gabinetedentario.org

Entries from September 2008

Tem uma crise ali

September 30, 2008 · Leave a Comment

Agora, com todo mundo achando natural os governos irem cobrir o buraco que desonestos e irresponsáveis criaram, é hora de citar Felicidade Rosewater. Não é dos melhores livros de Kurt Vonnegut, mas, fora o diálogo abaixo,  ainda tem a ocasião em que Rosewater toma um porre e invade uma convenção de escritores e a engraçada Oração do Capitalista. Não existe livro ruim de Vonnegut.

Penso que é um governo sem coração esse que deixa um menino nascer possuindo uma grande parte do país, como eu, e deixa nascer outro menino que não tem nada. O mínimo que um governo pode fazer, segundo me parece, é dividir as coisas equitativamente entre os recém-nascidos. A vida já é bastante dura para que as pessoas tenham ainda de se preocupar com dinheiro. Aqui em nosso país há bastante para todo mundo, o problema é dividir melhor.

- E isso serviria para incentivar o quê?

- O senhor quer se referir ao medo de não ter o bastante para comer, de não poder pagar o médico, de não poder dar boas roupas à família, de não ter um lugar seguro, alegre e confortável para morar, uma educação decente, alguns momentos felizes? O senhor quer se referir à vergonha de não saber onde fica o rio do Dinheiro?

- O quê?

- O rio do Dinheiro onde corre a riqueza da nação. Nascemos nas margens desse rio… como também a maioria dos medíocres que cresceram conosco, que foram conosco às escolas particulares, que andaram de barco e jogaram tênis conosco. Podemos nos aproveitar desse rio à vontade. E podemos mesmo aprender a nos aproveitar para fazer isso com mais eficiência.

- Aprender como?

- Com os advogados.

(…)

- Qualquer americano tem possibilidade ficar rico por si mesmo.

- Sem dúvida, desde que alguém lhe diga, quando ainda for jovem, que existe o rio de Dinheiro., que não há nada de justo nesse rio, que será muito melhor esquecer tudo sobre trabalho, sistema de mérito, honestidade e toda essa empulhação e ir para onde está o rio. “Vá para onde estão os ricos e poderosos”, eu diria a ele, “e veja como eles agem. Eles podem ser adulados ou amedrontados. Adule-os ou amedronte-os enormemente e numa noite sem lua eles colocarão os dedos nos lábios, fazendo sinal para que você não faça barulho. E no escuro eles lhe levarão para o mais largo e mais profundo rio de riqueza que o homem já conheceu. Mostrarão o seu lugar na margem do rio e darão um balde para você usar. Você pode tirar o que quiser, mas trate de não fazer barulho. Um pobre poderia ouvi-lo“.

Categories: literatura

Brasil, país de…

September 29, 2008 · 1 Comment

Fui acordado hoje por uma ligação a cobrar. Mal atendo, uma voz feminina do outro lado começa a gritar que foi roubada e que é refém. Sonolento, tento conversar, mas ela grita. Então uma voz masculina assume o telefone:

- Ela está comigo. Se desligar o telefone, ela morre.

Fico em silêncio.

- Ouviu?

- Quero falar com ela – eu digo.

Ela volta ao telefone.

- Helena?

- Oi (gritos descontrolados da mulher).

- E você, Helena?

- Sou.

- Quem?

- Eu, a Helena.

Volta o homem.

- Se você desligar, vou executá-la.

- Idiota – eu digo -, ela não se chama Helena, está no… e não vou cair nessa.

Ainda dá tempo para algumas referências desrespeitosas à mãe dele, que desliga com um palavrão. Me ponho a avisar os pais de ambos os lados. Vem então a insegurança. Será que estava mesmo certo e não era ela? Será que o sono não me enganou? Será que ela não estava nervosa e se confundiu e agora eu tinha posto tudo a perder? Ela saiu de madrugada para a viagem. Coloquei-a no táxi e ficamos de nos falar na chegada. Por uma maldita coincidência, esta é a manhã em que um ladrão ordinário resolveu me chantagear. A sensação perdura até que, somente horas depois, confirmo que ela está bem e participando de um seminário.

Mudo o número do telefone ao mesmo tempo em que conto o caso aos mais próximos. Começo a receber relatos de ataques semelhantes ocorridos há pouco tempo. Como em cada acontecimento violento (furtos, assaltos, sequestro-relâmpago), há uma série de vítimas mais ou menos em volta. É assim que acabamos: fatia-se uma estatística em crimes reais e, fora uns bem absurdos, todos estão por perto.

