The Boy Least Likely to.
Ainda assim, insisti em que merecia ter a Síndrome do Sobrevivente, como meu pai, e então ela me fez duas perguntas. A primeira foi essa:
- Você acredita, às vezes, que é uma boa pessoa em um mundo onde quase todas as outras boas pessoas estão mortas?
- Não.
- Você acredita que às vezes precisa ser mau, já que todas as boas pessoas estão mortas, e que o único jeito de limpar seu nome é estar morto também?
- Não.
- Você pode merecer a Síndrome do Sobrevivente, mas não a adquiriu – disse ela. – Não quer tentar tuberculose no lugar?
Pena que o livro já está no fim. Um bom Vonnegut, com certeza. Tristemente melancólico, como Mother Night.
Categories: Livros
Este não é um livro em que os personagens buscam a felicidade. Não
explicitamente. Na real, são indiferentes à felicidade e também à
infelicidade. Não que não se importem. Simplesmente não pensam nela.
Movidos por pura obsessão, às vezes funcionam em um estado de
sabedoria e aceitação. Em outras dão a impressão de que,
desumanizados e perdidos, se tornaram máquinas que por uma falha de programação foram obrigadas a rotinas e tarefas aparentemente absurdas.
Texto da contracapa de “Veja se você responde essa pergunta”.
Eu sei, ficou meio Buarque.
Categories: Insanidade
Não conhecia ainda o clipe. Bela música.
Categories: Música
A história, impressa na capa da revista Opium, tem nove palavras. Mas graças ao processo de impressão, uma dupla camada de tinta, exposta à luz ultravioleta cada palavra só vai se revelar mais ou menos a cada cem anos.
Por volta de 3009, se um exemplar ainda restar, se um curioso ainda existir a respeito, finalmente poderá ser lido inteiro o conto “The longest story ever”, de Jonathon Keats, que não é escritor, mas artista conceitual.
O que me leva a imaginar nove palavras que possam ser lidas como algo digno de se ler, não apenas uma curiosidade, algo mil anos no futuro. Eu escreveria o seguinte:
Desculpe, mas continuamos fazendo as coisas do jeito errado.
Categories: literatura
Em 1976, uma greve de lixeiros tornou Londres uma cidade insuportável. Foi a mesma década em que a economia da Inglaterra decaiu, em que o governo já não não tinha mais dinheiro para bancar o Estado de bem estar social e uma série de greves teve como imagem mais marcante as montanhas de lixo acumulado nas ruas e esquinas. A podridão londrina foi o pano de fundo do surgimento do movimento punk, situação que Julian Temple não deixou passar em branco em O lixo e a fúria, sobre os Sex Pistols. Esta também foi a inspiração de 1985, um dos livros mais interessantes de Anthony Burgess.
Não é dos melhores dele. Dá para citar fácil cinco obras suas que são superiores. O que torna esse livro notável é sua pretensão. Burgess era arrogante. Um Himalaia de presunção. Tinha alma de hooligan, viajando pela Europa em seu dormobile para enfrentar os críticos em debates na TV onde quer que o convidassem. Por isso mesmo só ele poderia ter escrito 1985, um livro para desancar 1984, de George Orwell.
É praticamente impossível algo como 1985. Ataques a obras e autores são mais ou menos comuns no meio literário. Não é o mais interessante aqui. A questão é que em vez de apenas escrever um ensaio ou resenha dizendo o que achava de 1984, Burgess escolheu outro tipo de resposta: escrever ele mesmo como deveria ser o livro de Orwell.
Ele achava 1984 má ficção política e odiava o modo como o livro é celebrado – um manifesto libertário. Trata-se na real de uma história sobre a perda da capacidade de se apaixonar que, como profecia política, falhou completamente.
A primeira parte de 1985 é um ensaio sobre 1984 e outras obras futuristas, como Admirável mundo novo, de Huxley. Burgess amava distopias. Laranja Mecânica e Sementes Malditas são duas versões suas, tratando, respectivamente, da violência social e da ascensão dos gays. Este último é pouco conhecido e, fora a edição obscura que encontrei em um sebo, nunca mais vi à venda. Antes de Laranja Mecânica, foi o que me fez descobri-lo.
