
Sensacional isso aqui: fotos – do arquivo da revista Life – de estrelas da música nos anos 70 nos lares de pais ou avós.

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Categories: Mondo
There is no such thing as a weird human being
TOM ROBBINS – Another roadside attraction
Rodolfo se divertia com um joguinho na internet quando o chefe mandou chamá-lo. “Tenho más notícias, seu Rodolfo”, o chefe disse logo que ele entrou na sala. Era um homem à moda antiga. Falava cheio de mesuras e rodeios e senhores e senhoras. Penteava os cabelos no estilo combo, os fios desgraçadamente incapazes de cobrir a grande clareira no alto da cabeça. Continuou: “A empresa, seu Rodolfo, está numa época de cortes e ajustes e…”
Rodolfo não esperou o resto da conversa. Voltou para seu computador e para seu joguinho. Só mais tarde começou a esvaziar a mesa. Guardou tudo na mochila e foi embora do escritório. Saiu sem se despedir de ninguém. Não tinha ali ninguém mesmo com quem se importasse ou que suspeitasse que se importava com ele. Bando de filhos da puta. Com a expressão perdida, deixou o prédio, caminhou até a banca de jornal e comprou um cartão telefônico. Foi até um orelhão e discou o número da ex-mulher. Logo que Fátima atendeu, sem deixar ela falar, berrou todas as barbaridades que sempre pensou dela em todos aqueles anos. Bateu o telefone a seguir. Suava. Seu rosto estava vermelho. Sentia-se leve, portador de uma verdade só sua.
No dia seguinte, acordou com uma fortíssima dor de barriga. Dobrado em cólicas, deu o nome do hospital ao taxista e foi deitado no banco de trás do carro. Ao dar entrada na emergência, no entanto, o funcionário da triagem o mandou para a sala de espera lotada. De nada adiantaram seus protestos, ameaças e súplicas. Para não se aborrecer no trabalho, o funcionário da triagem costumava alternar as personalidades. Em alguns dias era um atendente bastante razoável e educado, ajudando aos doentes no que podia e condoendo-se da dor e do sofrimento alheios. Em outros, pelo contrário, completamente irascível e injusto, não dava a menor importância a eles, tratava-os com impessoalidade, desprezo até. Fisicamente, era espantosamente parecido com o barão do Rio Branco. Estava em um de seus piores dias, para azar de Rodolfo.
Ajeitando-se numa cadeira de plástico, Rodolfo verificou no letreiro luminoso que o último número chamado fora o 135-A (o seu era o 272-B). Não demorou, porém, a descobrir que todos os doentes, grávidas e idosos eram atendidos na sua frente.
“Têm prioridade”, deu de ombros o funcionário da triagem quando foi reclamar.
Como todo mundo ali era idoso, doente ou grávida, cinco horas depois a sala continuava lotada e ele ainda esperava. As tripas o fizeram se contorcer um pouco mais e ele, finalmente perdendo a paciência, se levantou e começou a gritar com o funcionário da triagem e com outros pacientes e também com os seguranças, que o arrastaram para fora. Com o resto dos créditos do cartão telefônico, ligou para Adele, que foi sua última namorada antes do casamento com Fátima. Adele atendeu. Antes que terminasse de falar ela já chorava. Sempre foi meio mole, a Adele. Encerrada a ligação, com ofensas recém-ditas ainda frescas na memória, caminhou pelo meio da praça arrastando os pés e levantando uma nuvem de poeira do chão só para atrapalhar as crianças que brincavam. Chutou uma pedra tentando acertar um pombo. Uma velha, sentada próxima, olhou-o com reprovação. Ele respondeu: “Ora, vá se foder, minha senhora”. A cólica havia passado.