Categories: Mondo

Paul Newman (1925-2008)

September 28, 2008 · Leave a Comment

Categories: Mondo

Pandemonium

September 26, 2008 · Leave a Comment

Pela primeira vez na vida Eurico se dá conta de que se a grande maioria dos amores termina dolorosamente – não importando a intensidade e a duração deste amor – e a dor e o trauma do fim quase sempre são muito mais duradouros do que o próprio amor em si sendo o amor verdadeiro mais raro ainda quem se apaixona antes de tudo desafia uma improbabilidade estatística.

Ele não se importa.

Categories: Quadrinhos · Shadow show · literatura

Shadow show

September 24, 2008 · 1 Comment

Eu já havia perdido quase tudo quando percebi que se fora também a minha consistência moral.

Estava condenado a ser derrotado em todas as discussões devido à minha completa ausência de convicção para sustentar um argumento. Nunca mais uma certeza na vida. Nenhuma verdade capaz de transformar o mundo.

Por outro lado, dava menos trabalho…

Categories: Metafísica · Shadow show

Luzes da cidade

September 23, 2008 · Leave a Comment

Renato um dia acordou com um homem equilibrado em sua cabeça.

Não era culpa sua e nem parecia haver explicação. Simplesmente estava lá, sem nenhuma dificuldade em equilibrar-se.

Mais tarde tentou saber algo a respeito dele, mas o equilibrista não era de muita conversa.

Categories: Luzes da cidade

Russo é melhor em tudo

September 23, 2008 · 1 Comment

Fotos de casas de madeira na Sibéria.

De chorar de bonitas. Só aumentam a certeza de que a grande viagem a ser feita é essa aqui.

Categories: Mondo

Tempos modernos – II

September 22, 2008 · 1 Comment

– A terapeuta de casais disse que não há nada de errado em fazer sexo a três e que sou vítima de repressão sexual.

– Nossa!

– Por causa disso, ontem seduzi o motoboy da pizzaria na frente do meu marido.

– Conta mais, conta mais.

– Enquanto tirava a roupa, o motoboy disse: – Preciso avisar: não temos nenhuma promoção para quem faz sexo com o entregador.

– Depois do triunfo do capitalismo, é importante definir o valor do dinheiro nas relações pessoais.

Categories: Tempos modernos

Philip Roth x Machado de Assis

September 21, 2008 · Leave a Comment

Confissão de Philip Roth ao The Guardian, a respeito de seu novo livro, Indignation:

A história é contada a partir das memórias do personagem, um soldado morto na Guerra da Coréia. Diante dos elogios à idéia, diz o jornal, “momentaneamente professoral, Roth é rápido em dizer que não está sendo original, apontando que Memórias póstumas de Brás Cubas emprega o mesmo ponto de vista narrativo”.

Destruidora a entrevista em qualquer sentido que se possa considerar a expressão.

E memórias póstumas, em inglês, é Epitaph for a Small Winner. Heh.

Categories: literatura

Tempos modernos

September 19, 2008 · Leave a Comment

– Aprendi um novo jogo ontem à noite.

– Em “Capitalismo Americano”, ganha quem consegue os lucros mais exorbitantes.

– Parece divertido.

– O melhor de tudo é que se no fim do jogo as coisas dão errado, o governo devolve as fichas.

– Não vejo a hora de jogar também.

Categories: Quadrinhos · Tempos modernos

Surreal polaroidismo

September 18, 2008 · Leave a Comment

Categories: Fotografia

E agora a propaganda eleitoral

September 17, 2008 · 1 Comment

Antoninho, o Tímido, lança sua candidatura nestas eleições.

De trás desta árvore, ele vem pedir o seu voto.

Alguém sugeriu que devia falar com os eleitores, mas Antoninho tem vergonha de incomodar.

* A árvore é de Diego Spagnuelo, do Trombone.