Voltando a 1984, o problema do livro de Orwell é a idéia de que o amor liberta. Claro que sim, mas não em qualquer circunstância. Não é algo realmente passável naquele contexto. E Orwell também produziu um livro bem pouco futurista na verdade. Reproduziu simplesmente a Londres de 1948, feia, sombria e arruinada pela guerra. Mas Londres logo deixou de ser assim. Em questão de anos o mundo de Orwell foi ultrapassado. Não é futurologia.
Na segunda parte, Burgess apresenta a própria versão de uma Inglaterra totalitária. A Londres de 1976, fedida e à beira do colapso, superado o cinismo da swinging London da década anterior, foi a idéia básica para a especulação sobre como seria se tudo aquilo ocorresse numa escala maior. Se todo aquele transtorno já era imposto aos londrinos, como seria se os sindicatos fossem o governo? O pano de fundo apresenta um elemento comum à obra de Burgess, o sujeito estigmatizado por não se enquadrar em um esquema.
Algum gerador de ironias históricas deve ter entrado em ação nesse ponto. A Londres que ele descreveu desapareceu rapidamente. Margareth Tatcher chegou ao poder no final da década. Enfrentou uma longa greve de mineiros cuja conseqüência foi o apoio da população às reformas liberais do governo que partiram a espinha do sindicalismo. Poucos anos depois da publicação, 1985 estava superado. No fim das contas, teve menos repercussão e importância do que 1984, que nunca deixou de ser celebrado .
Mas é infinitamente mais interessante.
* Publicado no antigo blog em 2007, reescrito agora.
Categories: Livros
Pulp no programa Britpop Now – 1995.
Categories: Música
O método de Wallace estava fundamentado na convicção de que a literatura deve se dirigir aos paradoxos e confusões do momento. Seu momento era era o capitalismo do fim do século na América, na qual, ele sabia, sua vida havia sido moldada com um genuíno senso de fraude e desespero. Isto foi especialmente verdadeiro para os jovens e cansados leitores de ficção, um grupo cujo agudo desconforto com sentido, emoção e valor Wallace considerava sintomático de uma ampla parcela na cultura. Ele observou como desprezamos a nós mesmo por sermos persuadidos pelas mesmas propagandas que parodiamos e ridicularizamos; como colocamos prazer no lugar de satisfação; como nossas realizações tendem a multiplicar nossa insatisfação. De todos que escreviam ficção nos aos 90, apenas Wallace falou diretamente conosco. Seus personagens, como seus leitores, são educados, fluentes, insatisfeitos e solitários. Arrastados ao ponto da catatonia, eles parecem incapazes incapazes de dizer o que significam. Da mesma forma, a prosa de Wallace erra sobre e através do sentido como um motor soltando faíscas e tentando compensar alguma peça quebrada. Embora uma vez tenha afirmado que poderia “nunca conseguir ser claro e conciso”, ele queria, esta falha é a chave para a estranha personificação em sua ficção da educada psiquê americana – uma psiquê sufocada com jargão manipulativo e tagarelice autoconsciente.
Death is not the end, excelente texto sobre David Foster Wallace.
Categories: literatura

Gabriel Pardal, dono do Esquadro, faz de poucas palavras algumas boas imagens. Ele criou a intervenção aí em cima a partir deste post.
Valeu, Gabriel.
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“Amebas não deixam fósseis. Elas não têm ossos (nem dentes, nem fivelas de cinto, nem aliança de casamento). É impossível, consequentemente, determinar há quanto tempo as amebas estão na Terra.
Existe a possibilidade de que elas estejam aqui desde que a cortina se abriu. Talvez até elas tenham dominado a cena desde o primeiro ato. Por outro lado, elas podem ter começado a existir apenas três anos – ou três dias ou três minutos – antes de terem sido descobertas por Anton van Leeuwenhoek, em 1674. Isso não pode ser provado.