Mal havia acabado de acender um baseado na sala, mais ou menos uma semana depois, e a síndica tocou a campainha para reclamar do cheiro de maconha no corredor do prédio. Desde que deixou o emprego passou a fumar sem parar. Não tinha muito o que fazer e nem vontade de procurar emprego. A síndica só foi embora depois que ele concordou em assinar a notificação do condomínio. Levando o papel dobrado no bolso da calça, Rodolfo partiu em um ônibus no fim da tarde para o centro. As ruas ainda estava cheias. Teria que esperar. Foi até uma pastelaria, pediu um pastel de queijo e um caldo de cana. Quando terminou de comer já estava escuro. Saindo da Rua da Praia, subiu a Rua da Ladeira e buscou refúgio na entrada da Biblioteca. Fora naquele mesmo lugar que anos antes pela primeira beijou Camila, que um tempo depois foi embora com outro para Barcelona. Aconteceu antes de Adele. Nunca mais teve notícia de Camila. Rodolfo tirou uma chave de fenda do bolso e, calmamente, esculpiu vários palavrões e desenhos pornográficos na porta, feita de madeira trabalhada e antiga, causando a indignação do diretor da biblioteca, que, na manhã seguinte, ao chegar para trabalhar e ver o estrago, pôs-se logo a escrever um artigo, criticando o vandalismo, a falta de respeito elo patrimônio histórico e outras coisas reclamações, publicado no segundo maior jornal da cidade. O artigo realmente ficou muito bem escrito, mas Rodolfo não o leu, pois comprava apenas o jornal concorrente.
Houve também um baile de fim de ano na pequena cidade onde vivia sua família, no interior de Minas. Rodolfo viajou para o Natal depois de longos anos de ausência. Naquela cidadezinha passou as férias durante quase toda a adolescência. Tinha boas lembranças daqueles tempos. Na noite da festa, no entanto, reencontrou Marcial, desafeto antigo. Ambos se desentenderam naquela noite, como muitas vezes antes, por causa de uma antiga namorada. Marcial acabou levado pelos seguranças para o lado de fora. Ficou à espera de Rodolfo. Quando o baile acabou, antes que Rodolfo dissesse qualquer coisa, Marcial saiu de trás de uma árvore e atirou na sua perna antes de fugir Mancando, Rodolfo caminhou até a casa de uma tia e pediu socorro na cozinha, onde a família estava reunida. Mas antes de sair para o médico pediu licença a todos por um instante e mancou de volta até o telefone. Naquele momento nada era mais importante do que ligar para Cláudia, razão da mais devastadora tristeza que já sofreu e de ter se tornado incapaz de articular os próprios sentimentos, sua primeira namorada de verdade, aquela que lhe ensinou o amor.
Categories: Conto
Ah, sim, o assunto é o São Paulo. O São Paulo hoje em dia é o riquinho da turma no Campeonato Brasileiro. É como o garoto que ganhava um Genius quando quase todos levavam uma mesa de botão de presente de Natal. Que estudava em um colégio com ônibus próprio. Quando adolescente, o dono daquela casa bonita com um amplo terraço onde ocorriam as melhores festas.
Nas pornochanchadas, o São Paulo seria aquele personagem geralmente chamado Dudu. Aparecia de repente na praia sem camisa e de calça branca, dirigindo um Puma conversível. A loura de biquíni que conversava com outros personagens – tipo o Paulo José e o Flávio Migliaccio – dava tchau, entrava no carro de Dudu e iam os dois embora. Paulo José – ou Flávio Migliaccio tanto faz – ficavam sozinhos por um instante refletindo a respeito da situação, então um cutucava o outro e dizia algo do tipo:
- Ifo Vuvu, han?
Tem novo texto meu no Impedimento.
Categories: Futebol
Na seção de chocolates do Nacional da Protásio todas as barras estão dentro de capas lacradas de DVD. Um funcionário sentado no chão tem mais ou menos dez destas caixas de plástico grosso transparente abertas diante de si e ao lado mais um monte equivalente de barras de chocolate Lacta. Dentro de cada capa de DVD põe um chocolate e depois lacra a embalagem. Pensando se tratar de alguma promoção peço informações. Ele interrompe o trabalho por um instante pisca umas boas vezes – oito pelo menos – e começa a explicar.
“Não é promoção. É por motivo de segurança. Mas pode levar a embalagem na caixa que ela vai tirar”.
“Muita gente quebrando os chocolates?”
“Não. Antes fosse assim. Muita gente querendo fazer um dinheiro aqui. Mas agora (mostra um chocolate lacrado) se forem botar dentro da calça vai ser difícil de esconder”.