Categories: Política

Love # 9

September 16, 2008 · Leave a Comment

Terminou o cigarro em silêncio, nua, imóvel, pensando em alguma maneira de se mandar dali. Estava atrasada. Se chamava Amanda. Miss Samantha era um apelido. Usava-o apenas nas conversas com os outros operadores. Todo mundo tinha o seu. Todos trabalhavam em casa e não gostavam de dizer os nomes verdadeiros. Medo de seqüestro. O apelido de Carlos, dormindo ao seu lado, era Ray Davies. Davies foi o cantor dos Kinks. Ela não sabia disso, ele sim. Ela não sabia do apelido dele, ele não sabia do apelido dela. Nenhum dos dois gostava de comentar o que fazia. Medo de seqüestro.

Ele dormia profundamente ao seu lado. Ela sabia que em breve o telefone começaria a tocar e, sem poder desligá-lo, veria arruinadas as chances de sair dali em silêncio. Precisava ir embora logo.

Quando se conheceram, ela se apresentou com o próprio nome:

- Amanda.

- A-M-A-N-D-A, ele soletrou de um jeito desagradável, tentando impressionar. Quase conseguiu.

Ele sabia sobre Fibonacci. Ela tinha sido advogada antes de abandonar a carreira para, diante do computador, em casa, operar números, gráficos e títulos. Entendia de processos, representações, encargos, recebimentos, a coisa toda do Direito. Ambos achavam que sabiam bastante sobre o mercado financeiro e a bolsa de valores e todas estas outras coisas para viver disso.

Wolfgang Amadeus Mozart, pensando sabe-se lá no quê, certa vez escreveu uma composição chamada chamada “Lamba meu Ânus” e nenhum dos dois sabia disso. Não era uma informação necessária.

O pianista executava, entendiado, uma versão aguada de Chega de Saudade quando Carlos dela se aproximou. Não se conheciam, porém já estava bêbada o suficiente para não resistir à abordagem. Carlos, além do mais, era do tipo engraçado, que algumas mulheres, ela inclusive, consideram irresistível. Ambos sozinhos, sem amigos, entre grupos de estranhos que agora se empolgavam e batiam palmas. As pessoas também costumam gostar desta outra, igualmente insuportável: Andança.

Terminaram a noite no apartamento dele, que fica mais perto do bar. Ele sabia que Paul McCartney, para permanecer incógnito, registrava-se nos hotéis com seu nome dito ao contrário, Ian Iachmoe, mas que importância isso tem na hora do sexo?

Agora, enquanto tomava consciência dos acontecimentos, sentiu, com a boca ressequida, a mesma vergonha e arrependimento das outras vezes. Olhando em volta, rapidamente traçou um pequeno inventário da infelicidade de Carlos Medeiros, 41 anos, levemente acima do peso, que usa cuecas slip, morador solitário de um apartamento alugado na Glória sem estantes e com pilhas de livros abandonadas no chão, com um computador cuja mesa, pela aparência, também é usada nas refeições, e que na única prateleira disponível decidiu pôr apenas bonecos de personagens de filmes e séries de TV, que considera mais adequados à sua personalidade. As pessoas têm essa idéia de que na bolsa todos são bem sucedidos. Nem todos.

Ela sabia que na Ásia Central um buraco queima pela eternidade. Exploradores pensaram se tratar de uma caverna. Para limpar o ar viciado antes da descida, lançaram fogo pela cavidade. Era um depósito gigante de gás. Chamam-no agora de Portão do Inferno. Leu a respeito na internet. Por coincidência, ele também. Se tivessem comentado sobre isso, teriam encontrado um ponto em comum, um vínculo, de modo que, pensando  um no outro mais tarde, um dos dois ou os dois, talvez tivesse comentado “Mas veja só” e seriam no mínimo uma lembrança agradável. Mas não aconteceu e, como se empenhado a provar que certas situações sempre podem ficar piores, Carlos soltou naquele momento um longo e inacreditável flato, fazendo-a arregalar um pouco os olhos.

Deixou o apartamento logo depois com o cuidado de fechar a porta sem fazer barulho. Não dueria  acordá-lo e ser obrigada a uma despedida. Tampouco se importou em deixar anotado em algum lugar o telefone. Sob o sol do lado de fora, hesitou por um momento.  Detestava dias assim. Saiu pela rua em busca de um táxi, mas logo se deparou com o trânsito parado. Um caminhão, parado no meio, interrompia a passagem dos carros. De dentro do baú, dois homens de macacão bege tentavam desajeitadamente carregar um imenso sofá azul de quatro ou cinco lugares para a calçada. Um deles se atrapalhou com a carga e, desajeitado, caiu sentado no chão. O sofá escorregou até a parte da frente, depois caiu de pé na calçada e, finalmente, desabou com um estrondo no chão. Toda a cena foi cômica, mas ninguém riu.

