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Entries from March 2008

Passatempo

March 12, 2008 · Leave a Comment

Neste ponto o maníaco psicótico observa meio catatônico o mousse de amendoim devorado pela metade e a xícara quase vazia de café expresso já frio, colocados sobre a mesa diante de si, com um tampo redondo e transparente, através da qual pode ver as próprias pernas cruzadas, enfiadas em jeans sujos, e os próprios pés, cujos tênis, também imundos, não são um bom cartão de visita sobre o próprio asseio. Ele não se importa, já que a esta altura cuidar da higiene pessoal não é uma questão relevante, há assuntos mais prementes como a submetralhadora uzi que guardou na mochila, pousada nas costas da cadeira que, a propósito, em nada combina com o restante do mobiliário da cafeteria. Este homem, cujos pensamentos, ao invés de confusos, como sugere a psicologia convencional, são cristalinamente claros, se distrai com um exemplar de Paulo Coelho, levantando os olhos ocasionalmente para observar os outros presentes, que não são mais do que seis, sendo o elemento mais agressivamente destacado a criança de uns cinco ou seis anos que corre entre as mesas vestida de Robin enquanto os pais não se dão ao trabalho de discipliná-la, demonstrando que de alguma forma são participantes do culto de progenitores irresponsáveis que envenena os ambientes nas sociedades contemporâneas e, além de tudo, pelo modo de vestir, rebeldes retardados que, ultrapassados os quarenta, tentam a todo custo se agarrar à imagem e à persona que mantinham aos vinte, sendo este, a busca pela juventude eterna, um mal que aflige não apenas uns poucos, como se pode imaginar. Um outro é o homem de músculos salientes e cabelos salpicados de louro e pernas também cruzadas, cuja calça xadrez sugere algum tipo de jogador de golfe, mas que apenas segue a moda mais recente, que prefere camisetas apertadas que possam ressaltar sua forma, como esta, preta, que tem no peito e nas costas os mesmos dizeres: PILATES. E ainda é digno de alguma atenção o casal, ele com os óculos modernos e grandes tatuagens cobrindo os braços, cabelo pintado de marrom escuro, um piercing de argola no nariz, que às vezes o deixa com a aparência de um javali, sugerindo um publicitário, um DJ, um redator, qualquer coisa que combine com o visual, ela acima do peso, rugas e um rosco vincado, os olhos cansados, com a aparência de que perdeu algo, jogou fora alguma coisa, sofreu alguma derrota irremediável, não sendo possível saber a distância o que se passa entre ambos, silenciosos, cada um com a sua xícara de café fumegante diante de si, próximos da rua, de vez em quando negando um trocado aos pedintes que não param de passar, pois este também é um tormento cada vez mais presente nos dias de hoje. E ainda a mulher idosa, como as antigas avós das latas de farinha de trigo, de leite condensado e de outros produtos alimentícios, uma lembrança quase remota, posto que quase nenhuma das que chegaram à sua idade gostaria de admiti-lo. Ela tem cabelos brancos, penteados de uma maneira assustadora, e pergunta à atendente se ainda demora para aparecer o guarda que costuma verificar o parquímetro em frente, pois estacionou seu carro sem fazer o devido pagamento, razão pela qual, diante da resposta, desiste do pão de queijo, recém-servido, e beberica o café apressada, tirando da bolsa uma nota de dez que põe em cima da mesa antes de se levantar.

A pergunta: quando ele apanhar a submetralhadora da mochila, em quem vai atirar primeiro?

Categories: Conto

Parte DOIS

March 8, 2008 · Leave a Comment

Uma breve história do tempo.

Sento-me encostado à parede aos dezenove e dois anos depois, como se isso fosse possível, me encontro no mesmo lugar. Como se os dois anos não tivessem passado. Ou tivessem, mas eu não me fora. Eu tivesse-me ido, mas de alguma maneira permanecido. Ou nada disso tenha realmente se passado e, em dois anos, tudo o que aconteceu – a passagem pelo exército, o primeiro emprego, duas experiências sexuais, o conhecimento de dois tipos e drogas, a morte de um parente distante – não tenham sido mais do que um quase. Ou um quê. Ou nada. De modo que quando estou na mesma posição, no mesmo lugar, sem a lembrança de ter feito o mesmo durante 731 dias – considerando-se a passagem de um ano bissexto no transcurso – algumas coisas fazem mais sentido do que outras. Uma galáxia distante, por exemplo, move-se a centro e vinte quilômetros por segundo na direção da nossa. Quando chegar, fatos assim não terão a menor importância”.

Categories: Conto

Parte UM

March 6, 2008 · Leave a Comment

A senhora Low Chen explica como matou o marido durante um ataque de raiva em pleno jantar.

“Eu sempre dizia… dia a ele… sabe? Algumas coisas podem e outras não. Algumas se suportam e com outras é impossível. Mas ele não me dava atenção e nem me dava ouvidos. Dizia que eu falava demais. De certa forma é verdade. Falo mesmo. Estou sempre falando, mas o senhor entenda: aqui éramos só nós dois, aposentados, velhos, o tempo todo juntos. Por isso comecei a ver televisão quinze ou dezesseis horas por dia. Televisão ajuda a ficar quieto. Desde que acordo, até a hora de dormir, assisto a qualquer coisa que esteja passando. Não sou de ter preconceito. Mas ele até disso reclamava. Tornou a minha vida um inferno. Mas do que eu falava mesmo? Ah sim, tem certas coisas que se suporta e outras não. Por exemplo: depois da décima ou décima primeira vez, quando ele enfiou o dedo no nariz na mesa do jantar achei que não era mais o caso de de só reclamar. Apanhei o garfo em cima da mesa e o senhor mesmo pode ver como tudo acabou”.

Categories: Conto