Entries from May 2009
Homem e máquina
May 28, 2009 · 1 Comment

Li que Will Self ainda usa máquina de escrever.
Escrever à máquina – ele diz – impõe maior reflexão no trabalho. Sem a facilidade de reescrever infinitamente o mesmo texto no computador, costuma pensar mais a respeito antes de escrever. Se deixar para fazer muitas revisões, perderá muito tempo, precisará reescrever páginas inteiras, até a parte na qual não queria mexer.
Acredita: o texto nasce mais elaborado do que no computador sem, no entanto, perder a essência original da idéia, algo que ocorre facilmente com sucessivas reescritas.
Senti algo assim desde que comecei a escrever à mão. Com tendinite, não conseguia ficar mais de meia hora no computador sem dores. A solução foi comprar um caderno de estudante americano e começar a fazer anotações. Fazia quase só esboços no início. Hoje sou capaz de escrever textos mais longos. Um dos contos do livro, inspirado nesse post, foi escrito inteiro à mão em um café do Bom Fim. O livro foi uns 80% escrito primeiro nessa pilha de cadernos que agora guardo em casa.
Escrever à mão é um processo lento. O computador funciona para registrar idéias que surgem rapidamente. Escrevendo à mão, é impossível acelerar o processo sem transformar o texto numa espécie de taquigrafia ou acabar na situação bizarra de não reconhecer minha própria letra – situação comum. Acabo pensando muito mais antes de escrever e prestando muito mais atenção no que estou fazendo.
Paul Auster também escreve à mão. Numa entrevista quando veio para a Flip, disse que leva um ano e meio planejando o livro, criando personagens, e só começa a escrever quando todas as situações estão resolvidas. Ainda assim prefere escrever primeiro em um caderno, passando mais tarde o livro para o computador.
Woody Allen deita-se na cama com um bloco tamanho grande e rabisca um esboço completo do roteiro. No fim, leva duas semanas para digitar tudo
Charles Bukowski, em seu último livro, dizia o contrário. Como o computador havia eliminado horas de revisão, tornando sua escrita menos preguiçosa.
O que no fim me leva a pensar no diálogo entre Kerouac e Ginsberg em Almoço nu, versão David Cronenberg. Kerouac defende que a escrita é fruto da pura inspiração e se um texto é refeito demais, acaba maculando-a. Nada – ele acrescenta – é mais verdadeiro do que a voz original.
Ginsberg acha que não. Cada palavra e vírgula só devem estar ali porque precisam estar. O único desfecho é a certeza absoluta.
Categories: Livros
Então você escreveu um livro…
May 27, 2009 · Leave a Comment
Chama-se “Veja se você responde a essa pergunta”. Será lançado em julho pela Não Editora.
Resisti o quanto pude a escrever um livro de contos – início de um monte de gente aqui no RS. Não queria partir de um simples apanhado, mas de uma idéia básica. Esta passou a ser a “coletânea” publicada na Bielorússia em 2006. Mas o problema é que a liberdade que dei à Tatiana, que os traduziu, me impunha problemas. Os contos em bielorusso quase todos foram escritos entre 2002 e 2004, estavam distantes do que queria fazer agora.
A solução foi escrever quase um livro inteiro e que, se não contava com uma temática comum, devia ter uma unidade própria. Foram doze meses escrevendo e – enlouquecidamente – reescrevendo até o ponto em que achava que não ia mais conseguir só para esperar algumas semanas e reescrever mais um pouco.
Sou um obcecado, os mais chegados sabem. O livro acabou sendo sobre isso: obsessão. E matemática. Cheio de pequenos truques que exploram o cruzamento destas duas facetas.
No momento, acompanho com extremo prazer todo o processo de edição, escolha de capas, etc, no pré-lançamento. É bem divertido.
Vai se falar mais do livro aqui nas próximas semanas.
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Por falar na Não, autores da editora foram entrevistados pelo blog Mundo Livro. Boa parte do pessoal também está numa matéria do Segundo Caderno de Zero Hora de hoje sobre a geração (nascida nos) anos 80.
Categories: literatura
Ainda a escola x leitura
May 27, 2009 · 1 Comment
Um colégio de Caxias todos os anos indicava para a leitura dos alunos, fora os clássicos, apenas livros de autores de uma só editora. Todo início de ano rolava uma Feira do Livro, com presença de alguns autores, e desta se montava a grade de leituras. Pela metade dos anos 90, no dito colégio, caro e no qual estuda parte da elite da cidade, o elenco da tal editora dominava as leituras de literatura gaúcha ou contemporânea. Apenas uma professora não aceitava a escolha e oferecia aos alunos uma lista de opções.
É óbvio que o colégio levou alguma vantagem para dar exclusividade à tal editora. Os autores talvez nem soubessem o que se passava, mas de alguma forma foram beneficiados. O esquema causou dano a quem foi obrigado a ler os tais livros – os alunos. Não causaria se fossem realmente bons – o que não são. Mas mesmo que fossem, não há melhores ou mais fundamentais?
A discussão sobre as leituras na escola começa a ficar complexa.