Caminhou mais duas quadras até finalmente encontrar um táxi livre. Deu o endereço e, enquanto se acomodava no banco de trás, suspirou lentamente. Os eventos passados desde que abriu os olhos finalmente começaram a tomar as feições de um sonho.

Ele tinha um pateta predileto. Era Moe. Ela não lembrava mais quem eram os Três Patetas. Se ele soubesse disso, não teria abordado-a, para começar.

Categories: Conto · Love #

Foster Wallace

September 15, 2008 · Leave a Comment

He wrote about the maddening impossibility of scrutinizing yourself without also scrutinizing yourself scrutinizing yourself and so on, ad infinitum, a vertiginous spiral of narcissism – because not even the most merciless self-examination can ignore the probability that you are simultaneously congratulating yourself for your soul-searching, that you are posing.

Indo além desse trecho do tributo ao David Foster Wallace feito pela Salon, de vez em quando surge alguém cujo valor é meio que esbofetear o leitor e dizer “sim, isso aqui é possível. As regras são essas”. Talvez fosse mesmo extremamente narcisista, como aponta a Salon, ou auto-indulgente, como diz nesse post Sérgio Rodrigues. Às vezes era simplesmente chato.

Mas o fato é que originalidade nesse nível acarreta mesmo alguns exageros e não se encontra senão de muitas em muitas décadas. Dois escritores nos últimos anos tiveram a capacidade de mudar tudo o que eu pensava da literatura: Kurt Vonnegut pela  simplicidade, auto-paródia e singeleza ao extremo e Foster Wallace, ao contrário, pela verborragia, exuberância e egolatria. Ambos foram suicidas (Vonnegut, um mal-sucedido) e me lançam dúvidas sobre se a angústia na escrita não é sinal de um inevitável descontrole sobre si mesmo.

Reproduzindo o comentário do Mojo no post abaixo, o suicídio faz todo o sentido. Só não queríamos que acontecesse.

Categories: literatura

Mais um exemplo da porosidade de certas fronteiras (xi)

September 14, 2008 · 4 Comments

Como em todos aqueles outros sonhos, eu estou com alguém que conheço mas não sei se conheço e agora a pessoa de repente me mostra que estou cego. Literalmente cego, sem visão etc. Ou então é na presença dessa pessoa que eu de repente me dou conta de que estou cego. O que acontece quando entendo isso é que fico triste. Me deixa incrivelmente triste estar cego. A pessoa de alguma forma sabe com eu fiquei triste e me avisa que chorar vai machucar meus olhos de alguma forma e fazer a cegueira ficar ainda pior, mas eu não consigo evitar. Sento e começo a chorar muito mesmo. Acordo chorando na cama e chorando tanto que não consigo enxergar nada e nem distinguir nada, nada. Isso me faz chorar ainda mais. Minha namorada fica preocupada, acorda, me pergunta o que foi e passa um minuto ou mais antes de entender pelo menos que eu estava sonhando e que estou acordado e que não estou cego de verdade mas só chorando sem nenhuma razão, daí conto o sonho para a minha namorada e faço ela entender. Aí o dia inteiro no trabalho estou incrivelmente consciente da minha visão, dos meus olhos e de como é bom ser capaz de ver cores, a cara das pessoas e saber exatamente onde estou e como tudo isso é frágil, o mecanismo do olho humano e a capacidade de ver, como se pode perder isso com facilidade, como estou sempre vendo por aí com sua bengalas e caras estranhas e ficou pensando que seria interessante passar uns segundos olhando para elas e nunca pensando que elas não têm nada a ver comigo ou com os meus olhos e agora é apenas uma coincidência uma sorte eu enxergar em vez de ser um daqueles cegos que vejo no metrô. E o dia inteiro no trabalho cada vez que essa história me volta começo a lacrimejar de novo, pronto para chorar e só não choro porque a divisão entre os cubículos é baixa e todo mundo ia me ver, iam ficar preocupados e o dia inteiro depois do sonho é assim, cansativo para danar e eu bato o ponto e vou para casa, tão cansado com tanto sono que nem consigo abrir os olhos e quando chego em casa vou direto para a cama e durmo sei lá às quatro da tarde e apago mais ou menos.

(David Foster Wallace)

Categories: literatura