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Entries from January 2008

The final cut

January 22, 2008 · Leave a Comment

Tinha o rosto amarelo e rosado e lembrava um antigo personagem de desenho. Da testa brotavam pingos de suor. No peito sem camisa, usava um grande cordão de outo. À sua frente, sobre uma toalha branca, as armas foram todas arranjadas como a obra de um artista conceitual. Estavam sem munição.

– Isso é para você – me alcançou um revólver 22 que cabia quase inteiro na minha mão.

Empertigou-se e me olhou nos olhos por um instante. Um olhar inquisidor. Depois abriu uma gaveta, pegou outra arma – uma pistola – e pôs no lugar do revólver recém-retirado. Ajeitou-o até deixá-lo alinhado com uma fileira de outras pistolas.

– Você vacilou comigo. É um filho da puta, mas se arrependeu, então não vou fazer nada contigo. Mas o Cruz eu não perdôo. Vamos dar um recado a ele (sorriu). Ah, leva o Pequeno com você.

O Pequeno levou algum tempo para conseguir se ajeitar no banco da frente. Praguejou contra o hábito da indústria de construir carros pequenos. O apelido era só um modo de dizer. Tinha mais de dois metros, o corpo largo de ex-leão-de-chácara e ex-lutador de luta-livre. Apontou seus olhos minúsculos e o nariz amassado de ex-boxeador na minha direção quando ordenou.

– Vamos.

O carro se moveu lentamente, parecendo tão sonolento quanto eu. Fora obrigado a acordar mais cedo do que o habitual. Pequeno socou a porta do apartamento com suas mãos grandes até a minha aparição com cara de sono. Me deu o recado. Agora, enquanto seguia ao meu lado, calado, parecia absorvido por alguma grande questão. Cruzava as mãos e as enfiava entre as pernas. Estava nervoso. O casaco caía por cima do câmbio. Me atrapalhava na hora de mudar a marcha, mas resolvi não reclamar.

Rodamos por mais ou menos uma hora. Paramos finalmente diante da casa. Uma rua de terra batida e poucas casas. Nenhuma como aquela.

– É aí – informei, já abrindo a porta.

– Aí?

– É. Aí.

Paredes altas e brancas. Dois andares. Janelas, porta, telhado, tudo branco, feito numa igreja. O Velho Cruz fazia questão de que todos soubessem onde morava. Era só perguntar pela casa branca na vizinhança que todos sabiam dizer.

Nenhum segurança à vista quando avancei pelo gramado bem cuidado. Portas e janelas permaneciam fechadas. Deveria bater? De repente um clique. A sensação me fez girar lentamente. Um recado. Apesar de todo o tamanho, Pequeno estivera fora do alcance da vista. Um recado, porra, um recado. Quando o encontrei, já havia saído do carro. Um recado, caralho. Apoiava as mãos no teto para segurar com mais firmeza a pistola. O cano comprido mirava a minha testa. Bem no meio.

Categories: Conto

Delicate sound of thunder

January 19, 2008 · 1 Comment

Uma criança sempre terá grande dificuldade em entender uma imagem assim. Por que seus pais estavam nus com outras pessoas?

Com sua aparição, o caos se instalou no quarto. O pai ficou paralisado em um canto. A mãe deu um berro e tentou sair da cama, mas um dos homens, talvez sem perceber o drama a se desenrolar, agarrou-a com os braços fortes e tentou puxá-la para si. Ela se desvencilhou com um safanão e uma sentença:

– Tenho nojo de você.

O grandalhão recuou, surpreso como um cão flagrado numa travessura. A criança, a quem não escapou a pantomima, achou-a divertida e começou a rir.

Categories: Conto

A momentary lapse of reason

January 17, 2008 · 1 Comment

De repente se deu conta de que o apartamento não podia ser o seu, que não costumava se vestir daquele jeito e se por acaso aquele era o seu rosto deveria haver uma boa explicação para o fato de que agora tinha olhos azuis. Mas quando a mulher surgiu à porta, achou que, como tudo na vida, era questão de ser só um pouco adaptável.

Categories: Conto

January 14, 2008 · Leave a Comment

Numa lista de melhores do mundo, o suplemento literário do The Guardian pôs a livraria El Ateneo, de Buenos Aires, em segundo lugar. Escolha justa, sinal de que, em vez de ficar se valendo apenas das atrações tradicionais, a capital está sempre criando novas para o turismo. Não duvidaria de saber que algumas megastores do Brasil têm um acervo maior, mas qual delas funciona dentro de um prédio tão bonito como o do antigo teatro da Ateneo?

No Brasil, como nos Estados Unidos, predominam as megastores, uma praga com espírito de supermercado. Ainda assim há uma loja americana na lista, a Secret Headquartes, de Los Angeles, que, depois de ver uma foto do interior, deu vontade de conhecer. Nenhuma brasileira.

Por falar em livrarias daqui, algo está acontecendo no Rio. Semanas atrás visitei as três lojas da Livraria da Travessa no centro em busca de um livro para dar de presente. Finalmente o encontrei no estoque da livraria na Travessa do Ouvidor, um lugar que, como as outras duas, surpreende pela qualidade do acervo, vendedores que, vejam só, entendem de livros e pelo ambiente. Bons livros, boa prateleira de quadrinhos e muita gente comprando. Pelas regras da indústria, não deveria existir um lugar assim. É mentira que todos só queiram preço. Só gente muito pobre de espírito não se sente bem em livrarias.