Uma coisa, porém, é certa: como as amebas se reproduzem por divisão, infinitamente, transmitindo tudo e não desistindo de nada, a primeira ameba que existiu ainda está viva. Seja há quatro bilhões de anos ou simplesmente há trezentos ele/ ela ainda está conosco hoje.
Onde?
Bem, a primeira ameba pode estar flutuando de costas em uma luxuosa piscina de Hollywood, Califórnia. Ou, quem sabe, escondida entre as raízes das tiráceas do fundo lamacento do lago Siwash. A primeira ameba pode ainda ter acabado de cair de sua perna. É inútil especular.
A primeira ameba, como a última ou a que virá depois desta, está aqui, lá e em todo lugar, pois seu veículo, seu meio, sua essência, é a água.
Água – ás dos elementos. Água que se larga das nuvens sem pára-quedas, asas ou rede de segurança. Água que se joga do mais íngreme precipício sem vacilar. Água que penetra na terra e surge novamente em sua superfície; água que atravessa o fogo, que a faz borbulhar. Estilisticamente composta em qualquer estado – sólido, líquido ou gasoso -, falando dialetos penetrantes compreendidos por todas as coisas – animal, vegetal ou mineral -, a água viaja intrepidamente através de quatro dimensões, mantendo (chute uma alface no campo e ela gritará “Água”), destruindo (o dedo do menino holandês lembrava a vista do Ararat) e criando (diz-se até que os seres humanos foram criados pela água para transportá-la de um lugar ao outro, mas isto já é outra história). Sempre em movimento, num fluxo constante (seja em ritmo de riacho ou em velocidade de geleira), rítmica, dinâmica, onipresente, transformando-se e elaborando suas transformações, uma matemática que mostra seus erros, uma filosofia às avessas, a sempre crescente odisséia de água é irresistível. E onde quer que a água esteja, a ameba aí estará.
Sissy Henkshaw uma vez ensinou um periquito a viajar pedindo carona. Isso ela não precisaria ensinar a uma ameba.
Por sua habilidade como passageira, assim como por sua quase perfeita resolução das tensões sexuais, a ameba (e não a velha garça gritona) é aqui proclamada como a mascote oficial de Até as vaqueiras ficam tristes.
E, à primeira ameba, onde quer que ela esteja, Até as vaqueiras ficam tristes gostaria de dizer: “Feliz aniversário. Feliz aniversário para você“.
(Tom Robbins – abertura de ATÉ AS VAQUEIRAS FICAM TRISTES, uma das melhores já escritas).
Categories: Livros
Terminado o jogo, os estudantes foram inquiridos sobre o que acontece a seguir em três histórias incompetas envolvendo um motorista e um ciclista que quase colidem por um triz; dois amigos, um dos quais nunca se desculpa, embora chegue repetidamente tarde; e a conversa de um cliente com o gerente de um restaurante depois de esperar por uma hora para ser servido e ainda ter sido salpicado de comida. Aqueles que jogaram “Lemmings” (um jogo violento) sugeriram finais nos quais os personagens das histórias exibiam significantemente menos pensamentos agressivos, respostas e ações do que aqueles dos jogadores de “Tetris”.
Da Economist: videogames violentos podem tornar os jogadores mais sociáveis.
Categories: Tempos modernos
Um beijo é um momento único, capaz de definir em um lampejo se os dois vão passar algum tempo juntos – ou pelo menos lembrar-se daqueles beijos. Danilo apaixonou-se pelo beijo de Célia por um motivo inverso. A falta de sincronia ficou clara desde a primeira tentativa. Suas línguas perdidas duelaram em contraste de estilos e ritmos. Ao final, se afastaram como dois lutadores cansados e derrotados. Desde então se tornou incapaz de beijá-la sem se sentir desafiado.
Seu tipo de beijo sempre fora lento e elaborado, repleto de detalhes. Começava com leves mordidas e grande atenção ao lábio inferior, passando a abranger, na segunda fase, uma breve apresentação de seu repertório. Célia, movendo a língua freneticamente, beijava com desespero e nenhuma sutileza. Na primeira vez, espantou-o com dois golpes rápidos e violentos. Um beijo ávido. Sempre ávido. Eternamente ávido. Um beijo tão diverso do seu! Encantou-se. Fez questão do casamento para breve.
