
Agora, com todo mundo achando natural os governos irem cobrir o buraco que desonestos e irresponsáveis criaram, é hora de citar Felicidade Rosewater. Não é dos melhores livros de Kurt Vonnegut, mas, fora o diálogo abaixo, ainda tem a ocasião em que Rosewater toma um porre e invade uma convenção de escritores e a engraçada Oração do Capitalista. Não existe livro ruim de Vonnegut.
“Penso que é um governo sem coração esse que deixa um menino nascer possuindo uma grande parte do país, como eu, e deixa nascer outro menino que não tem nada. O mínimo que um governo pode fazer, segundo me parece, é dividir as coisas equitativamente entre os recém-nascidos. A vida já é bastante dura para que as pessoas tenham ainda de se preocupar com dinheiro. Aqui em nosso país há bastante para todo mundo, o problema é dividir melhor.
- E isso serviria para incentivar o quê?
- O senhor quer se referir ao medo de não ter o bastante para comer, de não poder pagar o médico, de não poder dar boas roupas à família, de não ter um lugar seguro, alegre e confortável para morar, uma educação decente, alguns momentos felizes? O senhor quer se referir à vergonha de não saber onde fica o rio do Dinheiro?
- O quê?
- O rio do Dinheiro onde corre a riqueza da nação. Nascemos nas margens desse rio… como também a maioria dos medíocres que cresceram conosco, que foram conosco às escolas particulares, que andaram de barco e jogaram tênis conosco. Podemos nos aproveitar desse rio à vontade. E podemos mesmo aprender a nos aproveitar para fazer isso com mais eficiência.
- Aprender como?
- Com os advogados.
(…)
- Qualquer americano tem possibilidade ficar rico por si mesmo.
- Sem dúvida, desde que alguém lhe diga, quando ainda for jovem, que existe o rio de Dinheiro., que não há nada de justo nesse rio, que será muito melhor esquecer tudo sobre trabalho, sistema de mérito, honestidade e toda essa empulhação e ir para onde está o rio. “Vá para onde estão os ricos e poderosos”, eu diria a ele, “e veja como eles agem. Eles podem ser adulados ou amedrontados. Adule-os ou amedronte-os enormemente e numa noite sem lua eles colocarão os dedos nos lábios, fazendo sinal para que você não faça barulho. E no escuro eles lhe levarão para o mais largo e mais profundo rio de riqueza que o homem já conheceu. Mostrarão o seu lugar na margem do rio e darão um balde para você usar. Você pode tirar o que quiser, mas trate de não fazer barulho. Um pobre poderia ouvi-lo“.










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