Voltando a El Ateneo, como bem explica o texto dos ingleses, trata-se de um espaço incomparável. O antigo palco, agora transformado numa cafeteria, é parte do show e as antigas coxias são pequenas salas de leitura. A foto aí em cima foi feita numa visita em 2006. Vários andares de diversão.

Categories: Mondo

A estrada (The road)

January 13, 2008 · Leave a Comment

Não há nenhum profeta na longa crônica da terra que não esteja sendo homenageado aqui hoje. Qualquer forma que você usou para se referir a você mesmo estava certa.

Difícil explicar o impacto de A estrada (The road) sem recorrer à palavra: devastação. É impossível escapar à sensação de se sentir dilacerado.

Cormac McCarthy foi brilhante ao fazer de uma história simples, bem simples até (pai e filho caminham por uma estrada em um mundo devastado por algo que sugere ter sido uma hecatombe nuclear), uma narrativa pungente e dolorosa e que, como já havia ressaltado o Firpo, parece existir independentemente de se tratar de uma obra literária, como se continuasse mesmo quando as páginas chegam ao fim.

Merece cada elogio, cada prêmio recebido. Direto sem querer ser seco ou irônico, triste sem sentimentalismos, confortante sem pieguice. É um livro terrivelmente bem escrito, cheio de trechos que provocam o tempo todo a vontade de decorá-los. Me sinto incapaz de abandoná-lo por muito tempo. Talvez a força das palavras permaneça para sempre.

Categories: literatura

5,4,3,2,1

January 8, 2008 · 1 Comment

***** A idéia de Syunsaku Sishikari é simples, mas nem por isso o efeito deixa de ser inesperado: aplicar colagens de recortes de jornal sobre fotos da própria família. Como resultado, as fotos, destituídas de rostos, se tornam imagens fragmentadas e meio fantasmagóricas, em geral bastante parecidas com pinturas. A intenção, diz o release do autor, é que quem as veja projete as imagens da própria memória no trabalho, mas essa explicação é meio pretensiosa. De todo modo, consegue um belo efeito.

**** Estava há um tempão querendo citar O biscoito fino e a massa. Idelber Avelar escreve bem, é mordaz e sabe usar a ironia. Taí então: como seria se a eleição americana ocorresse em um grêmio escolar.

*** Bruno Mazzeo é vascaíno como eu (rima infame). Mas o post, assim como a bela reportagem da Piauí de dezembro sobre as Ligas Inglesas, vai além da reclamação de torcedor. É sintomático de como o futebol morreu. É um cadáver a ser cultuado por falta de substitutos.

** Já que é verão, homens de neve.

* Momento auto-referencial: aqui, aqui e aqui, para baixar, as músicas de 777, a gravação de improviso d´Os Massa para Deus em 7/7/2007 (resposta ao “disco satânico” 666, gravado em 6/6/2006).

Categories: Insanidade

Quatro leituras da viagem (até agora)

January 5, 2008 · 1 Comment

A arte da entrevista – Picasso desmente todas as análises feitas pelo desconcertado entrevistador sobre seus quadros. Gilberto Freyre revela a Ricardo Noblat que usava uma camisinha com um penacho acoplado para provocar orgasmos nas moçoilas. Scott Fitzgerald convalescente de uma doença. Hitchcock de uma cirurgia. Marilyn Monroe, casada com Arthur Miller, a um passo de entrar na espiral que levou à sua morte. Todos humanos, frágeis e ainda assim senhores de toda a mitologia que os envolve. Tem ainda uma entrevista de Drummond, três anos antes da morte, falando da própria e a maior já feita no país: a de Samuel Wainer com Getúlio Vargas. Vai ser difícil ler algo nesse nível no resto do ano.

O vingador do futuro e outras histórias de Philip K. Dick – Dele,  sempre se diz que era um escritor de técnica medíocre com uma grande imaginação. Mais ou menos. O vingador do futuro (ou lembramos você por atacado) é um ótimo conto, bem diferente do filme, que por sua vez é tão bom quanto a história original partindo do mesmo ponto e indo numa direção diferente. A formiga elétrica é outro bom momento. Mas em geral as histórias são bem fracas, nada além de ficção científica convencional e banal. Talvez a seleção é que seja ruim. Foi publicada em 1991, quando nada de K. Dick saía no Brasil. Nunca li Minority report, que vem com mais outros contos. Talvez seja melhor. Talvez.

O púcaro búlgaro – A Bulgária existe? De tanto matarmos o tempo pode o tempo acabar mesmo morto? E se alguém mora sozinho e alguém for morar com essa pessoa, os dois passam a morar sozinhos juntos? E quando cai o dia 32 de novembro? Campos de Carvalho devia ser ensinado nas escolas. 

Não há nada lá - Joca Reiners Terron é o maior escritor brasileiro vivo. Se morresse, seria o maior escritor vivo ou morto (e colocariam seu rosto em um cartaz tipo Velho Oeste). Livro foda do início ao fim. Impossível defini-lo. Impossível não gostar e não se sentar ao meio-fio e chorar lágrimas de esguicho (obrigado, Nelson Rodrigues) por ter acabado. Experimente encarar as dez últimas páginas, entrar no mar, deixa a água cobrir a cabeça e então pensar nelas. O mundo não é o que parece. William Burroughs vive mais uma vez. Billy The Kid aparecerá como assombração. O fim é um hipercubo girando alucinadamente. O início é uma falange de demônios. Meio.

Categories: literatura