Depois de um ano, chegou à conclusão inversa. Odiava aquele beijo. Nada iria mudá-lo. Perdeu rapidamente a graça. Sentia-se torturado desde então. A infelicidade conjugal podia agüentar. Também o tédio. Mas um beijo! Um beijo ruim é demais.
Pensando a respeito no táxi: o que posso fazer? O trânsito trancado por causa do movimento da manhã. O táxi não tem ar condicionado. No rádio, um samba antigo do Agepê. Toca o celular. O nome de Célia em letras pequenas.
- Estou cega.
O trânsito demora a liberar. Uma ambulância atropelou um pedestre. A vítima fica estendida no chão com a perna quebrada, gemendo alto de dor ao receber atendimento. Fratura exposta. Motoristas que reduzem a velocidade para ver o acidente causam duas pequenas colisões, piorando ainda mais o engarrafamento. Uma sirene – da polícia – se aproxima. Por causa do barulho, fecha a janela para tentar ouvi-la melhor.
- Cega? Como?
- Não enxergo. Parei de enxergar. Cega.
- Tem alguma coisa errada?
- Não entendeu o que eu disse? Estou cega, meu filho. Não enxergo nada. É um negrume só.
Será um problema psicológico? A ligação cai. Enquanto aperta o botão de rediscagem, o trânsito libera à frente. O táxi avança junto com os outros carros. Em menos de dez minutos, aravessa a portaria do prédio dela.
- O que foi?
- Não enxergo, já disse.
- Como aconteceu?
- Uma hora enxergava normalmente. Na outra, estava assim. Cega.
- Por acaso bateu a cabeça?
- De jeito nenhum.
- Está com deficiência de vitaminas?
- Hmmm… acho que não.
- Será psicológico?
- Psicossomático.
- Hein?
- Doenças provocadas pela mente.
- Precisamos ver um médico.
- Não agora. Quero ficar aqui.
Na cozinha, móveis velhos e feios de fórmica azul. O apartamento inteiro tem a aparência de usado. Torneira parecendo ter cem anos. A pia enferrujada deixa vazar água. Chão de xadrez, quebrado em dois lugares. No início, gostava do apartamento, achou-o charmoso. Hoje preferia viver em um novo e ter móveis brancos.
Estão sentados no chão. Abraçando-a, ele a carrega até o sofá da sala. Dão-se as mãos. Ela se aninha em seu peito, fazendo-o estremecer. Perto de seu tamanho, é pequena. Abriga-a. Pensa: muito daquilo pode agüentar. Ser enfermeiro pelo resto da vida. Todos os luares que não vai conhecer. Pelo menos ela não o verá envelhecer. Será jovem para sempre.
- Como vamos ficar?
- Nada vai mudar – ele responde.
- Nem nós?
- Nada.
- E o médico?
- Podemos ficar aqui mais um pouco.
Quando seus corpos estão colados, ela ergue o rosto para que a beije. Devagar, como se resto do mundo continuasse sendo o resto do mundo, mas eles se movessem como algo extremamente rápido, como o bater das asas de um beija-flor, a cena transcorre quase em câmera lenta. Os lábios se tocam. Esquece toda a hesitação. Toma-o um sentimento de deliberada confiança. Um beijo não é a simples preparação de um ato erótico. É o sexo em si mesmo – a fusão de dois corpos pelos lábios.
Pálido, levanta-se em seguida. Ela fica no mesmo lugar. Olha-acom tristeza antes de bater a porta atrás de si.
O último beijo é um momento ainda mais intenso e particular, mesmo se o fim é do conhecimento de apenas uma parte. É a breve lembrança de que a impossibilidade não é tudo e um instante pode durar muito mais tempo do que o convencional. Sem um beijo perfeito, algo está faltando. Se acontecer, ninguém pode dizer que aquele não é um momento só seu.
Categories: Conto