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No post de ontem acabei cometendo uma injustiça ao não anotar a correta posição do Carlos André a respeito da importância da leitura começar em casa. Ele chama atenção hoje em novo post para o fato de que, sim, concordamos: se não houver estímulo em casa o sujeito chega à escola quase um caso perdido.
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Voltando aos livro, dois foram fundamentais para gostar de ler. Ainda não perderam nada daquilo que me fez gostar tanto deles quando era criança. O Gênio do crime provocou furor na minha turma de quinta série. Passou de mão em mão o único exemplar do colégio até ficar totalmente imprestável. Não preciso olhar o Google para me lembrar que o detetive se chama John Smith Peter Tony e que o segredo para seguir alguém sem ser notado é fazê-lo de trás para a frente.
O segundo li aos 12. Estava com caxumba, sem sair de casa. De alguma maneira a minha vida de suburbano, com irracionais antipatias pelos moradores de todas as ruas próximas (embora apenas em parte do tempo, pois era amigo deles no colégio), apego quase patriótico ào matagal atrás de nossas casas, assim como às cavernas da imensa pedra da Igreja da Penha (meu quintal) e a amizade hierárquica com os vizinhos (criamos um “exército” que durou anos, com patentes baseadas em nossas alturas – eu era capitão) tinha um correspondente na Budapeste do início do século XX. Aqueles garotos esquisitos que roubavam a massa dos vidros das janelas para mascar e passam quase a história inteira se preparando para resolver na porrada a posse de um terreno são responsáveis por hoje ainda saber pronunciar todos os nomes húngaros dos personagens. Dali em diante não teve mais volta. O livro é esse aqui.
Categories: literatura
Dois tostões e uma opinião
May 26, 2009 · 1 Comment
O que posso dizer sobre escola x hábitos de leitura. O tema rendeu posts do Sérgio Rodrigues e do Carlos André Moreira, que discutem se a escola afasta leitores.
Um lado da minha família é intelectual. Avô foi maestro e, como vice-presidente da Ordem dos Músicos, estava na lista de cassados pelo Ato Institucional número 1, em 1964. Meu pai, embora bancário, podia ter sido violinista. Recebeu convite para estudar na Checoslováquia. Não foi porque não quis. Uma tia é pianista e professora de música. Não foi o lado que me criou. Meus pais se separaram quando tinha meses de vida. Cresci apartado de todos por razões que não vale comentar. Minha mãe é uma ex-operária que, desempregada, acabou manicure. O padrasto, motorista, dirigia uma kombi entregando extintores. Fora a Bíblia e jornais populares, nenhum dos dois lia.
Tive uma infância absolutamente parecida com a infância de todos na era pré-computador. Via desenhos. Amigos um pouco mais ricos tinham videogames. Jogava futebol em dois turnos, frequentava turmas na escola e na rua, bebia escondido nas festas, mais ou menos a vida normal de um suburbano carioca. E lia.
Meus pais, apesar de típicos integrantes daquilo que viria muito tempo depois a ser chamada de classe C, compravam livros que não liam e pelos quais mal podiam pagar. Os livros eram para mim. Uma biblioteca pessoal é algo comum desde sempre na minha vida. Quando fiz onze anos e passei para a quinta série, o jornal comprado na casa mudou. Não podia ser mais o sensacionalista O Dia. Passou a ser O Globo, muito mais caro, porém “informativo”.
TV não era muito regulada em casa, exceto por um horário. De 1 às 4 da tarde tinha que ler ou estudar. Preferia ler.
Na escola, desde os 12 fui torturado com todas as bombas que se empurram aos estudantes. Li Olhai os lírios do campo com 14 anos. Sofri com a morte da cadela em Vidas Secas com a mesma idade. Lucíola, Senhora, A Moreninha, O Alienista, Dom Casmurro, quase todos incompreensíveis naquela época.
A professora foi bem honesta conosco: “São chatos, mas importantes”. Ela, porém, tinha mais um truque: a cada livro chato lido, podíamos escolher um qualquer para ler e resenhar. Vinte mil léguas submarinas foi meu primeiro. Viagem ao centro da Terra, o segundo. O conde de Monte Cristo, o terceiro.A alternância funcionou. Uma turma quase inteira de leitores se formou assim. É o máximo onde a escola pode chegar.
Com 15, desisti da escola. Estava me atrapalhando a leitura. Matemática, Física e Biologia daquele ponto em diante não me interessavam mais. Meu dinheiro do lanche dava exatamente para um guaraná litro e um salgado horrível parecido com o Fandangos. Duas ou três vezes por semana em vez de ir à aula, esperava abrir a Sendas de Olaria, comprava o guaraná, quente, e o salgadinho e ia para a biblioteca do bairro.Ficava lá até meio-dia e voltava para casa. Na hora dos estudos, lia mais.
Começava o ano com todo o gás, estudando muito, me garantia nas notas e começavam as faltas da metade para o fim. De vez em quando tinha que estudar de madrugada para compensar o dia perdido. Entre as poucas aulas que ainda assistia regularmente estava justo aquela me empurrava os livros chatos. Ainda assim eram livros.
