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Entries from December 2008

A era dos navegadores

December 22, 2008 · 2 Comments

Pretendia ter feito um diário da longa viagem de navio que terminou ontem. Escrevo do terraço de um hostel com a cidade chilena de Valparaíso logo abaixo. É uma cidade muito bonita, com grandes morros tomados de casarões estilo vitoriano, construídos no século XIX, destruídos por um terremoto de 1906 e então reconstruídos iguais. A parte central é incrivelmente bela, sem nada dever a Buenos Aires, a outra cidade do gênero que me acostumei a visitar. Bem à minha frente está o porto, lotado de navios de cargas e contâineres, e à direita, distante, Viña del Mar, uma versão chilena de Miami, Rio, Barcelona, estas cidades iguais umas às outras, que agradam a novos ricos, americanos gordos e rosados, yuppies, japoneses que não tiram os olhos da tela de cristal da máquina fotográfica, mas que no me gustam. Há uma orla bonitinha, prédios luxuosos e uma praia. Parece bastante Copacabana. Todas não acrescentam nada umas às outras.

Voltando à viagem de navio, o relato deveria ter sido mais atualizado. Muita coisa aconteceu. O cruzeiro durou duas semanas. Neste tempo estive em duas reservas de pinguins, subi o trem do fim do mundo em Ushuaia, visitei as Falklands, cruzei o Cabo Horn e passei ao lado de geleiras azuis do tamanho de montanhas no Canal de Beagle, enfrentei tormentas no Estreito de Magallanes, uma noite em claro esperando o salvamento dos náusfragos de um barco oceanográfico, assisti ao pouso de um helicóptero no teto do restaurante para o resgate de um passageiro que se sentiu mal, vi fiordes de vários tipos, uma cachoeira verde e subi em um vulcão ativo. Isso tudo em sete dias.

Nos outros sete dias – de navegação – esperava escrever a respeito da viagem não fosse a descoberta, já embarcado, que isso me custaria a exorbitrância de 75 centavos de dólar o minuto. De modo que apenas no Brasil usarei todas aquelas anotações e desenhos. Até lá posso dizer que viajar de navio para o sul do continente foi a maior coisa que fiz na vida.O caminho dos grandes navegadores continua perigoso, emocionante, misterioso e belo. Os navios são maiores, mas tem dias em que suas dezenas de milhares de toneladas não significam quase nada diante da força do mar.

O título deste post deveria ser ¨Uma coisa supostamente chata que vou fazer outra vez¨. É uma piada com o ensaio de David Foster Wallace sobre outra viagem de navio, cujo título diz justamente o contrário. Sobre Foster Wallace, escrevi um texto que saiu no primeiro número dos Cadernos de Não-ficção da Não Editora. ¨O Escritor Deprimido¨ começa na página 48, mas a revista inteira vale ser lida.

Volto na sexta ao Brasil. Amanhã viajo para Santiago, que ainda não conheço. Dizem que lá há condores.

Até a volta.

P.S. Hoje vi pelicanos.

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Homem ao mar

December 8, 2008 · 3 Comments

Pelo que posso me lembrar, a idéia estava na minha cabeça desde Encontro com a morte, de Agatha Christie, o primeiro livro “sério” que li, aos treze ou quatorze anos. Se passava em um cruzeiro para o Egito cheio de aristocratas. Desde então a vaga idéia de um dia fazer uma longa viagem de navio foi sendo corroída  pela constatação de que cruzeiro significa música caribenha, uns americanos branquelos de chapeuzinho e uma cafonice sem fim.

É tudo isso mesmo, mas até agora até que está sendo divertido. Desde ontem minha e pelas próximas duas semanas a minha moradia oficial é um transatlântico gigantesco, de doze andares, chamado Norwegian Sun. A viagem começou à tarde em Buenos Aires. Hoje o barco aportou em Montevidéu, de onde sai mais tarde para esse itinerário.

Primeiras impressões:

1 – A Argentina é um país realmente irritante quando se trata de deixá-la. O embarque demorou quase três horas em um galpão a uns 50 graus de temperatura ambiente. Foi preciso passar por QUATRO longas filas, em intermináveis check-ins.

2 – Basicamente, há velhos no navio. Toneladas deles. Alguns incrivelmente decrépitos, me levando a imaginar o esforço deles para estar ali.

3 - Americanos são estereótipos vivos. Quase todos são gordos, rosados e com cara de que moram em Miami e desconfiam desse tal Obama.

4 - Há uma incrível quantidade de asiáticos entre a tripulação. Indianos, indonésios, malaios, chineses, até uma nepalesa.

5 - Pelo menos nas primeiras 24 horas, enquanto estou tolerante, a viagem tem sido a oportunidade de conhecer e conversar com mais estrangeiros do que jamais foi possível. Hoje tomei café com umas velhinhas judias de Manhattan, que confessaram a vontade e o medo de conhecer o Rio e me fizeram prometer ir a Israel. Ontem, dando uma banda, acabei no meio de um grupo de francesas que até elogiaram meu francês.

6 – Americanos são realmente muito gordos.

7 - Os restaurantes são incrivelmente bons. Há nove deles, todos de culinária internacional e cinco estrelas. Todos de graça.

8 - Ver os americanos no café da manhã explica porque são tão gordos.

9 – Quem não viu O Cavaleiro das Trevas em espanhol não viu nada.

À tarde, o navio parte para a Patagônia. O roteiro promete uma visita à maior reserva de leões marinhos do mundo e avistamento de baleias, além da visita à cidade argentina de Puerto Madryn. Enquanto isso o Vasco foi para a Segunda Divisão. Não me lamentarei agora. Tenho um ano para ficar triste.

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