“É tanto assim?”
“Na sexta-feira passada eu não conseguia vigiar aqui estando lá diante dos caixas e também não dá para ver das câmeras. Deixaram tudo vazio (aponta para a prateleira). Então eu dei a sugestão à gerente. Na outra loja em que trabalhei puseram isso”.
“E deu certo?”
“Deu. Mas também tinha vez em que colocavam aqui um selo de leitura (diz um tipo, não lembro). Mas sabe que descobrimos que um sem vergonha levou um lápis eletrônico para a loja? Desarmava o alarme”.
Começo a escolher finalmente um chocolate. Todos os da Lacta Garoto e Nestlé já estão protegidos em estojos. Até os da Neugebauer. Livres restam os do Nacional. Como ocupam muito mais espaço a quantidade de chocolates nas prateleiras é pequena.
Depois de pesar as possibilidades de constrangimento – a única fila aberta parada e a caixa impaciente tentando de todas as formas tirar o chocolate de dentro da capa e pessoas da fila me olhando incomodadas e eu tendo que olhar de volta a dizer que não é culpa minha é do lacre – pego sem muito ânimo uma barra de Nacional com amendoim. Vou te dizer que chocolate de merda.
Categories: Insanidade
Ela também tinha uma história passada no trabalho, bem diferente a propósito. Seu primeiro emprego, três anos antes, foi numa ótica e loja de revelações fotográficas. Chegava no fim da manhã e passava as tardes atendendo no balcão até as seis da tarde, quando ajudava Seu Herique, o dono, a baixar as portas e a apagar as luzes. Então pegava a bolsa debaixo do balcão, dava boa-noite a Seu Henrique (estavam os dois nos quase sempre sozinhos) e ia embora. Na sexta-feira da terceira semana, contudo, depois de ajudar Seu Henrique com as portas, ia começar a apagar as luzes quando ele pediu que esperasse um momento. Seu Henrique foi então até o depósito e depois de alguns minutos chamou-a lá de dentro. Ao chegar lá, ela encontrou-o com as calças abaixadas até os tornozelos e a cueca branca pela altura do joelho. Seu Henrique segurava o pinto com a mão direita. Apontava-o diretamente na sua direção, como se aquele buraco no meio fosse um olho e assim pudesse vê-la. Antes que pudesse dizer alguma coisa, ele segurou o pau com força, como se aquele buraco no meio fosse uma boca e pudesse falar.
Sentindo-se completamente ultrajada, ela não se moveu até que ele agarrou-a o braço, puxando-a para perto de si. Devagar, em silêncio, ela se abaixou e, meio indiferente à situação, pôs o negócio na boca. Não podia afirmar com certeza que esta não era uma obrigação profissional. Sabia, ouvindo falar e lendo a respeito, que eram relativamente comuns relacionamentos nos locais de trabalho, mas não tinha a menor idéia de começavam. Seria este um tipo de ritual e, assim, com um ataque abrupto, é que mais tarde acabaria apaixonada? O gosto não era ruim, mas Seu Henrique tinha um pinto grande, que encheu toda a boca, fazendo-a se afastar com violência ao quase tocar a garganta. Começou a masturbá-lo para não ter que colocar aquilo de novo na boca, mas não escapou do orgasmo. Ele enfiou o negócio de novo e logo depois gozou apertando a sua cabeça contra si. Tinha um gosto que desteou.
Não voltou mais à loja. Pediu as contas por telefone e no mesmo dia contou tudo para o irmão, que foi à loja buscar a indenização no seu lugar. Depois de receber o cheque e assinar um recibo, o irmão agarrou Seu Henrique pelos cabelos e arrastou com calma até o depósito. A loja ficou vazia. O irmão era mais jovem do que Seu Henrique. Frequentava academia três vezes por semana e comia suplementos alimentares para ficar mais forte. Dominou facilmente seu Henrique. Nos fundos da loja, o irmão arriou a calça até os tornozelos e a cueca até os joelhos. Com o negócio ainda mole, agarrou Seu Henrique pelos cabelos e, sem nenhuma emoção, apontou com os olhos. Seu Henrique começou a chorar
O irmão chegou ao apartamento dela meia hora depois usando um óculos de sol. Levou para casa, junto com a indenização, três meses a mais de salário para ela. Seu Henrique enviou, junto com o dinheiro, um cartão roxo dentro de um envelope roxo. Ela rasgou o envelope sem ler e jogou os pedaços na privada, dando descarga a seguir.