O diferencial no fim nunca é se lemos o que nos obrigam a ler, mas tudo aquilo que não nos mandam ler e lemos assim mesmo. Teve uns livros chatos, mas ok. Melhor do que estudar matemática.
Categories: Uncategorized
O longo adeus
May 25, 2009 · Leave a Comment
Editores e autores por séculos conspiraram e lutaram por palavras, sentenças, capítulos, fontes, ilustrações, papel, diagramação, material, contracapa. Decisões de publicação fizeram uma importante diferença na literatura a cada século. Uma lógica editorial está por trás do desejo de Descartes de que o Discurso sobre o Método tivesse um formato inusualmente pequeno. O editor de A Cartuxa de Parma queria publicá-la rapidamente e necessitava que não tivesse muitas páginas. Stendhal concordou em reduzir o final (uma falha notada por Balzac). G.B. Shaw insistiu em um tipo específico (“Ficarei com Caslon até morrer”, ele disse, sendo Caslon a mesma fonte que Benjamin Franklin usou na Declaração de Independência – dos Estados Unidos). Edmund Wilson, numa ordem incomum. John Updike, em todos os aspectos físicos de seus livros. Se você fala da morte dos livros, você está falando da extinção de uma cultura comum de escolha, correção, revisão e apresentação. Se você fala do futuro dos livros, deve de alguma maneira antecipar como isso deve continuar.
Categories: literatura
Sob a luz da Física
May 20, 2009 · 2 Comments
(estava) Dormiu no táxi. (em) Acordou em Alvorada. (constante) Matou o taxista. (movimento) Fugiu feliz.
Categories: Conto
Números, números, números
May 18, 2009 · Leave a Comment

O título é uma referência a uma condição ficcional burocrática que envolve múltiplas formas de causas imoral e ilógica. O ardil expõe o alto nível de absurdo da novela, na qual o nonsense burocrático é elevado ao nível no qual os ardis são codificados com números.
Um trecho publicado numa revista foi recebeu originalmente o título de Ardil-18, mas a agente de Heller, Candida Donadio, pediu que fosse mudado para não ser confundido com o romance Mila 18, de Leon Uris, sobre a Segunda Guerra. O número 18 tem significado especial para o judaísmo e foi relevante para os primeiros esboços do livro, que tem uma grande ênfase judaica.
O título Ardil-11 foi sugerido, com o número 1 duplicado em paralelo à repetição no número de trocas de personagens na novela, mas devido ao lançamento do filme Ocean´s Eleven, de 1960, também foi rejeitado. Ardil-17 também para não ser confundido com o filme sobre a Segunda Guerra Stalag 17, assim como Ardil-14, aparentemente porque o editor não achou que 14 era um “número engraçado”.
Eventualmente, o título veio a ser Ardil-22, o qual, como 11, tinha um dígito duplicado com o 2 também fazendo referência ao número de eventos semelhantes a déjà-vu que são comuns na história.
Categories: Livros
Tagged: Ardil-22, Joseph Heller
Cento e quarenta vezes
May 15, 2009 · Leave a Comment
Enquanto escrevia “As cuecas do senhor Epaminondas estão sujas”, um olho surgiu no dorso de minha mão esquerda. Acho que tinha terçol.
Fiz um twitter só de ficção. A idéia é escrever 140 posts – se as idéias durarem tanto – e acabar. Mas para não acabar antes este é um projeto aberto. Quem quiser publicar junto, mande colaborações.
Categories: literatura
James Joyce
May 13, 2009 · Leave a Comment
Homem anda por Dublin. Nós seguimos em detalhe cada minuto do seu dia. Ele provavelmente twitta demais.
(Ulysses via Twitter)
Categories: literatura
O jogo da amarelinha
May 12, 2009 · Leave a Comment
Queria saber desenhar.
Sou incapaz de fazer um cachorro pelo menos remotamente parecer com um de sua espécie. A frustração é maior por causa da quantidade de amigos desenhistas ou que desenham e fazem música ou desenham e escrevem. Estão sempre à minha volta exibindo talento.
Enfim, não me atrevi a castigar o mundo com um desenho meu. Mas fiz uma babushka junto com um monte de gente e esta, como as outras – do monte de gente -, está sendo leiloada aqui. O leilão é beneficente e será revertido para a Orquestra de Flautas de Porto Alegre e para o Projeto Arrastão, de São Paulo.
Como não pinto e não desenho nada, a babushka foi perfurada de cima a baixo e depois fatiada. Para a idéia dar certo, precisava de um eixo. Numa ferragem, consegui o parafuso certo, mas ainda precisava serrar fora a parte de cima para o eixo funcionar.
Frase a ser escrita um dia no meu epitáfio:
“Alexandre Rodrigues, numa noite de 2009, comprovou empiricamente ser possível cortar um parafuso ao meio apenas com uma faca cega de cozinha”.
Categories: Insanidade
Celebrity deathmatch
May 7, 2009 · Leave a Comment
Isso sim é uma fofoca.
Categories: Insanidade
Tagged: Gauguin, Van Gogh


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