia saído do carro. Um recado, caralho. Apoiava as mãos no teto para segurar com mais firmeza a pistola. O cano comprido mirava a minha testa. Bem no meio.

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