Ele terminou de comer e olhou em volta na praça da alimentação. Os olhares dele e dela se encontraram rapidamente e cada um deu um sorriso simpático, logo desviando os olhos. Após afastar a bandeja, ele tirou da bolsa um livro e começou a ler. Ali ficaram, ele ainda ignorando-a, por mais alguns minutos até que fechou o livro e, levantando-se, começou a deixar a praça da alimentação.
Ela observou-o ir embora quase em câmera lenta, desde o momento em que atravessou a praça de alimentação, depois parou diante de uma vitrine masculina (usava uma bonita camisa, talvez tivesse bom gosto) e também quando examinou as TVs de tela grande na loja de eletrodomésticos (será casado? Mora sozinho?) até a hora que esperou numa pequena fila para usar a escada rolante. Enquanto ainda podia vê-lo, imaginou uma vida para ele e como, no dia seguinte, iria voltar ao shopping para almoçar e então se reencontrariam. Descobrira qual livro ele estava lendo e, ao ler também o mesmo livro, haveria motivo para mil perguntas e comentários, e ele a tomaria por uma destas mulheres inteligentes, que era certamente o que desejava, tornando-os certamente bastante íntimos logo neste início tão promissor. A vez dele chegou na escada rolante e enquanto ele desaparecia, com desalento, ela se sentiu infeliz por todos os encontros não-concretizados pelos quais já passou e ainda teria que passar na vida.
Ele desceu pela escada rolante e depois bebeu um café expresso numa loja de chocolates do primeiro andar. Pediu duas bolinhas de cacau com conhaque, que devorou com prazer. Depois caminhou com o passo apressado na direção do banheiro. Por uma disfunção qualquer, não podia beber café expresso sem ser atacado mais ou menos dez minutos depois por uma vontade incontrolável de correr para o banheiro. Escolheu um reservado e antes de sentar-se desenhou cobriu com papel higiênico o asento da patente. Era seu método predileto para evitar os germes; o outro era ajeitar-se pouco acima do assento, sem tocá-lo, e de cima mesmo exercer sua função. A sensação de esvaziar-se encheu-o de calma.
Ela dormiu naquela noite às 22:47, mas não tinha a menor noção disso e nem do que fazer com a própria vida.
Categories: Conto
Ela não fez as unhas no horário do almoço, como nas outras quintas-feiras, porque naquela manhã choveu. O ar estava úmido e o esmalte ia demorar a secar. Em vez disso, resolveu pegar um ônibus até o shopping center, que ficava perto do trabalho.
Ele estava sentado no canto oposto da grande praça de alimentação. Tinha, desfeita à sua frente, uma embalagem do Burger King e um brinquedo dos Simpsons, que ganhou de brinde. Comia um hamburger. Caído no chão próximo dele, um saco de batatas fritas. Caíram da bandeja ao levar um esbarrão de um homem gordo que escapuliu sem dar tempo dele fazer nada. Agora comia com ar infeliz.
Ela prestou atenção nele logo que chegou. Levou para perto dele a bandeja com uma refeição leve de um fast-food natural e um pires com pedaços de melão. Comeu devagar, não querendo parecer afoita. Tinha as mãos finas e delicadas cobertas de sardas. Disfarçava o nervosismo tentando não olhar na direção dele para ver se a observava também, porém ele continuou a comer e a ignorá-la.
Ele pensava nos frangos prensados que comia todos os dias no almoço quando morava no Rio, dez anos antes. Seu emprego era vender bolsas de estudo de um curso que prometia um novo e revolucionário método para ensinar inglês, mas cujos resultados não eram, como se podia prever, nem um pouco melhores do que os demais. Era tímido demais para convencer os outros. Para sua sorte, seu primeiro cliente foi um velho livreiro que recebeu-o no depósito da loja. Tinha os braços magros e enrugados cobertos por uma pelagem branca. Estava com mais de setenta anos. Foi facilmente convencido. Depois ele mesmo explicou o porquê:
“Enquanto o senhor entrava por aquela porta eu tentava responder a mim mesmo o significado de um sonho que eu tive essa noite. Agora não tenho nenhuma dúvida. Foi um aviso. Não costumo me lembrar do que eu sonho. Às vezes, quando acordo, vem um rápido dado ou informação que escapou de desaparecer junto com o resto e é tudo que sobra do sonho; mas desta vez quando acordei o sonho ainda estava nítido na minha mente. Uma mulher muito bonita me olhava. Era mesmo um fenômeno de mulher. Usava uma fina blusa branca, sem sutiã, com o contorno dos seios evidentes e leves manchas amarronzadas no lugar dos mamilos. Numa certa hora ela entreabriu os lábios e o que me disse soou como a mais louca promessa de devassidão que ouvi na vida. Ela tinha a voz agradável e quente. Sou casado há quarenta e oito anos com a mesma mulher e sou muito feliz. Graças a Deus, nunca fui infiel. Não digo para me gabar, é porque se trata da mais pura verdade. Mas com aquela mulher ia na hora. Largava tudo mesmo. Só que ela falou tudo em inglês. Só falava inglês e eu não falo inglês. Nem uma palavra. Era nisso que pensava quando o senhor passou por aquela porta, se devia começar a aprender inglês”.
Pagou com dois cheques pré-datados. Pelas regras da empresa, tinha direito a quatorze por cento da venda.
Quando ele anunciou que fez uma venda, desenrolou-se a seguinte cena no grande escritório no centro que ocupava quase um andar inteiro e pertencia ao curso: Rodolfo, seu chefe, recebeu a notícia e então deixou a sala, foi até o lado de fora e parou diante de um gongo, pendurado diante da porta. Sem a menor cerimônia, ele apanhou um bastão com a ponta acolchoada, pendurado na parede, e fez soar duas vezes o gongo com estardalhaço. De algumas salas surgiram cabeças se perguntando o que acontecia. Logo voltaram a seus afazeres, pois este era um ritual bem comum. Na sala da diretoria, ficava um grande quadro branco com os nomes de todos os vendedores anotados com pincel atômico azul e suas vendas, com pincel atômico vermelho Alguns nomes registravam bons números – 14, 16, 18 – ao lado, eram os melhores na equipe, enquanto outros, com 8 ou 9, podiam ser definidos como os médios. O seu estava marcado com um X. Significava que não fizera nenhuma venda até o momento. Rodolfo apagou o X com a manga da camisa e, com pincel atômico vermelho, rabiscou: 1.
Continua.
Categories: Conto
Esse texto foi escrito em 10/2/2005 e foi um cartão de visitas do antigo blog, que havia entrado no ar dois meses antes. Um aviso de que não estava eu entre os filisteus. Desde então o tipo não cansou de se proliferar. Desconfio que a internet foi inventada de verdade para eles. O que seriam sem os blogs e listas de discussão? Formam uma espécie de culto incapaz de repetir nada além de um mantra: de avião que derrapa na pista em Congonhas à violência no Rio, é tudo culpa do governo. São a versão água com açúcar de certo direitismo que sempre existiu no Brasil, embora a truculência intelectual seja a mesma. Nestes anos o grupo se organizou e lapidou certas nuances de pensamento que não tinham se manifestado na época do texto original, de modo que o post merecia uma atualização.
Da série Tipinhos Insuportáveis
1. O reacionário de butique
Existe a esquerda de butique. E punks de butique. E hippies de butique. A última novidade é o reacionário de butique. O reacionário de butique é o tipo que acha moderno e charmoso ser reacionário, assim como a esquerda de butique alguns anos atrás achava moderno e charmoso ser de esquerda. Como seu contrário, acredita na moda. Se a moda é ser reacionário, vai com tudo na nova onda.
Em outros tempos, o reacionário de butique ouviria música latina e teria um poster de Che Guevara – comprado na feira hippie – no quarto. Como é um reacionário, tem um poster estilizado e colorido de Che Guevara – comprado na C&A – no quarto e ouve rock e reggae sem deixar de gostar de outros ritmos (acredita na pluralidade), desde que estes ritmos não sejam os mesmos que ouve a empregada.
Sim, o reacionário de butique, embora se diga um liberal ferrenho, e admirador dos Estados Unidos e da Europa, não admite viver, como os americanos e europeus o fazem, sem empregada. Nem que seja uma faxineira. Acredita na propriedade privada e no trabalho, mas não no trabalho de limpar a sua propriedade privada.
Tal qual a esquerda de butique, o reacionário de butique adora citações. Se a esquerda de butique recita Hobsbawn e Verissimo, o reacionário de butique decora textos inteiros de Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi. Ama a eloqüência de Olavo de Carvalho, embora sempre desista de ler depois da terceira consulta ao dicionário. Ele odeia o socialismo, mas jamais leu um livro de qualquer autor socialista para rejeitá-lo sozinho. Ama o liberalismo, porém desistiu nas primeiras páginas de “A riqueza das nações” e foi ler o resumo do livro na Wikipedia. Não conhece “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Jamais passou perto de Locke.
Acredita, muito mais, ser portador de um liberalismo instintivo, um dom natural, por assim dizer, e, mais do que tudo, na existência como um “anti”. Antipetista, anticomunista, antiaborto, etc. Prefere a cultura terceirizada e as citações, que dão menos trabalho. Devota à Veja a mesma adoração que a esquerda de butique tem pela Carta Capital, mas pelo menos compra a revista.
Todo verdadeiro reacionário de butique é um contraditório. Ao contrário do reacionário americano, seu original, ama a mídia desde que por mídia entenda-se TV Globo e não a TV Record, que odeia. Nunca vai à Igreja, mas é um católico fervoroso. É a favor do livre mercado, mas se o mercado perde dinheiro quer que o governo resolva o problema. E ainda carrega na carteira uma foto de José Serra, o mesmo que toda semana está na TV reclamando exatamente o contrário de que ele diz defender.
Jamais tente dizer a um reacionário de butique coisas como “se você é de direita e o Lula está fazendo um governo de direita, então você deveria apoiar o Lula”. Ele acha uma ofensa pessoal o PT ter se apropriado de suas idéias.
O reacionário de butique não acredita em nada. Se é publicitário, detesta a publicidade. Se é advogado, detesta a advocacia. Tudo é só para ganhar dinheiro. Ou então desiste de tudo para tentar a vida no mercado financeiro. Se é jornalista, pode nunca ter trabalhado numa redação, mas acredita que entende tudo de jornalismo. Todos os jornais estão tomados pelos comunistas ou pelos idiotas. A verdade está neles mesmos ou no mesmo jornalismo manipulado que gostam de denunciar quando concorda com a sua opinião.
E, embora deteste a esquerda, o reacionário de butique, quando vira funcionário público, passa imediatamente a acreditar no sindicato. Mas só se continuar recebendo bons aumentos salariais.
Como distinguir um reacionário de butique:
1 – Tente conversar com ele e em menos de 30 segundos surgirá na conversa pela primeira vez o nome de Paulo Francis.
2 – Todo reacionário de butique é um paranóico. Acha que a revolução comunista está quase chegando e que, se não agir rápido, poderá acabar em um gulag.
3 – Reacionários de butique se acham consumidores críticos. Consumidores críticos são uns caras que assistem Big Brother e sabiam todas as gírias de Juvenal Antena, mas se acham superiores porque, afinal de contas, riram da precariedade das cenas da invasão da Portelinha.
4 – Ah, sim, reacionários de butique se acham muito engraçados e inteligentes. Realmente acreditam no humor de direita, embora nem eles riam das piadas.
5 – Todo reacionário de butique tem um blog. Não basta ser reacionário, é preciso que os outros saibam.
6 – Por fim, todo reacionário de butique tem um parente ou amigo na esquerda de butique. Convivem sem conflitos, apesar da tensão ideológica inciial. Afinal, antes de serem de esquerda ou reacionário, os dois são mesmo é de butique.
Categories: Política